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Literatura

Literatura de entretenimento: transformando sentimentos em palavras
Luísa Aranha

Adoro contar histórias, e esse foi o motivo que me trouxe até aqui. Ou melhor, me levou até você, leitora ou leitor. A minha vida é uma odisseia, onde várias vidas já foram vividas. Tantas profissões e lugares existiram, que já perdi as contas. Vidas sempre repletas de histórias.

Há muito tempo, fui palhaça em posto de gasolina. Não como a gente anda se sentido hoje, quando vai abastecer o carro. Fui palhaça literalmente. De fantasia, maquiagem, nariz vermelho e peruca, fazendo bichinhos com balões e inventando contos de fadas para crianças. Antes disso, promovia pequenas rebeliões na escola católica, fundava grêmios estudantis e escrevia jornais, impressos na máquina de xerox para informar a todos as fofocas do colégio.

E, ainda mais antes disso, quando as letras passaram a formar palavras e as palavras a formar frases, descobri que poderia escrever histórias. Minhas, de amigas e amigos, de casos da família, de tudo que acontecia em minha pequena bolha. Páginas e páginas de cadernos, agendas e diários são mantidos em caixas até hoje, como o grande tesouro da minha vida.

Mas, bem antes mesmo disso, quando as letras não me faziam sentido e eu falava com fonemas trocados, contava histórias. Das poucas memórias que tenho da tenra idade, a das bonecas sentadas na cama escutando minhas narrativas no quarto azul combinando com meus olhos verdes é a mais viva.

Da brincadeira de infância a esta coluna foi uma longa jornada. Lembro quando, em 1998, Feliz Ano Velho, de Marcelo Rubens Paiva, caiu na mão da Luísa de 18 anos. Eu já lia muito, da Série Vaga-lume a Cem Anos de Solidão; na vasta biblioteca familiar, escolhia os exemplares mais grossos. Com 14 anos, todos os livros de Monteiro Lobato, As Brumas de Avalon, os clássicos e mais um monte de histórias - que eu não deixaria minha filha ler com essa idade - já haviam passado pelos meus olhos. Mas foi o Paiva, com seu diálogo direto com o leitor, contando o que lhe havia acontecido, que fez o martelo bater em minha mente: quero escrever histórias, quero fazer literatura.

Literatura, no seu mais amplo sentido, é a arte produzida com palavras. Teorias literárias nascem da observação e análise do que já foi produzido. E a opinião das leitoras e leitores? Essa é sempre pessoal. Depende das lentes com que enxergamos o mundo, e acredite: variam conforme a origem familiar, a profissão, a cidade, o gênero e a religião de cada leitor. E, sobre esses e outros fatores, predomina o elitismo cultural.

Em um país onde a fome avança, os livros são substituídos por armas e a cultura é cada dia mais desvalorizada, a arte com palavras é para os resilientes. Se o ópio do povo fosse a literatura em vez da religião, talvez estivéssemos em outro momento histórico. Mas seguimos obrigando adolescentes a lerem os clássicos de linguagens rebuscadas e realidades distantes das suas, fomentando o ódio pela leitura. Seguimos separando a literatura em alta ou baixa e nomeando como entretenimento novos gêneros, para excluir o que é consumido e produzido pela massa. Ignoramos as produções locais, independentes e contemporâneas para exaltar as gringas e o velho branco ou agradar quem ocupa lugares de privilégio no nosso sistema social.

Me questiono se os doutores das letras, de suas cadeiras confortáveis, sabem o que leitoras e leitores de transporte público leem. Entretenimento, óbvio. O gênero mais consumido pela população é o mais odiado pela Academia. Nem as teorias e muito menos Paulo Coelho explica. Assim como toda cultura que emana do povo é menosprezada pela elite, o gosto popular é ignorado por milhares de teóricos, afastando quem deveria ser nosso público-alvo.

O que realmente significa literatura de entretenimento? Toda a literatura não entretém? Também não faz o menor sentido o termo literatura comercial. Toda a obra não é comercializada? Compramos Machado, Guimarães e Aluísio em qualquer livraria. Mas não achamos escritoras e escritores "comerciais" ou de "entretenimento" com a mesma facilidade.

Então o que define o termo de fato?

A desvalorização de obras em detrimento de outras não segue nenhuma lógica teórica. A linguagem? Graciliano é aceito, Carolina de Jesus não. O enredo? Gabriela é banal. A técnica? Mas qual técnica? A imaginação? Se fosse, provavelmente só Monteiro Lobato sobraria, e olhe lá.

Desde sempre a arte imita a vida. Clássicos como Grande Sertão: Veredas, O Cortiço, O Guarani, A Escrava Isaura e tantos outros nada fazem além de retratar a realidade das pessoas que suas personagens representam. Livros escritos por homens que transformaram em ficção suas observações sociais e experiências de vida. Entretenimento vendido em qualquer site e carimbado com a mais alta distinção. Homens. Velhos. Chatos. Clássicos. Impossíveis de ser consumidos pela massa populacional, distantes demais da realidade de quem os consome.

A marcha do romance moderno, como diz Antônio Cândido em seu livro A Personagem de Ficção, levou à complicação da psique das criaturas que vivem nossas histórias. E me arrisco a dizer que essa mesma marcha trouxe a proximidade da questão essencial ao leitor. Quanto mais nos identificamos com as personagens, o conflito e a narrativa, mais queremos consumi-las. São essas histórias que gosto de contar. Mas não sou Amado. E Annie Ernaux é mulher.

Foram quase cinco décadas para ela e sua autoficção serem reconhecidas mundialmente. Annie publicou seu primeiro livro em 1974 e não se conteve ao usar suas memórias pessoais para transpor sentimentos coletivos. Não só nessa, mas em todas as suas obras. Questões indigestas à sociedade, como a diferença de classes, assunto tratado com maestria em O Lugar. A história retrata o distanciamento promovido pela educação escolar na relação com o próprio pai. Outro tema, o aborto, tratado em O Acontecimento, narra sua experiência ilegal na década de 60 para se livrar de uma gravidez indesejada. Annie não se acovarda, usa suas vivências para escancarar a existência feminina. São assuntos considerados de “mulherzinhas” e ignorados pelo elitismo cultural dos homens velhos em suas cadeiras confortáveis, mas consumidos com voracidade por mulheres sedentas de se verem retratadas como seres humanos e não objetos, famintas de lerem o eco de seus sofrimentos em histórias sobre suas realidades. O Nobel de Literatura em 2022 representa esperança.

A mim serve de estímulo para o que, desde pequena, faço da vida: contar minhas histórias; como Annie, Carolina e tantas outras ainda anônimas que transformam a própria dor em arte feita com palavras. Serve também de esperança. Podemos levar luz aos lugares onde as sombras insistem em querer dominar, especialmente, à cabeça do leitor.

23/10/2022

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  Luísa Aranha

Luísa Aranha é escritora independente, professora, jornalista e blogueira. Publicou mais de 30 títulos, entre dramas, comédias românticas, eróticos, antologias e romances contemporâneos, todos em formato impresso e digital. Também foi semifinalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2017 e desde 2020 ministra aulas sobre o ofício da escrita. Mais informações em www.luisaaranha.com.br.

luisa.aranha@gmail.com


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