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Reflexão

Notas sobre a morte das artes
Marta Leiria

Desde sempre fui fã dos cinemas de rua de Porto Alegre: do Baltimore e seu vizinho e pequeno Bristol, do Cinema 1 Sala Vogue, do Coral, do Avenida. E, em especial, dos da minha infância no centro da cidade: Capitólio, Victória e Imperial. Debruçado sobre a Praça da Alfândega, o Cine Teatro Imperial, inaugurado na década de 1930 (só um ano mais jovem do que meu pai), foi considerado o cinema mais luxuoso da época. É dos exemplares mais sofisticados da arquitetura art deco no Brasil. Lembro até do cheiro característico daquelas salas antigas, fina mistura de elegância e decadência.

Houve uma época em que eu achava que as novidades cinematográficas se esgotariam. E tinha receio da extinção dos filmes. Eu era adolescente e aprendi com o tempo: ainda que os conflitos se repitam, as personagens únicas e bem construídas, com suas questões essenciais, bem como os novos enredos, são capazes de mudar as histórias. Assistimos a conflitos universais envolvendo amor, traição e ódio de forma singular, nunca antes vista, a depender de quem assina direção e roteiro. O mesmo se diga da visão do coreógrafo sobre algum clássico do balé. O trágico Giselle de antanho talvez tenha pouco a ver com o encenado no drama psicológico espanhol As Garotas de Cristal, que assisti dia desses em casa.

Ouvi, já bem adulta, de um senhor (pretensamente) erudito — teatro lotado em evento com excelentes palestrantes sobre os mais variados temas — que o romance estava morto. Os clássicos seriam insuperáveis. Ora, ler e reler Thomas Mann, Dostoievski, Tolstoi, ou assistir e rever os clássicos do cinema de todos os tempos, não significa ignorar as novidades. Ah! se eu pudesse, lá da plateia, disparar o óbvio:

— Meu senhor, uma coisa não exclui a outra! — Talvez, para ele, o raciocínio também se aplique às relações interpessoais. Idosos teriam de gostar só de gente de sua geração. O que seria da relação entre avós e novidadeiros netinhos?

Recentemente descobri duas romancistas brasileiras de tirar o chapéu (para usar um bom e antigo clichê). Ana Paula Maia, com Enterre seus Mortos, nos surpreende com um misto de novela policial, romance filosófico e faroeste de horror. O protagonista Edgar Wilson tem a profissão de removedor de animais mortos das estradas. Acompanhado do colega Tomás, um padre excomungado, Edgar tem seu cotidiano abalado quando encontra o corpo de uma mulher enforcada. E o que dizer de Carla Madeira, com Tudo é Rio, seu romance de estreia, e A Véspera? Histórias de vida de tirar o fôlego. Para o bem e para o mal. Em quatro dias devorei, sem moderação, os dois. Espero que a A Natureza da Mordida tenha reedição, está esgotado. Aposto que os fãs de Helena Ferrante irão se deliciar, como eu, com cada linha das duas joias literárias dessa escritora de primeira grandeza.

Por essas e outras, gosto de ler livros de mulheres mais velhas que não desistiram. Nem de escrever, como a Isabel Allende, nem de se atualizar, como a empresária Costanza Pascolato, que aderiu aos confortáveis tênis com vestidos (parece que lançou a moda), aos óculos modernos e ao anel de caveira presenteado pelos netos.

Se os cinemas de rua estão em franco processo de extinção, e os filmes foram transferidos aos assépticos shopping centers, hoje os lançamentos estão cada vez mais cedo disponíveis para assistirmos no sofá da sala. Quer saber? Chega de tentar dizer que em outras épocas tudo era melhor, até porque não é verdade.

Daí me pus a cogitar: será que aquele senhor que vislumbrou a morte do romance também parou de ver filmes desde a época em que os saudosos cinemas de rua fecharam? Ou se limitou a rever os filmes antigos? Gostaria de indicar para ele e para você, caro leitor, uma boa comédia dramática espanhola: a hilária e inusitada Lua de Mel com a Minha Mãe. É para rir do começo ao fim. Quem tem uma ideia dessas? Pois o diretor Paco Caballero teve. Não vou dar spoiler, mas não vale subestimar a capacidade desta excelente comédia de falar sobre temas cruciais, como relação entre mãe e filho, marido e mulher. Desejos não realizados e o porvir. Restam poucas certezas, mas ouso afirmar que enquanto a humanidade caminhar sobre a terra sempre teremos boas novidades no cinema, na literatura, na música, nas artes em geral.


04/07/2023

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  Marta Leiria

Marta Leiria é escritora e Procuradora de Justiça aposentada. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS (1985). Ingressou na carreira do Ministério Público do RS no ano de 1988, aposentando-se em março 2019. Iniciou-se em 2012 na arte da crônica e do conto, participando de oficinas de escrita criativa e publicando artigos em Zero Hora e outros jornais. Lançou seu primeiro livro individual de crônicas e contos na 65ª Feira do Livro de Porto Alegre: A inveja nossa de cada dia e outras reflexões crônicas, Ed. Metamorfose, 2019. A obra foi finalista do Prêmio Minuano de Literatura 2020 na categoria Crônica e do Prêmio Apolinário Porto Alegre 2020, da Academia Rio-Grandense de Letras.

martalealpach@gmail.com


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