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Ebook no olho do outro é colírio
Paulo Tedesco

Esse artigo não poderia ter, nesta oportunidade, outro fim do que tentar, de certa forma, responder ao polvilhar de discursos em redes sociais e artigos que meu último texto, publicado aqui, terminou por provocar. Não posso negar que me surpreendeu tanta opinião, e que chegou ao ponto de certa grenalização, ou melhor, mais contra do que a favor, sobre o assunto. E muito por causa das costumeiras paixões em torno de pobres tecnologias e objetos de consumo sob o foco da mídia e das rodas sociais; o que é compreensível visto a imaturidade brasileira na aquisição de bens pretensamente sofisticados e considerados “da moda” – uma rápida viagem ao exterior mostra que temos fama e expertise internacional em adquirir quase cegamente objetos que cedo perderão valor.

Mas muito mais também surgiu se opondo ao que, sem hesitar, afirmei em Um Ebook de Fracasso, e disto, porém, muito sem grande percepção do real contexto do digital. Pois, por haver comentado sobre decadência e a estagnação do tal livro digital e seus leitores digitais, houve quem pediu números quase que iradamente, para que assim demonstrasse a origem de minhas afirmações. No entanto, nessa esparrela não caio, porque não há necessidade de números para perceber que a tal revolução na leitura que esse formato de leitura digital provocaria não ocorreu, e a se ver a quantidade de bibliotecas, de casas, escolas e empresas com Kindles, Kobos e similares, logo se compreende a banana toda.

E, sim, essa proposta tecnológica de aquisição de conteúdo é um engodo, ao menos nesse formato que nos chega. Conheço muitos casos, recentes e antigos, em que dispositivos digitais (independente de marca) não guardaram a memória do que estava arquivado, e seus donos, apesar de todo esforço – afinal havia-se gasto bom dinheiro em aquisições – nunca mais conseguiram recuperar seus livros em lugar algum. De qualquer forma, como falei, e aqui repito, os clubes de leitura digital, onde se pagam taxas mensais e anuais para leitura, ao que me parece, vêm sendo fiéis aos autores e editoras, lhes pagando direitos e cumprindo acordos sem qualquer alarde. Espero que tenhamos cada vez mais desses e que mais escolas, universidades, empresas, instituições públicas e até bibliotecas possam acessar e proporcionar aos leitores o acesso a essa forma de leitura digital.

Ao escrever sobre o desserviço à cultura, o objetivo era claro, sim, esse modelito inventado sob os auspícios da Amazon, serve para promover quem se autopublica de forma irresponsável e apressada, e nada mais. Um livro, qualquer livro, precisa de qualidade e aporte editorial, de ISBN, ficha catalográfica, de aprendizado editorial, de revisões críticas e cuidados editoriais para dar não só clareza e legibilidade, mas, fundamentalmente, para dar, e atentar, à verdadeira riqueza de algo que se compra, que se guarda e se coleciona e que pode e muda a vida de muitos, e que vem sendo o responsável pela preservação da memória da humanidade ao longo dos recentes séculos.

Não desconheço tampouco desaprovo o empenho de gente do digital, da conversão digital, e que com isso fez seu negócio, montou sua carreira e bravamente ampliou um pouco o alcance da leitura. Mas, o que é uma pena, infelizmente ninguém até agora comprovou que um livro, ou melhor, um ebook, vendido na rede, na forma que vem sendo, de fato tem sua contabilidade auditada e comprovada, e também os direitos autorais recolhidos como manda a decência e o respeito ao editor e ao autor.

Se tivéssemos, no Brasil, associações de escritores de verdade, a exemplo de outros países, alguém estaria a fiscalizar e cobrar tanto uso indevido do texto alheio, ou será que de fato se recolhe direito autoral sobre as “partes” de livros que se disponibiliza loucamente na rede? E, se comprovado algum acordo legal, pergunto se todos os livros ali são verdadeiramente liberados por autores, editores e tradutores? Cá entre nós, só entre nós, nunca foi tão fácil copiar, piratear, plagiar e enriquecer com o texto de outrem, infelizmente. Pois agradeçamos a quem libera textos, inclusive em epub, para promover o seu próprio negócio, alegando estar fazendo um negócio bom para o livro e para a leitura...


04/07/2016

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  Paulo Tedesco

É escritor de ficção, cronista e ensaísta, atua como professor e desenvolvedor de cursos em produção editorial e consultoria em projetos editoriais, também como orientador em projetos de inovação em diferentes setores. Trabalhou nos EUA, onde viveu por cinco anos, nas áreas de comunicação impressa, indústria gráfica e propaganda. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? (Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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