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Literatura

Das obrigações do autor moderno
Maurem Kayna

Rezam as lendas contemporâneas que o escritor que pretenda ser lido hoje em dia está obrigado a uma intensa atividade nas redes sociais, a dedicar largo tempo construindo sua base de contatos, os pretensos leitores de sua obra, e divulgando seu trabalho de todas as formas eletronicamente possíveis.  Se esse autor publicou um e-book, então, ou pretende publicar, as recomendações são ainda mais enfáticas. 
Não pretendo aqui descontruir ou combater essa visão, mesmo porque ela tem lá seu fundamento quando falamos de autores que não estão suportados pela estrutura de divulgação de uma editora, mas convenhamos que vale a pena levantar alguns questionamentos.

Baseio-me na premissa de que um escritor precisa, antes de tudo, ler. E ler muito, todos os grandes que lhe antecederam e os contemporâneos que se destaquem (no meio do caminho algum tempo será gasto com textos que não trarão grande crescimento, porque para avaliar é preciso ler – ao menos quando se prefere não caminhar somente pelas trilhas indicadas pela crítica, que muitas vezes são encomendadas).  

Adicione-se a essa premissa a constatação de que são raros (sempre foram e continuarão a ser) os escritores que (ao menos no começo da carreira e até atingirem razoável nível de excelência e/ou popularidade, que não necessariamente andam juntos) vivem exclusivamente da escrita. Muitos grandes escritores tinham como meio de pagar suas contas outras profissões, a menos que tivessem algum patrocinador (mas já não vivemos em tempos de mecenas generosos). É verdade que houve aqueles que, por sua obstinação em se dedicar à escrita arriscaram, quando a juventude lhes dava a gana e audácia necessárias, alguns abdicaram de confortos ou segurança para tentar (sem nenhuma garantia de êxito) uma carreira que sempre depende, em alguma medida, do acaso, ou da sorte, além de muito (muito mesmo!) trabalho e, sim, alianças adequadas.

Desenhado esse contexto, olho para o cenário das populares redes sociais e, mesmo sem querer  diminuí-las (talvez porque também esteja entremeada nelas e reconheça seus potenciais) acabo assinando embaixo das reflexões de Cassio Pantaleoni em seu artigo sobre literatura em tempos digitais, acrescentando outras percepções (ou mais provocações).

Facebook, não é lugar de literatura!

Calma, antes que alguns proponham meu linchamento, deixem-me explicar o que cabe nessa frase. Participo de alguns grupos do face (talvez alguns poucos membros destes, aliás, lerão essas reflexões, mas sei que serão poucos) que busquei pensando em três focos: e-books / e-readers; literatura e escritores brasileiros.  Comento cada uma das experiências contrapondo-as à corajosa manifestação de Javier Marías sobre sua ojeriza ao universo “pop writers”.

O primeiro dos focos citados – o universo de e-books e e-readers é o tema cujas interações no facebook são mais eficientes, pois as notícias postadas e a troca de informações entre membros do grupo contribui de fato para a atualização sobre o tema; permite conhecer experiências de outros usuários, saber de lançamentos de equipamentos de leitura, títulos e, eventualmente, promoções de editoras. Não se alcança nesses grupos, porém, trocas sobre conteúdos literários.

Quanto ao segundo foco, a literatura em si, convido-os a um teste: pesquise no facebook (creio que o twitter traz realidade distinta) o termo literatura. Um número reduzido de páginas ou grupos surgirá. Dos resultados apresentados, a maioria será de páginas de escritores interessados em divulgar sua própria obra; há também perfis inativos, sem conteúdo atualizado e com baixo grau de interação; e um pequeno número de páginas com resenhas, mas focadas em nichos como literatura infanto-juvenil, fanfics e fantasia, em geral baseadas numa troca de gentilezas entre autores solidários entre si, exaltando suas próprias qualidades.

Por fim, os grupos que congregam escritores – na sua esmagadora maioria iniciantes, pouco conhecidos e quase sempre independentes – restringem-se a murais para autopropaganda. As raras iniciativas onde se propõem leituras críticas de voluntários dispostos a expor seu texto e ouvir as percepções de leitores (outros escritores do grupo) também voluntários sempre contam com poucas adesões. Não fiz uma estatística ordenada, mas posso assegurar que 90% (no mínimo) dos comentários se limitam a “curtir” o texto sem qualquer comentário sobre verossimilhança, linguagem, coerência, ritmo ou estilo. Uma honrosa exceção que vivenciei foi provocada por Sergio Carmach, que chamou os escritores de um desses grupos para um evento virtual chamado “É lendo que se é lido”. A cada dia um autor colocava um trecho de narrativa ou um conto completo no mural do evento e recebia retorno dos demais leitores. Houve mais de uma edição e invariavelmente poucas adesões, especialmente para efetuar comentários. Muitos “escritores” enxergaram apenas a oportunidade de se mostrar, boa parte disponibiliza textos crivados de equívocos semânticos e gramaticais, visivelmente desprovidos de preocupação com a qualidade do texto e muito poucos se dispõem a uma análise baseada em argumentos.  Na última edição, com a ênfase dada às regras, o resultado foi mais rico, porque os participantes se dispuseram a uma análise mais detida, indicando falhas e necessidades de melhoria no texto, demonstrando uma leitura atenta. Como sempre digo que elogios vazios acrescentam menos que uma crítica dura mas bem fundamentada, fiquei, finalmente, satisfeita com a interação naquele espaço.

