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Resenha

Vozes de Tchernóbil, prosa e história oral
Aletheia de Almeida

Vozes de Tchernóbil. A História Oral do Desastre Nuclear, de Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2015, trata da maior catástrofe de origem técnico-científica que a humanidade já vivenciou. Sempre que se menciona o evento, imediatamente o associamos a um sem-número de perdas materiais. Isso porque a maioria dos registros apenas arrola essas perdas ou se refere a seu impacto sobre o meio ambiente e a saúde humana. Aleksiévitch, ucraniana, por parte de pai, e bielorrussa, por parte de mãe, nasceu na Biélorrusia e foi testemunha da tragédia. Como todos os seus concidadãos, estarrecida, não soube de imediato como narrar essa história. Sabia, no entanto, que não poderia se contentar com uma mera descrição ou cair na banalidade do horror, como diz. Era preciso revelar a verdade por trás das estatísticas, sempre frias e desumanas.

A edição da Companhia das Letras, lançada no Brasil quando o mundo se lembrou dos 30 anos da tragédia, aparentemente é um compilado de relatos dramáticos, sombrios, desesperançados --- incluindo o da própria autora ---, seguido do pronunciamento proferido, quando Svetlana recebeu o Nobel. A escolha editorial foi muito acertada. O discurso alinhava a teia de prosa que Svetlana teceu para unir os depoimentos colhidos ao longo de vinte anos de pessoas absolutamente comuns. O método da bielorrussa não é tão simples quanto parece: traz à tona micro-histórias que submergiram diante dos grandes marcos da História e dos discursos oficiais. Afirmou, quando premiada, que se dedicava à “história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. A vida ordinária de pessoas comuns.”.

Svetlana constrói, como se tem classificado, uma narrativa polifônica. Mais precisamente, relata a muitas vozes ordinárias, a história do desmoronamento da URSS, do fim do comunismo, do sumiço de uma cosmovisão e do próprio esvanecimento do homem soviético. Tchernóbil é um marco não só para o meio ambiente, como para a física, a medicina, a cultura, a sociedade, a educação, a política doméstica e internacional. Por si só, o evento é carregado de simbologia e de relevância, mas, até o momento, a maioria dos autores que se debruçou sobre a explosão do reator 4 da usina atômica, ocorrida em 26 de abril de 1986, apenas a descreveu. Aleksiévitch vai além das estatísticas e da reprodução de acontecimentos.

Talvez por isso, não seja tão evidente a associação entre o acidente atômico e a dissolução da grande nação soviética. A teia de prosa de Svetlana, que envolve fatos históricos, políticos, científicos, sociais, culturais, revela múltiplas conexões. Para muitos, no entanto, tudo isso não pode ser literatura. Para Svetlana, em realidade, trata-se de supraliteratura. Ainda que tenha sido partícipe da história, sua voz não se sobressai a dos demais; apenas canaliza o sofrimento e a dor de quem viveu a tragédia, em busca da verdade, sem inventividade --- não se sente no direito de inventar ---, por trás da história contada e recontada oficialmente. “Exige-se uma ‘supraliteratura’, uma literatura que ultrapasse a literatura. É a testemunha que deve falar. Pode-se pensar em Nietzsche, que dizia que não há artista que possa suportar a realidade. Nem a superar.” E, ainda assim, Svetlana conta uma história, dura e imprescindível.

É preciso notar o porquê de as pessoas se disporem a contar suas vidas, compartilhando sentimentos tão profundos, reflexões tão sinceras, amores e paixões interrompidos, dores que jamais passarão. Muitos querem justiça e revoltam-se contra o Estado, em que depositavam a mais autêntica confiança e para o qual garantiram extrema legitimidade até o acidente (hoje, sobrou apenas o medo). Outros sentem culpa, a maioria mostra-se saudosista em relação à vida que tinha antes do acidente. Outros tantos têm medo de que a memória do acidente se perca ou que eles próprios sejam apagados da história. Ainda que tenham muito pouca fé ou que já não tenham mais força para repetir a ocorrência de fatos e de serem tratados como experimentos raros, entendem a importância da nova proposta de registro de Svetlana. Daí emana uma caudalosa corrente filosófica que corrói as bases da história tradicional.

“Em apenas uma noite nos deslocamos para outro lugar da história. Demos um salto para uma nova realidade, uma realidade que está acima do nosso saber e acima da nossa imaginação. Rompeu-se o fio do tempo... O passado de súbito surgiu impotente, não havia nada nele em que pudéssemos nos apoiar; e no arquivo onipotente (assim acreditávamos) da humanidade, não se encontrou a chave que abria a porta.”

