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Para as mães, em seu dia, uma reflexão
Jacira Fagundes

Ser mãe é padecer no paraíso
Não será o contrário?


“Ser mãe é padecer no paraíso” é expressão lapidar que já se perpetuou. Tenho me perguntado se, em época difícil como a que vivemos hoje, alguém ainda ousaria assinar embaixo como verdade absoluta ou mesmo como uma simples crença. Eu não arriscaria, com certeza. Não seria o contrário – ser filho é que é padecer no paraíso?

Vem dos textos bíblicos esta visão da maternidade criada de forma idealizada. A gente acabou convencida da existência de um castelo espetacular onde reside uma fada que é só bem-aventurança. Pode até ser, mas isto é só uma meia-verdade. Durante o tempo de espera, a mulher vai aos poucos criando, no corpo e na mente, o espaço ideal e restrito ao pequeno ser em formação. Ao nascer o bebê, a mãe o recebe de braços e coração abertos e com o filho firmará um elo indissolúvel, ora investida de amor incondicional a guiar-lhe os passos, dia após dia, ano após ano, indefinidamente. Coube a ela a responsabilidade de aninhar o pequeno ser conforme a tradição e costumes. A sociedade faz exigências, independente de sua pobreza ou riqueza, de sua saúde ou doença, de sua boa ou difícil disposição. Ela é mãe e a sociedade impõe competência, no mais alto grau de idealização. Mas ela também é humana e quase sempre enfrenta contradições, no meio e em si própria. Hoje se encanta com o filho e amanhã se vê desencorajar. A mente, aflita em algumas ocasiões, esperançosas em outras, parece estar anos mil distante daquilo que se pretendeu ideal ou paradisíaco.

Nesta intenção de paraíso, algo mais grosseiramente para o real do que para o ideal, é que o filho constrói o destino. Também ela, a criança, resultou idealizada e seu destino é viver sob a tutela desta mulher no paraíso que lhe é destinado. Mas o filho, a princípio indefeso e totalmente dependente dos cuidados e do amor materno, vai aos poucos percebendo a si próprio como indivíduo separado da mãe. Tem início a trajetória de contradições que se perpetuará por um longo período. De repente o lugar paradisíaco sonhado passa a causar estranheza, o pequeno deixa de ser o centro, há uma gama de interesses circulando à volta e que podem ser conflitantes. Esta reviravolta o assusta e o pequeno se retrai. Não mais o centro, o jovem observa de fora, da periferia, e na maioria das vezes, não reconhece amor e dedicação nos gestos e nas palavras daqueles que criaram o paraíso. Surgem os choques, as ameaças, as perdas, os isolamentos, as pequenas e grandes desatenções. Pior ainda quando surgem violência, abandono e omissão, fatos bastante comuns nos nossos dias. Nem sempre o lar conserva-se o mesmo do início ao fim. Frequentemente ocorrem mudanças, saem pais e entram padrastos e madrastas, jornadas de trabalho caçam mães e avós assumem o papel, ou creches, ou escolas de forma incompleta e inadequada. 

No pretenso paraíso, o filho padece. Amor e culpa, lealdade e rancor, admiração e descrédito, medo e desejo, indiferença e esperança, formam o conjunto de sentimentos que se alternam da infância à fase adulta. O paraíso criado parece sofrer o abalo e as mães, antes dedicadas e altruístas, agora vão à desforra e fazem cobranças pelo que consideram ingratidão. 

Minha experiência como filha, finda faz quase duas décadas, me leva a acreditar que o ponto de ignição em todo este círculo em movimento contínuo é a expressão da culpa. Reconheço não ter amado minha mãe como deveria ter amado; busco, na expiação da culpa, ser melhor mãe do que ela foi e por merecimento, a recompensa de um amor de parte do meu filho maior do que aquele que dediquei à minha mãe. É um tiro no escuro. 

O texto bíblico ensina que Deus criou o paraíso e o entregou a seus filhos. Estes não conseguiram usufruir do paraíso da forma imposta pelo Pai e foram expulsos. Acredito que a expulsão deu-se não porque houvesse a prática do mal de parte dos filhos (afinal, que mal teria em se comer uma maçã?), mas por desobediência ao Pai. Deus não padece no paraíso. Somos cada um de nós, seus filhos, que padecemos por desobedecê-Lo. As mães tampouco deveriam padecer, não lhes cabe criar nada parecido com o paraíso, já que são humanas e não deusas. O paraíso – ficou provado no ato do Criador – não é para os humanos, seres por demais imperfeitos. 

Que as mães ajam e amem, cientes do seu modesto e nada santo papel; desprovidas de culpa por não poderem oferecer mais do que isso. Num ambiente fraterno e sem cobranças, ninguém padece.

 


12/05/2013

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  Jacira Fagundes

Jacira Fagundes é professora e escritora. A trajetória literária, encarada como ofício, teve começo em 2002, com a premiação do conto “Noite fria de vigília”, quando do lançamento do Prêmio Literário Nova Prova – 20 anos. Ficou entre os quinze autores selecionados e seu texto foi publicado em obra da Editora.

jamafag@terra.com.br
www.jacirafagundes.com


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