Mas o caso é que toda essa busca e o tempo dispendido em trocas (geralmente superficiais) toma do escritor um recurso precioso: o tempo. Tempo para escrever, re-escrever e começar tudo de novo quando o enredo não alcança a qualidade desejada, e tempo para ler, a principal matéria prima de quem pretende ultrapassar-se. Dá perfeitamente para compreender o desabafo de   Javier Marías quando reclama da necessidade de participar dos eventos de lançamento organizados pela Penguin  e lamenta que apenas um em cada 20 livros de novos autores ditos “geniais” realmente vale a pena. Para quem contra-argumentar que isso envolve gosto pessoal, volto a comentar o papel não isento das críticas que enaltece não apenas obras realmente boas, mas aquelas vinculadas ao interesse de certos mercados ou de certas relações – sem juízo de valor, apenas uma constatação. 

Isso pode ter correlação com o que comentamos antes, acerca da dificuldade de concentrarmo-os de fato em textos mais densos no espaço de um navegador, ou, pior, denotar uma tendência à deterioração da linguagem como 1985 do Anthony Burgess antecipou. Será?


07/11/2012

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Comentários:

Maurem, o assunto requer um debate contínuo. Teu artigo promove a discussão ao nível de um questionamento fundamental: por que a Literatura tornou-se tão refém? A Literatura, no sentido cultural da palavra, está sitiada. Literatura sempre foi pensada para ser lida. Ler. Centenas de pessoas me perguntam: como faço para aprender a escrever? - Acho que a pergunta deveria ser: como leio corretamente?

Gostei do teu artigo.

Abraço.
Cássio Pantaleoni, POA/RS 25/11/2012 - 14:27
Pois é. Assim caminha a humanidade, já diziam. A televisão se ocupando com os crimes e violências, com novelas cujo tema é "bem atual" e as escolas Estaduais e Municipais remando contra a maré da falta de verbas para dar aquele upgrade na tecnologia da educação. Enquanto isso, os escritores vão levando a vida assim, e-book, e-reader,excluídos do contexto mídia. Mas, formar novos, criticos e bons leitores é como formar novos, bons e críticos escritores, tudo começa pelo começo,mesmo que seja nas redes sociais como o facebook. Eu queria muito (e quero) ser escritor, mas ainda estou aprendendo a ler. Sorte não ser imediático. Enfim, bom texto, no contexto em que se aplica esse texto.

Forte abraço.
MARCOS DE ANDRADE, Passo Fundo/RS 15/11/2012 - 20:52
Maurem, como toda boa reflexão, traz mais questionamentos do que respostas. Parabéns. Sabe, se diz que não é visto não é lembrado. Poderíamos trocar o "visto" por "lido" e a lógica seria irretocável. Porém, a inquietação: quem é visto realmente é lido? Abraços, Rubem
Rubem Penz, Viamão/RS 12/11/2012 - 10:22
É verdade, Maurem. A gente precisa de muito tempo para ler e se dedicar à escrita, e temos que optar entre ocuparmos nosso tempo com isso (o tempo que sobra, já que não dá mesmo para viver de literatura) ou ficarmos nas redes, achando que vamos ser mais lidos por estarmos lá. Não tenho facebook, apenas um blog de "muitos acessos e poucos comentários", o que confirma tua teoria.

Parabéns pelo texto. Seguimos na luta.

Abraços
Daniel Rocha, Porto Alegre/RS 08/11/2012 - 14:00
Que maravilha de reflexão, caríssima. Estou publicando meu primeiro livro virtual e justamente experimantando esse dilema. Vamos em frente e seja o que os leitores quiserem...
Uili Bergamin, Caxias do Sul 08/11/2012 - 13:38

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  Maurem Kayna

Maurem Kayna é engenheira florestal, baila flamenco e se interessa por literatura desde criança. Depois de publicações em coletâneas, revistas e portais de literatura na web resolveu apostar na publicação em e-book e começou a se interessar por tudo que orbita o tema, por acreditar que essa forma de publicação pode ser uma das chances de aumentar o número de leitores no Brasil. Autora da coletânea de contos Pedaços de Possibilidade, viabilizado pela iniciativa da Simplíssimo.

mauremkayna@uol.com.br
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