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Minicontos

Clarice Lispector e sua viagem entre a crônica e o miniconto
Xosé M. Eyré

Antes de entrar no assunto, vamos esclarecer o que entendemos por miniconto, já que a atualidade da teoria crítica é bastante confusa para olhos um pouco inquietos e rigorosos. Tentaremos ser claros e concisos sobre um assunto que parece mais revolto a cada dia como denuncia Violeta Rojo em “A minificação já não é o que era (2016).

O miniconto é uma prática escriturística narrativa, cultivada ao longo da história, mas que foi identificada como tal desde os anos 80 do século pasado (Dolores M. Koch),  estudada  sistematicamente desde a década de 90 do século passado na literatura veicular em castelhano; no Brasil, desde a primeira década de 2000 (Pedro Gonzaga, 2007 ). E se manifesta na brevidade (em termos de extensão) e na epifania ou catáfora que obrigam a uma leitura ativa (há autores que também falam em anáfora) em que o texto é repensado ou o leitor é quem conclui definitivamente o enredo proposto.

Lauro Zavala, o maior divulgador e estudioso, diz que a duração do miniconto é menor que uma página, cerca de 300 palavras em média. Em qualquer caso, para cada cultura a distancia expressiva tem uma relação diferente em termos de extensão. A brevidade na cultura anglo-saxônica não é a mesma que na ibero-americana, por sinal. Se o texto tem menos de meia página, Lauro Zavala classifica-o como conto ultracurto. Não faremos essa distinção porque entendemos que as características variam pouco entre o conto ultracurto e o miniconto.

Nem todo texto muito curto é un miniconto ou hiperbrevidade. Para isso, é fundamental que o desfecho seja epifânico ou catafórico e exista enredo. Caso contrário, é simplesmente um texto muito curto, com enredo ou sem ele.

Estamos cientes de que, principalmente na última década, houve uma forte reação da teoria crítica tradicional e ortodoxa em que a epifania não é mais considerada, isso é visto na grande maioria dos trabalhos teórico-críticos publicados na última década . Esta é uma tentativa de manter o miconto como parte do sistema literário tradicional ortodoxo, o menos permeável a mudanças em uma classificação genérica que quer ser imutável ou minimamente mutável. . Simplesmente lendo alguns exemplos canônicos, rapidamente percebemos que há epifania em todos eles, que é uma característica inerente e definitiva.

Há estudiosos que consideram miniconto uma evolução interna do conto, dentro do sistema literário tradicional. Outros optam por considerá-lo uma degeneração ou uma a-geração que daria origem a um novo gênero, dentro do sistema literário tradicional ou não. E quem o considera uma nova prática escriturística, independentemente do sistema literário herdado.

Em nossa opinião, devemos primeiro considerar a minificção ou hiperbrevidade. Depois, e dentro dela, você pode ver, minicontos (contam enredo, têm epifania), micro-relatos (não têm enredo, mas têm um final epifânico), micro teatro, microensaio, etc.

E o que a crónica está fazendo em meio a tudo isto?

A crônica brasileira é um texto curto ou muito curto, situado entre o jornalístico e o literário. Editado em jornais ou revistas, tende a expressar questões cotidianas, aproximando-se muito do biográfico, pois é sempre a opinião do cronista no meio do mundo que ele vive. No entanto, isso não o torna menos literário. Hoje, com a autoficção na moda, é ainda menos importante. Mas o que é verdadeiramente decisivo é que esses são discursos multiformes profundamente híbridos, nos quais qualquer coisa, qualquer irrupção genérica pode ser esperada. E tendo em conta que uma das origens do miniconto (ou da minificção) se situa precisamente neste tipo de textos (Francisca Noguerol, entre outros, considera que uma das origens do miniconto se encontra justamente neste tipo de literatura jornalística), as crônicas constituem um terreno pouco explorado para encontrar exemplos muito próximos de minicontos ou que, diretamente, já são minicontos.

Que tantos escritores brasileiros se tenham dedicado à crônica desperta ainda mais nossa curiosidade. Especialmente Clarice Lispector, que às vezes fazia seus contos de crônicas e suas cônicas de contos, como diz Pedro Vaz no posfácio da edição de Todas as Crônicas que vamos usar aqui. Levando em consideração que naquela época a teoria crítica ainda não havia descrito o miconto, essa nossa curiosidade já é imparável.

