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Mercado editorial

A crise dos aventureiros do livro
Paulo Tedesco

Não há crise de leitura, definitivamente. A crise do livro é sim pela saída das compras governamentais do cenário econômico e isso não é nada novo há anos. Quase 50% do total de exemplares vendidos em todo o Brasil era parte das ações governamentais, e isso acabou já vem tempo. O que está em crise é o modelo das tais “megastores” para a venda de livros.

As grandes lojas com aluguéis e cotas condominiais absurdas escoradas pela venda de livros com atendentes que não entendiam patavinas de livros, finalmente se esgotaram. E porque finalmente? Porque para sustentar essa aventura financeira era preciso sacrificar o preço do livro, como se livro fosse papel higiênico que volta e meio pedia queima de estoque para salvar faturamentos, quer dizer, no caso das grandes lojas de redes, se sacrificavam excelentes livros para salvar as ações de acionistas que nada sabiam de livros.

Vamos falar de outra forma, o que afundou foi a farra de capital bancário a juros simpáticos para gerar números (e não necessariamente boas vendas de bons livros) que agradassem ao mercado e ganhassem manchetes nos espaços destinados à economia. Era isso, nada mais.

Essa fórmula caça-níquel sacrificava toda uma cadeia de produção de um bem cultural da importância do livro, no que obviamente só poderia terminar em desastre, tão feio que a própria produção nacional de livros encontra-se, agora, ameaçada. Breve, podemos voltar ao Brasil colônia ou pré-Getúlio, importando e contrabandeando livros estrangeiros na calada da noite.

Vender celular e impressora de mesa com livros ou ter livros consignados, como alguns andaram a dizer nada teve a ver com essa crise. O que fez o barco embicar foi a história de vender livro que valia quarenta reais por dez reais com sacolinha bonita e brinde mais pontos de desconto para a próxima compra. As grandes lojas em suas estratégias camicases foram o mata-mato das vendas de livros no Brasil, queimaram até a raiz de muita editora e autor e pouco deixaram para trás.

Mas, por óbvio, temos que complementar que a virada em direção à compra em lojas virtuais também influenciou, mas jamais de forma definitiva. Aliás, veja só, porque pagar estacionamento ou tomar ônibus, se pelo mesmo custo o leitor pode receber o livro na porta de casa e por vezes com descontos interessantes? Ora, isso sim é evolução do setor, e posso apostar que hoje se vende mais livros sem compras governamentais, e com remuneração decente de autores e editores, que nunca antes na história, e graças à venda a distância.

A Amazon não revela números por medo do fisco, as vendas porta-á-porta e de autopublicação, como as pela internet, também não aparecem nas pesquisas, e geralmente não são citadas em avaliações mercadológicas. Pois é hora de reavaliar preconceitos, a crise na verdade está é nas costas dos aventureiros que levaram ao buraco editoras, autores e muito emprego e não do mundo da leitura e do leitor.

06/12/2018

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  Paulo Tedesco

É escritor de ficção, cronista e ensaísta, atua como professor e desenvolvedor de cursos em produção editorial e consultoria em projetos editoriais, também como orientador em projetos de inovação em diferentes setores. Trabalhou nos EUA, onde viveu por cinco anos, nas áreas de comunicação impressa, indústria gráfica e propaganda. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? (Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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