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Artigo

Franco Moretti e a Literatura como sistema
Elenilto Saldanha Damasceno

O crítico literário, historiador e professor italiano Franco Moretti é autor do “Atlas do romance europeu (1800-1900)”, obra publicada em 1997, na qual apresenta análises de leituras de romances associadas às referências geográficas, em uma espécie de perspectiva cartográfica sobre o desenvolvimento do gênero literário. Suas pesquisas observam, por exemplo, que os enredos das narrativas de romances históricos remetem, geralmente, às regiões fronteiriças dos países retratados. Nos estudos sobre romances urbanos, Moretti compara as referências espaciais geográficas representadas nos livros aos locais reais. Além da análise topológica das narrativas, o autor também apresenta um rico levantamento sobre obras disponíveis em acervos de bibliotecas do mundo inteiro.

No texto “Conjecturas sobre a literatura mundial”, publicado em 2000, Moretti defende a ideia de que a Literatura deve ser vista de longe. Para a compreensão do movimento geral da Literatura, torna-se necessária uma observação panorâmica. O estudioso declara a inviabilidade da proposta de produção de uma História da Literatura Universal, haja vista a impossibilidade de realização de leitura e análise da incontável quantidade de livros já publicados. Ele considera ainda que, para o estudo de um romance, a leitura de críticas sobre a obra é mais importante do que, especificamente, a leitura da própria obra. Explicita, assim, seu princípio de leitura distante ou leitura de longe, a qual não corresponde a uma leitura intensiva sobre os aspectos internos da obra, mas sim a uma análise contextual e panorâmica.

O crítico literário considera o desenvolvimento de rumos e tendências na progressão do gênero romance como fenômeno muito além das nacionalidades e dos países. Seu ponto de vista difere das correntes analíticas da Literatura Comparada, a qual propõe o estabelecimento de relações entre as literaturas nacionais.

Franco Moretti compara o Capitalismo e a Literatura enquanto sistemas transnacionais, globalizantes. Ambos são sistemas únicos e com características essenciais, mas ambos também se desenvolvem com aspectos desiguais em diferentes áreas geográficas, ou seja, assumem características diferenciadas em cada território, em cada país e continente. Há um centro hegemônico nesses sistemas e há algumas variações em suas periferias. Não existe simetria nas relações e interferências econômicas e culturais entre esses dois polos. Ao contrário, o centro hegemônico as direciona e as conduz.

De acordo com o pensamento de Moretti, o romance moderno não se desenvolveu autonomamente, mas sim condicionado pelos interesses econômicos e ideológicos hegemônicos, sujeito a pequenas transformações em virtude de adaptações a especificidades locais. Tais adaptações estéticas a variados contextos sociogeográficos constituem elementos os quais definem, por assim dizer, as características específicas das denominadas literaturas locais, regionais, nacionais. Na perspectiva apresentada pelo pesquisador, porém, essa distinção entre as categorias local (regional ou nacional) e universal (mundial) torna-se menos nítida e menos importante. A Literatura brasileira, por exemplo, passa a ser compreendida e analisada como uma dessas variações no rico patrimônio da Literatura mundial.

Como a atual historiografia crítica literária brasileira remonta a modelos dos séculos XIX e XX, ainda hoje persistem abordagens marcadamente dissociadas da Literatura mundial e, principalmente, de outras historiografias literárias também periféricas, como a latino-americana e a luso-africana, por exemplo. Nas últimas décadas, no entanto, apontam-se novas perspectivas. A escritora ou o escritor é um indivíduo do seu tempo e do seu país, mas também é um indivíduo no mundo. As questões que envolvem as categorias Literatura nacional e Literatura universal, mais do que para uma divisão, voltam-se para o exercício dialético sobre as relações entre fôrma e fundo, isto é, para a compreensão das relações de adaptação entre a fôrma (o sistema literário universal) e o fundo (a variação local desse sistema) nas diversificadas realidades locais de diferentes regiões do mundo. Assim, a Literatura, enquanto sistema, é a adaptação do fundo, ou contexto local, à fôrma, ou modelo universal, e vice-versa.