Sendo, por ora, o Ah É de DaltonTrevisan considerado o primeiro grande livro de minicontos do Brasil, isso não deve nos impedir de investigar a presença de minicontos em autores e obras anteriores, prática comum em qualquer literatura, e para a qual este artigo quer contribuir


Cronologia das reflexões de Clarice sobre a crônica


Em 9 de setembro de 1967, ela começou a escrever crônicas para o Jornal de Brasil. Em 19 de agosto, diz: Ainda continuo um pouco sem jeito na minha nova função daquilo que não se pode chamar propriamente de crónica.

Em 9 de março de 1968, podemos encontrar a única definição estável de sua obra como cronista: Sei que o que escrevo aqui não se pode chamar de crônica nem de coluna nem de artigo. Mas sei que hoje é um grito.

Em 22 de junho de 1968 ela reflete sobre o que significa escrever crônicas: Crônica é um relato? É uma conversa? é o resumo de um estado de espírito?

Em 21 se setembro de 1968, volta sobre o assunto: Estas coisas que ando escrevendo aqui não são, creio, propriamente crônicas.

Em 29 de maio de 1971, escreve: Vamos falar a verdade: isto aqui não é crônica coisa nenhuma. Isto é apenas. Não entra em gênero. Gêneros não me interessam mais. Interessa-me o mistério.

Em vez de crônicas, ela prefere outros rótulos não indicativos de gênero, como tambem diz Pedro Karp no posfácio

Mistério! Poucos escritores como ela são tão hábeis em criar mistérios, e é por isso que Clarice é uma escritora que sempre queremos ler, indefinidamente.

Aprecia-se que quase todas as reflexões metaliterarias acontecem nos primeiros anos nesta profissão.

Mas será em 9 de novembro de 1968 quando Clarice deixa uma definição muito apropriada para o que mais tarde será conhecido como hiper-brevidade, especificamente como miniconto: Simplesmente não me lembro que história eu estava pretendendo contar, ao escrever essas linhas. Sei que era para ser um conto, mas que aventura espiritual seria? Não me lembro mais, e deixo aos leitores menos experientes, que escrevem ainda como exercício, o trabalho de continuar... Apenas enfunei uma vela e esta se fez ao mar. Mas e o rumo? Perdi a bússola.

Na hiper-brevidade, especificamente no miniconto, é o leitor que dá continuidade ao texto que o escritor deixou impresso. Já então Clarice estava ciente de tal coisa., tinha certeza que era na mente do leitor onde os enredos terminam. Eis a epifania comentada.

É como se a autora nos preparasse para encontrar em suas crônicas o inédito de uma nova prática escriturística, que ela ainda não sabe nomear, mas sabe que se trata de textos fora do cânone teórico estabelecido.


Os minicontos de Clarice Lispector: aproximação


Depois de coletadas todas as crônicas de Clarice Lispector (Relógio de Água, 2018), pesquisadas por Larissa Vaz, com prefácio de Marina Colasanti e organizacão e posfácio de Pedro Karp Vasquez, que acrescenta mais de cem textos inéditos, podemos verificar em que medida Clarice não deixou de cultivar essa nova prática escriturística também. O resultado da nossa pesquisa é o que você vai ler a seguir.

No total, são quase 90 textos que podem ser considerados minicontos. Respondendo com mais ou menos pureza às estipulações que, décadas depois, serão feitas dessa nova prática escriturística, a verdade é que, quando não são nitidamente minicontos, suas "crônicas", muitas vezes, constituem textos de fronteira com o miniconto.

Desta riqueza iremos nos esforçar para que nada nos escape. Sempre cientes do que em uma primeira leitura pode parecer miniconto de fronteira, frequentemente na segunda leitura não há mais dúvidas.


Microrrelato:


Dois exemplos de 29 de setembro de 1968 :

SEGUIR A FORÇA MAIOR

 É determinismo, sim. Mas seguindo o próprio determinismo é que se é livre. Prisão seria seguir um destino que não fosse o próprio. Há uma grande liberdade em se ter um destino. Este é o nosso livre-arbítrio.

SÓ COMO PROCESSO 

Julgar de acordo com o bem e o mal é o único método de viver. Mas não esquecer que se trata apenas de uma receita e de um processo. De um modo de não se perder na verdade, que esta não tem bem nem mal.