Diante de tamanha gravidade e da peculiaridade do acidente, muitas pessoas não sabiam por que meios descrever o que viram e viveram, o que sentiram, o que estavam sofrendo. Houve um interregno de mudez e estarrecimento e de dissonância cognitiva, talvez, entre a explosão da noite de abril de 1986 e o momento em que começaram a conseguir falar sobre esse fato. Além da falta de palavras, a maioria das pessoas esperava do Estado uma definição da linguagem correta a se empregar e, principalmente, da forma de se proceder diante da catástrofe. Os decisores, sobretudo, mas também a população, habituada a viver sob os auspícios de um Estado que tudo provinha, aguardavam uma determinação que deveria vir do Diretório Central do Partido Comunista. Uma definição que nunca veio de forma coerente.

É relevante recordar que a década dos anos de 1980 foi o momento da Perestroika e da Glasnost --- abertura, reforma, reestruturação. Gorbachev demorou nove dias para aparecer e se pronunciar a respeito do acidente. No livro, como era de se esperar, há uma ou duas referências ao último líder soviético. Enviaram centenas de soldados, mal equipados, guiados pelo medo, desinformados, desconhecedores da tragédia, mas desafiados em sua honradez militar e sua macheza soviética. O acidente foi equiparado a uma ameaça tradicional-bélica de hard politics, quando, na verdade, era algo totalmente fora dos padrões de Guerra Fria e do terrorismo de Estado. O argumento era o de que não queriam alardear o pânico, muito menos estragar as comemorações em torno do 1º de maio, num momento tão delicado da história nacional. Tudo estava sob controle. A URSS era uma potência militar e atômica. Suas centrais eram seguras. Lidavam com o átomo da paz. O espírito da população é inquebrantável, e a disciplina militar, a obediência ao partido e o patriotismo irrestrito deveriam prevalecer. A linguagem que daria forma ao acontecimento em si e a multiplicidade de sentimentos consequentes, imprimindo significado à tragédia e conformando uma nova realidade, ainda está em construção 30 anos depois da explosão. Um dos relatos afirma: “tudo se modificou, menos nós”. De um instante a outro, o mundo, a que estavam habituados, desapareceu. As pessoas ainda existiam, mas em outra realidade.

Ao longo do livro, aliás, há muitas comparações entre o acidente e a guerra, mas todos dizem que estariam muito melhor preparados para um embate militar – não para aquilo. A autora diz que se confunde muito o conceito de guerra e catástrofe. Um acidente nuclear ou um atentado terrorista são comparados a guerras, mas trata-se de catástrofes. A História não pode mais ser contada em termos de guerras, em que há heróis, vencedores e vencidos. Isso dificulta o entendimento dessa nova realidade: vivemos um cotidiano trágico. Combatem-se ameaças desconhecidas e difusas, com o mesmo arcabouço militar tradicional das guerras – vide a forma como o mundo enfrentou a pandemia de covid-19. “Esse cenário de guerra... Essa cultura da guerra ruiu aos meus olhos. Ingressamos num mundo opaco, onde o mal não dá explicações, não se revela e não conhece leis. Redefinição da ameaça deveria incitar redefinição da forma de combatê-las.”

Os primeiros bombeiros, soldados e voluntários que combateram o incêndio e depois tentaram controlar a radiação levaram adiante uma tarefa inédita e totalmente desumana. Sobre esse ponto, no emaranhado das falas, nota-se uma discussão muito pertinente: o que é ser homem? O que era ser um homem soviético? Muitos relatam que, apesar das preocupações com as famílias, que deixaram em casa, ou com sua própria saúde e de um desconhecimento quase total sobre o que enfrentariam, sempre pairava a obediência à disciplina militar e ao Partido, o patriotismo, mas também um arroubo masculino, uma questão de virilidade e hombridade. Dada a ordem de seguir para Tchernóbil, não era possível recuar. Imersos numa cultura militarizada e disciplinada, não se questionam ordens ou hierarquias, não se exige segurança para cumprir a tarefa dada. Apenas cumpre-se --- se for considerado herói, melhor. As medalhas, condecorações e diplomas, no entanto, parecem afrontas e prova do engodo da população. Cinismo e pouco valor atribuído às vidas das pessoas.

Para esses homens e suas famílias, sobra muita descrença após Tchernóbil. Além dos amores brutalmente interrompidos, da enorme passionalidade que transparece, a infância, a educação também foram cerceadas e passam a ser marcadas por sequelas inclassificáveis, enfermidades, perenidade e morte. Se antes o povo estava sempre disposto a filosofar, atualmente as crianças não têm mais interesse pela leitura, pelo país, por seu contexto. Sobrou o medo e a dor.

