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Isabel Allende: "Eu ainda tenho a mesma fúria"
Caroline Rodrigues

Tradução exclusiva de uma entrevista com a escritora Isabel Allende publicada em janeiro de 2022 no The Guardian. A renomada autora fala sobre a tarefa não terminada de substituir o patriarcado, a troca de 24.000 cartas com sua mãe e o motivo de doar todos os seus livros. Autora da reportagem: Hephzibah Anderson.

Os livros de Isabel Allende foram traduzidos para mais de 42 idiomas e em torno de 75 milhões de cópias foram vendidas mundialmente. Sua carreira abrange ficção e não-ficção. Ela também criou a Fundação Isabel Allende em homenagem à sua filha (que faleceu em 1992), que trabalha para empoderar mulheres e meninas ao redor do mundo. Seu novo romance, Violeta, abrange 100 anos e conta a vida e as épocas turbulentas de sua heroína sul-americana. Allende, 79, que nasceu no Peru e cresceu no Chile, conversou de sua casa, na Califórnia, no escritório onde escreve diariamente.

Como começou Violeta?
A ideia iniciou quando minha mãe morreu, pouco antes dessa pandemia nos atingir. Ela nasceu em 1920, quando a pandemia de gripe espanhola chegou à América Latina, então foi quase natural ter duas passagens, no começo e no fim do romance, sobre pandemias. Quando escrevo, não tenho um plano e não tenho uma mensagem – eu só quero que as pessoas venham comigo, me deixem contar uma história para elas.

A heroína homônima é baseada em sua mãe?
Violeta nasceu na mesma classe social da minha mãe, na mesma época, em um lugar que muitos leitores identificarão como o Chile. Minha mãe era como ela no sentido em que era bonita, talentosa, visionária, mas minha mãe era dependente. Violeta é alguém que consegue se sustentar e isso faz uma grande diferença. Sempre se diz que não há feminismo se você não consegue sustentar a si mesma e a seus filhos porque, se você depende, então alguma outra pessoa dá as ordens.

Violeta é um romance epistolar e o seu livro de estreia, A Casa dos Espíritos, derivou de uma cartar para o seu avô. Você é uma grande escritora de cartas?
Eu costumava escrever para a minha mãe e ela me escrevia de volta, todo santo dia, por décadas. Meu filho contratou uma empresa para digitalizar as cartas e eles calcularam que há em torno de 24.000. Está tudo lá, a vida toda da minha mãe e também a minha vida. Mas agora que não tenho a minha mãe, não tenho um registro diário da vida que eu levo a cada dia e percebo que meus dias passam muito depressa.

Como tem sido a pandemia para você?
Eu tenho conseguido fazer bastante coisa. Em dois anos, eu publiquei um livro de não-ficção feminista [Mulheres de Minha Alma], escrevi Violeta e depois escrevi outro romance sobre refugiados que está sendo traduzido e publicado em 2023 provavelmente. Eu tenho três coisas que todo escritor quer: silêncio, solidão e tempo. Mas, por conta do trabalho que a minha fundação faz com pessoas vulneráveis, tenho muita consciência de que há desespero e violência e pobreza. As primeiros a perderem seus empregos eram mulheres, migrantes.

Você disse em Mulheres de Minha Alma que você era feminista mesmo antes de conhecer a palavra.
Eu tinha consciência, desde muito jovem, que não era vantagem ter nascido mulher, mas eu também tinha consciência de injustiça social. Eu ficava furiosa pelo fato de o mundo não ser justo.

A injustiça ainda te deixa irada?
É claro! Tenho a mesma fúria que eu tinha naquela época. Tento ficar o mais calma possível e meditar – não funciona de jeito nenhum.

Qual é a maior tarefa não terminada do movimento feminista?
A principal tarefa não terminada é substituir o patriarcado. Nós estamos arrancando pedacinhos – devagar demais na minha opinião porque eu não vou chegar a ver, mas vai acontecer.

Como você se sente com as últimas eleições no Chile?
Feliz. O novo presidente fala todas as coisas que eu quero ouvir sobre inclusão, diversidade, justiça. Ele tem 35 anos – podia ser meu neto, e isso é fantástico porque é uma nova geração assumindo, finalmente.

Como é viver amplamente em inglês e escrever em espanhol?
Sabe, eu acho que esqueço como se fala espanhol porque tem certas coisas que eu só digo em inglês. Eu consigo escrever não-ficção em inglês, mas ficção, não, porque a ficção flui de uma forma muito orgânica. Vem mais do estômago do que do cérebro.