Não há protagonistas explícitos, não há enredo, mas há uma epifania. Quando terminarmos de ler, precisamos continuar refletindo sobre o que lemos.

O microrrelato não está apenas na frente do miniconto, mas também com o micro-ensaio, como podemos ver aqui.

Vejamos agora outro exemplo em que a voz narradora surge como protagonista. Portanto, estamos muito próximos do miniconto. Vai depender de até que ponto o leitor considera que existe enredo com um único personagem.

ANONIMATO  

Tantos querem a projeção. Sem saber como esta limita a vida. Minha pequena projeção fere o meu pudor. Inclusive o que eu queria dizer já não posso mais. O anonimato é suave como um sonho. Eu estou precisando desse sonho. Aliás eu não queria mais escrever. Escrevo agora porque estou precisando de dinheiro. Eu queria ficar calada. Há coisas que nunca escrevi, e morrerei sem tê-las escrito. Essas por dinheiro nenhum. Há um grande silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras. E do silêncio tem vindo o que é mais precioso que tudo: o próprio silêncio.

Clarice escreveu este texto em 10 de maio de 1968. Em 29 de fevereiro de 1968 ja escrevera dois textos semelhantes. “Deus” e “Um sonho”. “O grito” de 9 de março tambem, ou “Quando chorar”, de 25 de novembro de 1967 e tantos mais. Pois bem, esta, a emergência da voz narrativa em diferentes alturas do texto, será uma estratégia narrativa amplamente utilizada e com excelentes resultados.

Às vezes, a voz narrativa é incluída no plural nós.

VITÓRIA NOSSA  de  26 DE AGOSTO de 1967

O que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia.

Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos ser tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos nem aos outros. Não temos nenhuma alegria que já tenha sido catalogada. Temos construído catedrais e ficado do lado de fora, pois as catedrais que nós mesmos construímos tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos pois isso seria o começo de uma vida larga e talvez sem consolo. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro que por amor diga: teu medo. Temos organizado associações de pavor sorridente, onde se serve a bebida com soda. Temos procurado salvar-nos, mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de amor e de ódio. Temos mantido em segredo a nossa morte. Temos feito arte por não sabermos como é a outra coisa. Temos disfarçado com amor nossa indiferença, disfarçado nossa indiferença com a angústia, disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo”, e assim não chorarmos antes de apagar a luz. Temos tido a certeza de que eu também e vocês todos também, e por isso todos sem saber se amam. Temos sorrido em público do que não sorrimos quando ficamos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso temos considerado a vitória nossa de cada dia.

O que é uma declaração de fatos é redimensionado para uma narração de atos. Epifania faz o resto.

“Tanto esforço” (26 de agosto de 1967), revela estratégia semelhante.

Essa epifania final pode ser alcançada recorrendo a um final especificamente não narrativo, mas lírico. “ O terremoto”  (23 de novembro de 68), “O morto irônico” (21 de fevereiro de 1970), “Chorando de manso” (14 de março de 1970), “Sábado” (11 de julho de 70), “Lembrança de um homem que desistiu” (18 de dezembro de 1971). Por sinal, fórmula muito rendível.

Também pode acontecer que uma reflexão final crie a epifania que redimensiona o texto. Isso acontece em "Chacrina?" (7 outubro 1967). Em qualquer caso estamos muito próximos do miniconto…se ainda não estivermos dentro dele.

Outra fórmula minicontística utilizada, se manifesta cuando o tíitulo é usado como um agente epifánico, recurso altamente valioso no minconto. Pode ser visto en “Que me ensinem” ( 4 de fevereiro de 1968) ou “Como tratar o que se tem” ( 3 de agosto de 1968), por exemplo.

E também, não podia faltar, o humor. Em “As “fugidas” da mãe” (15 dezembro 1973), “ O balé da virgen” (em O Jonral, 29 de dezembro de 1946)…  E algo entre o lirismo e o humor em “O lar” (O Jornal, 29 dezembro 1946) ou “Os encontros” ( na Senhor, 22 de outubro de 1977)

Que quando eles não são mais minicontos sem uma pitada de discussão. Como em:

AS “FUGIDAS” DA MÃE
15 DE DEZEMBRO DE 1973

Ela bem sabia que devia, e sem intervalo nenhum ter a extrema dignidade de mãe que filhos exigem. Era, é claro, uma mãe digna desse nome. Mas às vezes, cavalo bravio, como Eva a chamaria, dava uma “fugida”. A sua última “fugida” foi quando estava sozinha na rua e viu um homem vendendo pipocas. Então comprou um saco, e, andando em plena rua, comeu pipocas. O que provavelmente não lhe “ficaria bem”. Como convencê-los de que além de mãe ela era ela. E essa pessoa que exigia a liberdade de comer pipocas na rua. Amém. (Hoje é o dia do amém, ao que parece.)

