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Tradicionalismo

Os CTGs e a tradição solidária
Isabel Bonorino

Final de ano, já bem longe das comemorações da Revolução Farroupilha, os artistas que vivem do tradicionalismo encontram espaço em Porto Alegre, quase que, exclusivamente, em Centros de Tradições Gaúchas. Em um giro pela cidade, em pleno final de ano, é possível encontrar pessoas, que por amor à arte gaúcha ou por solidariedade, levam nossa cultura aos mais diversos lugares. Passando por CTGs, piquetes, clubes e bares pode-se ter uma noção de como está o cenário para os artistas mais gaúchos da cidade. E por que não dizer, mais amigos e solidários?


A `balonê` gaudéria

Os grupos que animam bailes continuam aparecendo e desaparecendo com os mais diversos nomes, nos mais diversos lugares da cidade. Mas bailes com grupos como Os Monarcas acabam atraindo centenas de pessoas e se transformam em eventos esperados pelos tradicionalistas. Sucessos de grupos dos anos 80 continuam agradando às novas gerações, que vão com famílias em peso aos CTGs. O costume continua vivo e, arrisco dizer que, como com Os Monarcas, no CTG Lanceiros da Zona Sul, a cena se repetiria em qualquer CTG do Estado. Dos 8 meses aos 80 anos (ou mais), ir a bailes é programa para a família inteira. Cantar as músicas junto com os grupos, levantar para dançar com determinados `hits` do passado, não é privilégio apenas de quem vai às balonês (festas que revivem os grandes sucessos pop/rock da década de 80). No Lanceiros, um grupo de amigos, que faz curso de dança gaúcha no Clube Farrapos, aproveitava o baile para mostrar o que aprendeu. A veterinária Marina Krieger sempre teve vontade de aprender dança gaúcha, mas a vergonha e a falta de companhia acabaram adiando as aulas. Incentivada por amigos acabou buscando aulas de dança e gostou do que encontrou. “É um ambiente mais familiar, tu vê gente de todas as idades convivendo em harmonia”, revela Marina, em uma das pausas entre um chote e um vanerão.


Foto: Isabel Bonorino
Marina “limpando o salão” com a pilcha nova.

A tradição das duplas

Durante esta reportagem, descobri que uma das músicas que fez Marina sair correndo no meio da entrevista para dançar e que fez em outros bailes o público levantar a poeira do salão era uma consagrada por César Oliveira e Rogério Melo. Pouco antes de seu último show em 2008, em Porto Alegre, no Clube Farrapos, a dupla da fronteira, contou um pouco de sua trajetória iniciada oficialmente em 2002 com o cd “Das coisas simples da gente”. César foi criado ouvindo música de raiz e, em um desafio com amigos, começou a tocar violão, sendo sua participação em CTGs e festivais nativistas um caminho natural. A música começou a ser levada mais a sério e César fez aulas de canto lírico, se aperfeiçoando na Europa. Seu registro vocal varia de baixo a tenor e sua técnica pode ser facilmente observada em sua voz clara e potente.

Rogério Melo começou a desenvolver seu trabalho na música por influência do amigo e professor César Oliveira e, assim como ele, também tem a voz talhada para o canto. Duplas não são novidades na música brasileira, muito menos na gaúcha e, após três anos de trabalho em conjunto, nascia o projeto do dueto fronteiriço. “Se analisar a origem dos principais grupos, a maioria dos que hoje ainda estão aí, foi em duplas”, lembra César. O trabalho da dupla é feito em cima de um projeto que começou em 2002, que tem por objetivo resgatar ritmos, temas e costumes da música campeira do RS, cantando o respeito pela chamada “Pátria Gaúcha”. A rotina começa no escritório, com a parte administrativa, e segue durante o fim de semana com viagens para o interior onde fazem shows e bailes. Os músicos estudam o folclore internacional, mas sem deixar de lado a música pampeana. Cada cd leva cerca de dois anos para ser produzido, ou seja, a dupla de amigos já está trabalhando em cima do projeto para 2010.


Foto César: Isabel Bonorino
César Oliveira: “Já fomos reconhecidos pela ONU como o maior folclore em atividade”.


De cola atada, pero no mucho

Um dos grandes sucessos da dupla aconteceu com a música “Pra bailar de cola atada”, que já tinha sido gravada para festival, mas acabou esquecida. A composição de Danúbio Viera e Juliano Gomes virou sucesso na voz de César Oliveira e Rogério Melo, em 2002. “É uma música bonita que fala do nosso cotidiano, do nosso dia-a-dia”, conta Rogério ao tentar explicar por que a música agrada tanto ao público. Machismos à parte, buscando entender a expressão, descobre-se que o termo `bailar de cola atada`, diferente do entendido pela maioria das pessoas, pode ser considerado pouco familiar, mas isso já é outra história (procure no Google e tire suas conclusões).

E mais uma vez, durante o show no Farrapos, aconteceu o esperado: dezenas de pessoas pararam para assistir à dupla, mas bastou César cantar o primeiro verso da música para o público começar a dançar.