Muitos dos relatos são recheados de referências culturais e literárias. Esse ativo cultural foi perdido. Sobrou o pânico, muita revolta, uma sensação de traição. À época do acidente, por conta da disseminação da nuvem radiotiva por ¾ da Europa, e após o fim do comunismo e início da era da globalização, muito se falava no encolhimento do espaço e no aceleramento do tempo. Svetlana afirma que perderam aquele futuro que se avizinhava com a abertura política, associada à forte tradição cultural do país, e que Tchernóbil é um ponto final que não se ampara em absolutamente nada. Após o acidente, as pessoas começam a questionar as crenças, o paradigma político, a disciplina militar. Começaram a se ver de fora, ver a sociedade de fora: olhem o que aconteceu com essas pessoas que se dedicaram ao Estado --- morreram ou estão inválidos ou transmitiram enfermidades graves a seus familiares.

Para explicar o cenário das decisões tomadas naquele momento, é preciso levar em consideração a hierarquia bastante inflexível entre política, ciência e a vida pessoal na ex-URSS. Sempre se sobressaíram as determinações política e, em alguns momentos, até a preservação de carreiras individuais dentro do Partido. Os cientistas não foram ouvidos e as pessoas comuns, por um lado, não entendiam o que não viam e, por outro, confiavam cegamente no Estado e na invencibilidade do povo, tão apregoada e explorada por esse mesmo Estado. A população não estava habituada a tomar as mínimas decisões individuais --- comer ou não comer esse rabanete; tomar ou não tomar esse leite; ficar ou partir --- de forma livre; e priorizar-se, acima do interesse coletivo, não era aceito ou bem-visto.

Durante a leitura, é possível fechar os olhos e imaginar aquelas cidades fantasmas, onde hoje se faz turismo atômico. As casas abandonadas, habitadas por fotografias. Os animais de estimação, nos primeiros dias, esperando seus donos que, por sua vez, achavam que voltariam em horas. Os caçadores e soldados eliminando esses animais, posteriormente. Os soldados desprotegidos, subindo no teto do reator para limpá-lo, porque era uma tarefa que só o soldado russo poderia cumprir --- nem os robôs japoneses estavam aptos, arrebentavam. Os mineiros que escavaram, seminus, o solo abaixo da usina. Os mergulhadores que tiveram que entrar num mar de radioatividade para fechar uma portinhola por onde escapava mais radiação. As mulheres aguardando o retorno de seus maridos e felizes ao recebê-los vivos de volta --- mal sabendo que estavam marcados para sempre, que os filhos que teriam nasceriam marcados, que perderiam suas famílias e seus amores. Os cientistas desesperados tentando dizer às pessoas que precisavam usar iodo, sendo ouvidos com descrença e ameaçados pelo Partido. As avós que viviam ancestralmente nas terras agrícolas e que não tinham mais para onde ir, que apenas desejavam continuar a ver a alternância das estações, a colher o que plantaram, a banhar-se nos rios de sua infância. As crianças nascendo com uma sentença de morte pairando no ar. As meninas e meninos que não poderiam mais ter filhos. Homens fortes e saudáveis transformados em elementos radiativos, definhando em camas de hospitais. Esposas enlouquecidas, acompanhando seus maridos nos leitos de morte, fazendo o trabalho que profissionais de saúde se recusavam a fazer. Cidades inteiras sendo enterradas. A terra, as árvores, tudo sendo enterrado. Todos ingerindo o máximo de vodca que conseguissem, mais que o normal, porque se dizia que a bebida combatia a radioatividade. Os túmulos de chumbo que abrigavam os soldados. O medo das pessoas à passagem “dos de Tchernóbil”, inclusive crianças, durante a evacuação. Os soldados carregando armas e portando máscaras obsoletas, tendo que explicar (sem, contudo, entender muito bem) por que aquelas pessoas não poderiam mais viver naquele lugar que a seus olhos parecia o mesmo de sempre.

Enfim, é uma visão muito dura. É um choque. É imprescindível a leitura desse coro de vozes.


02/09/2022

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  Aletheia de Almeida

Aletheia de Almeida é mestre em Relações Internacionais e há um bom tempo atua profissionalmente na área de cooperação internacional, no governo brasileiro. Natural de Brasília, já morou em Buenos Aires, Atlanta e Rio de Janeiro. É apaixonada por seus dois filhos e pela literatura. Seus maiores prazeres são ler, viajar, tomar um bom vinho e exercitar (se tudo junto, melhor ainda!). Sua meta na vida é alcançar todo e qualquer equilíbrio. Quem sabe pela escrita?

aletheiaalmeida@gmail.com


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