O humor, a partir de qualquer um de seus recursos (ironia, sátira ...) é uma estratégia muito apreciada no miniconto. Outros exemplos estão em: “ O balé da virgem” ( de 29 de dezembro de 1946, em O Jornal). É importante lembrar que a estratégia do humor não é nem menos literária do que outras estratégias aparentemente mais sérias. O objetivo do conto é apresentar um novo ponto de vista sobre o que é narrado, e o humor, a esse respeito, é muito útil. Em “ O lar “ (também 29 de dezembro de 1946) podemos ler algo semelhante, algo atribuível ao humor, ou, pelo menos, a epifania final da última palavra, abre a porta para essa consideração a partir da multivalência que a dita palavra exprime. “Os encontros” (22 de outubro de 1977) é mais um exemplo que se encaixa aquí

Em todo caso, já estamos no campo do miniconto, aquela joia recém descoberta, que se pode traçar ao longo da história, que ameaçando o sistema teórico crítico tradicional pretende ser o gênero do século XXI (Lauro Zavala dixit). Mais casos de minicontos estão em:

-“As crianzas chatas” (19 de agosto de 1967). No mesmo dia ela publica a autoficçao “A surpresa”, outro miniconto. Nesse ponto devemos fazer uma pausa, pois a autoficção e a crônica parecem brincar para se confundir uma com a outra, embora a crônica parta de pressupostos realistas e jornalísticos, ainda é literatura.

-“Tanto esforço” ( de 26 de agosto) tambem pode ser contado. Em todo caso “O proceso” (mesmo día) já é miniconto sem discussão:

O PROCESSO

 – Que é que eu faço? Não estou aguentando viver. A vida é tão curta, e eu não estou aguentando viver.

 – Não sei. Eu sinto o mesmo. Mas há coisas, há muitas coisas. Há um ponto em que o desespero é uma luz, e um amor.

– E depois?

– Depois vem a Natureza.

– Você está chamando a morte de natureza?

– Não. Estou chamando a natureza de Natureza.

– Será que todas as vidas foram isso?

– Acho que sim.

A seguir, tentaremos estabelecer uma cronologia dos minicontos de Clarice.

1967

-“Não sentir” e “Ir para” (17 de setembro de 1967). “Potência e fragilidade” e “Sim” (21 de outubro de 1967). “ A mineira clada”, “A  vidente” , “Agradescimento”  e “ A coisa” (25 de novembro de 1967). “Lição de piano” e “Bolinhas”, de 9 de dezembro de 1967.

1968

“Um telefonema” e “Ao linotipista” (4 de fevereiro de 1968). “Um pintinho” (10 de fevereiro de 1968), “Outra Maria, essa ingênua, e Carlota” (23 de março de 1968). “Enquanto vocês dormem” (18 de maio de 1968) É crônica, é reflexão como  micro-relato, mas também pode ser vista como uma miniconto. Muito semlhante: “O ritual” (23 de novembro). “Uma experiencia”, de 22 de junho 68. “Em busca do outro”, de 20 de julho 68. “Desafio aos analistas” ( 3 de agosto). “Familiaridade” e “Lição de filho”  (7 de setembro).  “O terror”  (5 de outubro). “Faz de conta” (19 de outubro). “ O sonho” (9 de novembro). “Um diálogo” (30 de novembro)

1969

“Um homem feliz”  (29 de março).  “Na Grécia” (26 de abril). “Esboço do sonho do  líder” (31 de maio). ”O homem imortal” (13 de dezembro)

1970

“O morto irônico” (21 de fevereiro). “Chorando de manso” ( 14 de março). “Sábado” (11 de julho). “Das vantagens de ser bobo”  (12 de setembro. Um dos textos que defendem a literatura de Clarice, nós o incluímos, mesmo que exceda um pouco a dimensão exigida pelo miniconto). “Dez anos” (26 de stembro). “Nada mais que um inseto” (31 de outubro). “Finalmente chegou o dia- Ad aeternitatem”, “Um ser chamado Regina” e “Fui absolvida” (21 de novembro). “Por não estarem distraídos” (12 de dezembro)

1971

“Viagem em tren” (3 de junho). “Um fenómeno de parapsicologia” e “Viver” (24 de julho). “A experiência maior” (6 de novembro). “Lembrança de um homem que desistiu” e “Reconstituição histórica de uma dama nobre” (18 de dezembro).