Amizade galponeira

Entre os presentes, o empresário Airton Jr., mais conhecido como McGiver, juntamente com amigos, está sempre que pode “na cola” da dupla. Ele filma e fotografa as apresentações é já é conhecido pelos ídolos, que inclusive já o saúdam pelo apelido. Por influência das músicas de César e Rogério, McGiver decidiu usar pilcha todos os dias do ano. “Tinha vontade de assumir o lado gaudério e desde maio deste ano comecei a andar pilchado”, revela o rapaz, orgulhoso da própria façanha. Assim como outros fãs, ele e os amigos só ficaram para o show da dupla. Segundo eles, é comum as pessoas não ficarem para a próxima atração. Na seqüência, o grupo Bochincho, que faz o estilo tchê music, animaria o resto da noite. Uma das primeiras músicas falava algo tipo `Canalha eu sou`. Sem letras com vocabulário gaudério, sem pilcha, vestindo roupas normais e prejudicados pela própria falta de técnica vocal e/ou pelo equipamento de som, o grupo fez boa parte do público ir embora, confirmando a informação dada pelo público. Inconformado, Dídimo Neto, amigo de McGiver, reclama que o “maxixe” dos grupos que aderiram ao tchê music expõe demais a mulher, tanto quanto o funk. E McGiver complementa dizendo que a tal dança dos novos grupos tem muita “esfregação”. “Não é coisa de família”, resume.


Madrugada com jeito da estância

Em outro canto da cidade, no Estância de São Pedro, o pequeno espaço livre de cerca de 8 m2 era ocupado por alguns casais dançando chamamé. O local com temática gaúcha, inaugurado há 11 anos, recuperou o público do extinto Pulperia, que fechou portas em 1994. Considerado ponto de encontro para os tradicionalistas, o bar reúne freqüentadores de CTGs e universitários que vem do interior e tem saudade das noites na estância. Renata Bongiorni comanda o bar idealizado pelo pai, Ulisses Ferreira, que sempre gostou da noite e viu que havia carência de um bar tipicamente gaúcho. Junto com Marcio Antonov, organizam shows com músicos de renome como Luiz Marenco e Dante Ledesma, além de terem diariamente músicos da casa. Nesse meio, é possível reconhecer alguns rostos que já encontrei em piquetes e bailes pela cidade. Entre eles, um professor de dança que estava prestes a formar sua primeira turma de adolescentes em um projeto social do Sport Club Internacional e fui conferir.


Solidariedade via tradição

Há duas semanas do Natal, o funcionário público Antônio Dalle Molle perdia a festa da escola dos filhos para fazer o ensaio geral de sua turma no projeto INTERAGIR, mas garante que valeu a pena. Ele conta que sempre teve vontade de fazer algum trabalho social, principalmente depois de trabalhar na FASE (antiga FEBEM) e na Promotoria Criminal da Restinga, onde, conforme ele, a situação da dependência química é alarmante. “Filhos matando pais, mães acorrentando filhos, guerra de tráfico.. (...) Lá na Restinga é que surgiu a idéia de ensinar dança gauchesca para crianças e adolescentes”, conta Dalle Molle.
Ao procurar na internet ingressos para um jogo do Internacional, Dalle Molle viu um anúncio solicitando voluntários para participar do projeto organizado por Constance Piffero. Ele apresentou seu objetivo de trabalhar com adolescentes em situação de risco social e a idéia foi aprovada pelo Inter. As aulas de dança gaúcha iniciaram em agosto de 2008 e eram dadas aos sábados, na rua, no Parque Gigante, em chão batido e com um aparelho de som que Dalle Molle levava de casa.


Chuva fresca no deserto

Depois de um tempo, o grupo contou com a estrutura do DTG Lenço Colorado, do Inter. A receptividade dos jovens e o auxílio da coordenadora pedagógica do projeto, Lorena Boelter, e de outros voluntários foi essencial para o sucesso do trabalho. O projeto formou 20 jovens na oficina de dança de Dalle Molle, em dezembro. Na hora da formatura era visível a alegria e emoção de coordenadores, jovens e familiares. “Espero ter alcançado o espírito de cada um fazendo com que eles confiem mais em si mesmos, aprendendo a lidar com situações de tensão e estresse, e principalmente, que o mais importante é ser feliz”, afirma o professor. Para Lorena valorizar a cultura é importante e o Inter deve dar continuidade ao projeto em 2009, inclusive com a integração dos jovens ao grupo artístico do DTG do clube.

O exemplo desses profissionais, artistas, voluntários, amadores ou não, mostra que além da cultura e da arte, além do 20 de setembro, o tradicionalismo oferece ambientes saudáveis para todas as idades. Seja por prazer, amizade ou solidariedade, público e artista é o que não falta. E que isso sirva de termômetro para quem ainda não descobriu que arte e cultura gaúcha, além de ser um bom negócio, é como chuva fresca no deserto: uma benção na vida de muita gente.


09/01/2009

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  Isabel Bonorino

Isabel Bonorino é jornalista, radialista e relações públicas. Musicista, dedicou-se ao canto lírico de 1995 a 2005, atuando como soprano nos corais da Ospa e PUC. Foi colaboradora da Revista Literária Blau e produtora/apresentadora na Rádio da Universidade, onde criou o programa "UFRGS em Canto". Atualmente é produtora e repórter da TV Assembléia.

isabel@artistasgauchos.com.br
twitter.com/ISAbonorino


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