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A criança que fomos nos espia
Letícia Möller

Caminho na calçada de pedras com seus desenhos geométricos bicolores, pisando forte e apressada. As pernas apenas cumprem seu papel como autômatas, a mente lá na frente, na outra esquina, nas tarefas do dia.

Não é uma rua qualquer, nem um trajeto irrelevante. É o cenário da minha infância, e embora ela não tenha se passado toda aqui, por alguma razão é o retrato daqueles tempos, da menina que eu fui um dia, do meu imaginário profundo sobre mim, a minha família, a vida em seus primeiros passos.

Muitos anos se passaram e eu voltei para cá, me vi de volta ao cenário que nesses anos idealizei e protegi com pinceladas doces e cuidadas. O retorno foi ao mesmo tempo extraordinário e estranho. Extraordinário refazer meus caminhos de menina, agora com meus filhos. As idas à mesma praça, o armazém intocado, a estátua do leão, mesmo que em meio a muitas novidades e outros tantos desaparecimentos. Reatar o diálogo com o passado e brincar de repeti-lo, ser mãe e menina, misturado. Mas estranho, também. O passado se tornando cada vez mais presente, cristalizando as horas e os dias, num jogo de eterna imobilidade: ontem-hoje-sempre.

Preciso lançar minha flecha lá para frente, me desenredar dos fios dourados de um passado que começa a dominar o presente, sufocar o futuro. Corto minha autocondescendência, meus pensamentos em espiral, disciplina militar agora. Apito e marcho decidida, mais faço do que contemplo, realizo mais e idealizo menos, cumpro metas e afogo devaneios. Já não caminho tanto com as crianças. Preciso fazer acontecer, ganhar dinheiro, me virar.

Eu vou passando friamente pela rua encantada da minha infância. Piso indiferente a mesma calçada, que quando criança percorria poeticamente, seguindo o zigue-zague, cuidando para não pisar fora do desenho. Não lanço olhares saudosos para o prédio do outro lado da rua. Me orgulho do meu inédito desapego, o assassinato da nostalgia.Sou uma criatura prática agora, preocupada com o concreto do instante,as contas a pagar, o currículo a preencher, os olhos no futuro.

O tempo passa mais um pouco. É um dia qualquer de outono. Percorro o trajeto habitual, as pernas autômatas, a mente lá na frente. Estou sozinha, as crianças nas suas atividades de escola. A luz dourada se infiltra por entre as copas dos jacarandás. O colorido remete aos tempos idos, incontrolavelmente. Tento evitar, mas não consigo deixar de lançar um olhar de esguelha para o outro lado da rua. Congelo o olhar e o passo, sinto um baque no peito. Nas janelas amplas do segundo andar, uma menina magrinha de cabelos longos observa a rua. Está alheia àquela mulher na faixa dos trinta e tantos, imobilizada ali na calçada como quem vê um fantasma.

O passado retorna com uma força arrebatadora. Me sinto ínfima, pequena e frágil. Mulher adulta que fingiu crescer, que precariamente aprendeu a vestir suas máscaras para entrar no jogo de ir, fazer e vencer. Mas que agora parece sem rumo, as máscaras caídas diante daquela menina imperturbável nos seus sonhos, confiante nos seus desejos e fantasias. Não quero que ela me veja. O quem pensará a meu respeito? Terá ela me observado nesses tempos de marcha apressada e fria?

Tenho medo do seu julgamento. Ela sabe o que quer, do que gosta, o que a apaixona. Cultiva a imaginação, a poética do cotidiano, os devaneios em espiral. Ela sabe que eles levam a lugares valiosos, ela parece conhecer os caminhos. E eu, eu me sinto despojada das armas do sonho e ignorante dos caminhos. Desaprendi a ser aquela menina. Meu olhar é pedra, minha mente executa, minhas mãos obedecem. Sinto vontade de chorar. Ela teria orgulho de mim? Ou estaria profundamente desapontada?

Passo de cabeça baixa, não ouso espiar. Mas enfim ouso sentir que ela pousa seu olhar sobre mim com ternura. Como quem diz: está tudo bem.Agarra esses fios dourados, eles te levarão a lugares incríveis ao longo da tua caminhada. Lembra apenas de não te enredar, não te perder aqui no que já foi. O que será pode ser tão lindo como o que passou. Carrega contigo a memória como carga leve e renovadora. Não tenha medo de sonhar como uma menina. E não tenha medo do futuro.

Uma brisa suave balança os jacarandás, deixa cair algumas folhas. Um pequinês que passa cheira a minha perna, a dona puxa a coleira. Na banca de revistas as pessoas se aglutinam, entre fumaça e copos plásticos de café. O zelador do prédio de consultórios varre as folhas com movimentos serenos. Duas senhoras conversam sobre os problemas do condomínio. O bebê no seu carrinho adormece. A vida segue, não muito diferente do que sempre foi. Tenho vontade de andar em zigue-zague sobre as pedras coloridas, mas ainda estou acanhada.Me encho de confiança, ergo a cabeça, me viro para o segundo andar do outro lado da rua. A menina se foi. Então olho em frente, esboço um sorriso e sigo.


17/08/2015

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  Letícia Möller

LETÍCIA MÖLLER nasceu em Porto Alegre, em 1979. É escritora, advogada e professora universitária, com Doutorado em Sistemas Jurídicos e Político-Sociais Comparados pela Università del Salento, em Lecce/Itália, e Mestrado em Direito pela Unisinos. Autora dos livros infantis “Eu e você, aqui e lá!” (WS, 2010), “Corre, Pedro, corre!” (WS, 2011), “Fidalgo, Finório e Firula” (Libretos, 2013) e “Os peixes, o vovô e o tempo” (Libretos, 2015).

leticiamoller@yahoo.com.br
www.efemerasletras.blogspot.com
www.loveolivro.blogspot.com


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