1972

“Até a máquina?” (5 de fevereiro).  “Verão no baile”,  “A cozinheira feliz” e “Antes era perfeito” (4 de março). “Assim também não” (15 de abril).  “Diálogo do desconhecido” (6 de maio). “Homem se ajeolhar” (8 de julho).  “as imaginações demoníacas” (29 de julho). “Dois meninos” (11 de novembro. Apresentação editorial também é mais longa do que a exigida pelo miniconto. no entanto, o número de palavras, não parece)

1973

“Ao que leva o amor” (20 de janeiro). “A mesa de 13 comensais” (21 de abril). “Um adolescente. C.J.” ( 19 de maio). “As fugidas da mãe” (15 de dezembro)

No Jornal (29 de dezembro de 1946)

“O lar”, “O balé da virgen” e “Libertinagem do sábio”

Na Senhor

“Silent night, holy night” (dezembro de 1961)

Na Joia

“Transviada”  (agosto de 1968).  “Estatística minha e talvez superficial”, “Tudo estranho” (março de 1969)

Na Última hora

“Os encontros” (22 outubro de 1977)

Em Para não esquecer ( pela primeira vez em A legião estrageira como “Fundo de gaveta”, 1964)

“A vez da missionária”, “Conversa com o filho”, “Reconhecendo o amor” e “As aparências engañan”


Conclusões


De tudo isso conclui-se que Clarice começou a escrever mini-histórias em 1946, que continuaram na década de 1960 e que foi no Jornal do Brasil onde mais explorou essa fórmula narrativa, até então ainda não descrita como um gênero novo ou como uma nova prática escriturística. Clarice sabia intuitivamente que a distância narrativa não condiciona sua literariedade. O fato de ela detestar todos os laços genéricos, essa necessidade de liberdade na hora de criar e a confiança em suas habilidades narrativas foram decisivos para criar beleza a partir das palavras. Independentemente de suas crônicas serem mais ou menos curtas, a narratividade nelas é inegável, bem como obedece às especificações posteriores da micronarrativa.

Desse modo, é necessário considerar Clarice como autora de minicontos, não ocasionalmente, mas constantemente ao longo do tempo. O grande número de textos capazes de entrar nesta nova forma escritural também indica que sua importância não é relativa nem ocasional, mas muito pelo contrário.

Finalmente, que o miniconto foi descoberta pela teoria crítica castelhana como uma nova prática escritural (ou gênero, ou evolução posterior do conto) no século 20, e que durante esse século na literatura espanhola foi cultivado com notável sucesso, enquanto a teoria crítica do Brasil chega no século 21 e é agora, quando seu cultivo está em alta, que deve estimular pesquisas que traçam a presença do miniconto ao longo da história da literatura brasileira. Contando muito a favor o facto de se falar principalmente de miniconto ou microconto e não de micro-relato, como tem sido costume na teoria crítica em castelhano. Desta forma, não só se patenteia a sua própria evolução crítica, mas também diferencia o uso da ficção do que é ficção (Pedro Gonzaga, em “A poética da minificçao: Dalton Trevisan e as ministórias de Ah É, 2007 seguindo a Stella Maris colombo e Graciela Tomassini, “La minificción como clase textual transgeérica” , 1996, distingue ministórias e minificçao, embora toda história é ficção e nem todas as mini-ficções têm um enredo como a mini-história)  deixando  de lado a definição e evolução do próprio conto, que a teoria crítica castelhana joga para confundir com o relato (estrutura fechada versus estrutura aberta) para que o conto acabe sendo um saco sem fundo no qual tudo se encaixa. Mas isso já é motivo para um novo artigo.


Xosé M Eyré
é crítico literário galego, apaixonado pela literatura brasileira, extremamente eclético e nada ortodoxo, odiador de currículos que só olham para trás e lembrar também é lembrar tudo o que se queria e não se podia fazer, e que dói.


13/08/2021

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