Essa relação de adaptação não se baseia simplesmente em um processo de cópia ou repetição de um modelo que vem de fora. Também não é um processo de luta ou resistência contra esse modelo. O desenvolvimento do sistema literário consiste na adaptação entre um sistema hegemônico, definido como universal, a contextos específicos de realidades locais em diferentes territórios. É um processo de interação dialética pelo qual o local, regional ou nacional se insere e é inserido no âmbito total, mundial ou universal. Dessa maneira, as historiografias literárias periféricas e secundárias são reconhecidas e se reconhecem como parte de um todo.

Essa é a posição das diferentes literaturas nacionais periféricas e é, também, a da Literatura brasileira. Nossa História e nossa Literatura são recentes, nossa língua é internacionalmente menos privilegiada do que outras. Assim, atualmente, a ideia de uma historiografia literária nacional autônoma ou independente é cada vez mais anacrônica.

Como figura da Literatura enquanto sistema, podemos imaginar uma frondosa árvore. A Literatura em língua portuguesa é um dos galhos dessa árvore, e a Literatura brasileira é um renovo (um galho novo) que brotou e cresce a partir desse galho. Os pequenos talos e as muitas e vistosas folhas a brotarem desse ramo menor são as obras de autoras e autores brasileiros. Todos os galhos e folhas dessa árvore, obras literárias de todos os espaços e tempos, captam a luz e o ar, os quais são a vida do seu tempo. Além disso, todos esses galhos e folhas são nutridos pela mesma espécie de seiva e são, em comum, sustentados por um mesmo tronco e uma única raiz. Essa árvore é uma metáfora para a compreensão desse sistema constituído e reconhecido como Literatura universal, um sistema historicamente condicionado a partir de interações entre polos hegemônicos e periféricos, os quais se relacionam por intermédio de tradições, influências, interdependências, adaptações e transformações.


22/03/2023

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  Elenilto Saldanha Damasceno

Escritor, revisor, jornalista, editor e professor. Mestre em Letras/Estudos de Literatura e especialista em Literatura Brasileira (UFRGS), graduado em Letras e em Jornalismo (Unisinos). Participante do curso de formação de escritores e de oficina de revisão textual, preparação de originais e leitura crítica (Metamorfose). Autor de "Curta ficção" (Metamorfose, 2023) e "Textos do Novo Testamento nas crônicas de Machado de Assis" (Dialética, 2021), obra finalista do Prêmio Ages 2022 na categoria não ficção. Autor de contos publicados nas coletâneas "Navalha, veneno, mistério" (Metamorfose, 2023), "Contos reunidos 2022" e "De volta aos anos 60" (Metamorfose, 2022), "Prêmio Off Flip de Literatura 2022: conto (Selo Off Flip, 2022), "A vida aqui não é fácil" e "Contos reunidos" (Metamorfose, 2021) e "Prêmio Off Flip de Literatura 2021: conto" (Selo Off Flip, 2021), nesta como finalista. Revisor de "O que sei de você: histórias que poderiam ser suas", de Claudio Varela (Metamorfose, 2023) e "Olhos lilases", de Jonattan Rodriguez Castelli (Metamorfose, 2023). Editor da revista Expressão Digital. Colunista nos sites Artistas Gaúchos, Escrita Criativa e na revista Paranhana Literário. Desde 2008, autor de artigos acadêmicos, artigos de opinião, crônicas, ensaios e resenhas publicados em jornais, revistas e sites. Professor de Língua Portuguesa e de Literatura na Fundação Escola Técnica Liberato Salzano Vieira da Cunha e professor no curso de formação de escritores da Metamorfose. Mais informações em http://www.eleniltodamasceno.com.

eleniltosd@gmail.com


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