Qual é a principal diferença entre o amor nas páginas e fora delas?
Na vida real, todas as inconveniências são, às vezes, maiores do que as conveniências. Se você se casa tão tarde na vida, como eu fiz, você carrega um monte de bagagem, mas tem também um senso de urgência que faz a relação, e cada dia, muito preciosa.

Seu recente casamento é o terceiro. Você esperava isso?
Você acha que alguém espera se casar aos 77? Não! Mas aí esse homem me ouviu no rádio e se apaixonou por mim. O único motivo de termos nos casado é porque era realmente importante para ele. A gota d'água foi quando a neta dele, que tinha sete anos na época, abordou a bibliotecária na escola e disse “Você conhece a Isabel Allende?” E a bibliotecária respondeu: “Sim, sim, eu li alguns dos livros dela.” Depois de uma pausa, a Anna disse: “Ela dorme com o meu avô.”

Fale sobre a decisão de começar a escrever todos os seus livros em 8 de janeiro...
Era uma superstição no começo, mas aí minha vida ficou muito complicada e agora é disciplina. Eu queimo algumas folhas de sálvia, acendo umas velas e passo o dia com a porta fechada. Geralmente, quando eu saio, as pessoas me enviaram flores e e-mails e caixas de casca de laranja coberta com chocolate amargo. Isso me traz força e felicidade.

Que livros estão na sua cabeceira?
Estou lendo Cidade nas Nuvens, de Anthony Doerr. Eu estou ouvindo em áudio "The Marriage of Opposites", da Alice Hoffman. E tenho no meu Kindle um livro que eu deveria ter lido há alguns anos chamado "The Winter Soldier", de Daniel Mason. É uma história de guerra e eu não gosto de histórias de guerra, mas esta é extraordinária.

Como você organiza seus livros?
Eu não organizo. Eu doo.

Todos os livros?
O único livro que eu mantive foi o primeiro presente que o meu padrasto me deu quando eu tinha 10 anos, "The Complete Works of Shakespeare". Eu li como uma história e tenho eles desde então.

Tem algum clássico que você se envergonha de não ter lido?
Provavelmente Os Irmãos Karamazov. Fiquei entediada.

Que tipo de leitora você era quando criança?
Eu venho de uma geração que não tinha televisão, o rádio era proibido pelo meu avô porque ele dizia que tinha ideias vulgares e nós nunca fomos ao cinema, então eu sempre fui uma ótima leitora. Na adolescência, quando eu me sentia muito sozinha e enraivecida, a forma de escapar de tudo, e de mim mesma, era lendo.

Algum título em particular ficou na sua memória?
Lembro claramente quando eu tinha em torno de 13 anos e nós estávamos vivendo no Líbano. As meninas não vão a lugar nenhum – escola e casa, e era isso. Só para você ter uma ideia, eu fiquei sabendo do Elvis Presley quando ele já estava gordo, então eu pulei todo aquele rock’n’roll e tudo o mais. Mas meu padrasto tinha um armário que ele mantinha trancado porque lá ele tinha uísque, chocolate e Playboy, eu acho. Meus irmãos e eu abríamos ele; meus irmãos comiam montes de chocolates e eu ia direto para os quatro volumes de Mil e Uma Noites, que ficava lá porque era supostamente erótico. Era erótico, mas eu não entendia porque era tudo metáfora e eu não sabia o básico. Mas eu gostava tanto daquela leitura proibida no armário - um dia eu terei que escrever sobre isso.

***

Tradução feita com exclusividade por Caroline Rodrigues. Se você tem interesse em traduzir seus textos, confira o trabalho da autora em www.carolinerodrigues.com.br

Confira a publicação original em https://www.theguardian.com/books/2022/jan/15/isabel-allende-violeta-interview-chile-president-boric


15/02/2022

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  Caroline Rodrigues

Caroline Rodrigues é tradutora e escritora. Nasceu em São Sebastião do Caí/RS, em 1977, e atualmente mora em São Leopoldo/RS. Formada em Letras, Mestra em Linguística Aplicada e Pós-graduada em Tradução. Egressa do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, tem contos publicados em antologias da editora, publica textos em seu blog, na Revista Parêntese e no blog da Escritor Brasileiro. É autora do livro de contos Sempre tem uma cachoeira, pela Editora Metamorfose. Em 2022, participa da Oficina de Criação Literária da PUCRS.

caroline.letras@gmail.com


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