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Artigo

A língua Portuguesa em Timor-Leste
Rosangela D. Rodrigues

No início deste mês, o jornal português Público, em sua edição online, veiculou uma matéria intitulada: O Futuro da língua Portuguesa em Timor-Leste. O autor apontou para a dificuldade dos timorenses, no dia a dia, de se comunicarem em Português, lingua não materna, mas oficializada em 2002. Lembrei do tempo em que servi como voluntária numa ONG em Timor, poucos anos após a restauração da independência. Uma manhã, fui até um prédio do governo para dar entrada no pedido de renovação de visto. Conduzi a minha moto até um portão lateral e ao me aproximar, um timorense gritou ordenando:

- Para.

Em seguida, ele me pediu um documento e me entregou um crachá. Coloquei o crachá, estacionei a moto no amplo e vazio pátio e segui para o prédio de estilo português, que havia escapado às chamas que arderam durante a destruição causada na luta pela independência, e que ainda era visível em muitos outros prédios da cidade.

Na porta principal, um funcionário me pediu o crachá que eu havia recebido e me entregou outro. Tirei crachá, coloquei crachá e caminhei pelos longos corredores até uma sala indicada. Expliquei do que precisava, preenchi formulários, e, como era de se esperar, mandaram que eu retornasse alguns dias depois. Na saída do prédio, troquei crachá por crachá e no portão devolvi o primeiro em troca do meu documento. Já na estrada, voltando para casa, ainda sem entender o troca-troca, lembrei da minha ida ao único hospital do país, para obter o laudo médico obrigatório à concessão do visto. No guichê do hospital, após pagar pelo documento, a funcionária me entregou uma quarta parte de uma folha de ofício escrita em Português (os documentos oficiais eram redigidos em Português) e assinada pelo médico que me havia examinado. O documento dizia: "Declaro que a Sra. Rosangela D. Rodrigues não é boa de saúde."

Reli o laudo e questionei à funcionária, pois afinal o médico havia dito que eu estava bem, sem problemas no RX.

Ela calmamente estendeu a mão, pegou o documento e enquanto riscava a palavra "não", me respondeu em Tétum:

- La iha problema, mana, sira la hatene Portugés. (Não tem problema, senhora, eles não entendem Português).

Foi preciso tempo para eu aprender a lidar com situações como aquelas, às quais entraram para a lista do que eu definia como "coisas de Timor".

A notícia do Público me fez questionar quanto tempo ainda seria necessário para que o Português se tornasse lingua franca em Timor-Leste. Em outro jornal, o Lusa, Mari Alkatiri, ex-primeiro-ministro, e atual secretário-geral do histórico Fretilin, o segundo maior partido político do país, perguntado sobre as polêmicas relacionadas as eleições marcadas para o dia 21 de maio deste ano, declarou-se contrário a decisão da Comissão Nacional de Eleições de incluir no debate dos candidatos algumas perguntas em Português. Segundo o Jornal, Alkatire afirmou ser defensor da língua portuguesa, mas que no caso dos debates: "A mensagem deve ser entendida pelos eleitores. 90% dos eleitores não vão absorver nada das mensagens". O "sira la hatene" se repete, denunciando o fracasso na implementação da língua portuguesa pelos governos que se sucederam.

Vinte e um anos, quatro eleições presidenciais e ministeriais depois, o Português, oficializado com o forte apoio das principais figuras da luta pela independência e de outros líderes responsáveis pela elaboração da Constituição do novo país, continua no seu compasso de pequenos avanços e retrocessos a cada novo governo. Isso se deve à falta de uma política de educação séria e continuada, que vá além das salas de aula, aonde a prática da oralidade acontece.

A maneira como os governos têm, até aqui, tratado essa questão, contradiz afirmações que justificaram e continuam sendo usadas para justificar a oficialização de que o Português é um dos pilares da identidade e cultura timorense (reportando aos mais de 200 anos em que a ilha foi território colonial de Portugal, até a ocupação pela Indonésia em 1975), e língua da Resistência, usada secretamente nas comunicações internas e com o exterior, durante os 24 anos da ocupação indonésia (tempo em que o Português foi proibido e quase extinto, e a língua indonésia implantada em toda a ilha).

Diante da permanente situação, a pergunta que fica é se aos políticos timorenses realmente importa ou não, se "sira hatene" ou "la hatene" Português. Será que a política em Timor também tem sido feita por homens para quem o que importa verdadeiramente é a vitória do partido, a busca pelo poder? Estarão eles tal e qual os homens de Babel dizendo uns aos outros: "Vamos, façamos para nós uma cidade e uma torre cujo cimo atinja os céus. Tornemos assim célebre o nosso nome...". (Gen. 11.4). Daí a confusão das línguas? Não sei, mas as notícias do Publico e da Lusa, não me surpreenderam, e entraram para a minha amarelada lista.


27/04/2023

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