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Escrita

Clichê, a base literária
Caroline Rodrigues

Como escritores, nos dizem constantemente para evitar o clichê. Programas de escrita criativa, em particular, doutrinam uma resposta de choque quase pavloviana contra ele; oficinas introduzem um ritual familiar desgastante onde mesmo os personagens menos importantes são desenterrados das tumbas literárias se eles deixam de atingir os níveis de convencimento de Hazel Motes (personagem ficcional do livro Sangue Sábio, de Flannery O'Connor). Até certo ponto, a caça às bruxas se justifica. De fato, o clichê é uma das piores ofensas que um escritor pode cometer - para alguns, perde somente para o plágio. Para os leitores, é uma quebra de confiança. Por que continuar lendo se você já ouviu aquela história antes? Sempre que os leitores se veem em terrenos familiares, a "mão" do escritor acaba se revelando por trás da história, trabalhando os fios do enredo. A ilusão da ficção fracassa e a história já chega morta.

O que eu estou prestes a te contar pode ser uma surpresa, mas quase toda história começa como um clichê. Isso mesmo, clichê é o ponto de apoio, o ponto de partida, a posição básica para praticamente todas as narrativas e personagens. Pense bem. Digamos que estamos lendo uma história que começa com uma fazenda e se passa no final dos anos 1800s. Que tipo de história imediatamente aparece na sua cabeça? Um drama pastoril familiar, ao estilo Steinbeck, combinado com senhores tementes a Deus, mães vestidas de xadrez e crianças que gostam de balas de açúcar? O mesmo princípio se aplica aos personagens. Digamos que temos uma cena que apresenta um homem de terno, sentado em uma sala de reuniões em Manhattan. Quais são algumas das suas suposições imediatas sobre ele? Superador? Materialista? Ganancioso? E que tal um velho indígena? Eu adivinho: ele é sensato e tende a acessos de aforismos sábios. Cada uma dessas ideias poderia se mesclar em uma narrativa convincente de alguma forma, mas agora elas são uma salmoura de clichê, clichê, clichê.

Os leitores chegam às histórias com expectativas. Se o escritor satisfaz um grande número dessas expectativas, o "encanto" da história se perde. Sabendo disso, vemos que os escritores, de fato, têm pouco a seu favor desde o começo: não basta entregar histórias convincentes, temos cada história que veio antes reivindicando direitos territoriais para cada ponto de partida possível. Bem no começo, os leitores chegam à sua história com o conhecimento de mundo da forma que eles aprenderam. É dever do escritor chegar e abalar aquela varanda de certezas, mostrar que as coisas não seguem mais a mesma lógica. Uma forma de fazer isso é usar as expectativas do leitor como vantagem - explorando a inclinação deles de julgar personagens e histórias - desviando-os daquela trilha familiar e convencendo-os a descartar quaisquer pré-concepções que eles tenham, até mover a sua história para bem longe daquela posição básica.

O primeiro passo é evitar caracterizações fáceis. Um personagem convincente é sempre um indivíduo, nunca um tipo. Isso significa que eles são um pouco como nós: estão cheios de elementos inesperados e díspares, por vezes contraditórios. Mesmo que sejam pessoas "boas", elas provavelmente também são um pouco "más". Em outras palavras, são complexos. Ao longo da sua história, você deve incluir vários detalhes idiossincráticos ao seu personagem para que ele/ela os confronte e acabe confundindo o julgamento do leitor ao invés de confirmá-lo, assim, forçando os leitores a ver o seu personagem como único, ao invés de descartável. Lembra aquele yuppie na sala de reuniões que apresentamos antes? Digamos que, depois, nós revelamos que ele é um ativista humanitário do sul norte-americano que tem uma inclinação pela filosofia oriental. A justaposição do seu pressuposto tipo com seus comportamentos individualistas pega o leitor de surpresa. O truque funciona porque nós pegamos a inclinação natural dos leitores para julgar e a frustramos.

O segundo passo é certificar-se de que a sua história mantém constantemente a capacidade de surpresa. Enquanto você elabora a sua narrativa, você precisa ter certeza de que ela faz duas coisas simultaneamente: ela deve entregar o inesperado enquanto trabalha em direção a uma conclusão que, em retrospectiva, vemos como inevitável (o mesmo é verdadeiro para os personagens: eles devem se comportar de formas inesperadas, enquanto fazem coisas que são verdadeiras para a sua natureza). Sempre faça parecer que as coisas podem ir tanto de um jeito quanto de outro; precisa haver um entendimento subliminar de que talvez nem tudo vá ficar "bem". Uma forma de fazer isso é deixando o que eu gosto de chamar de uma "arma no armário". Digamos que temos uma história que envolve um solitário zangado. Em um dado momento, nós casualmente mencionamos que ele guarda uma arma carregada dentro do seu armário. Ele nunca a usa, mas nós todos sabemos que ela está lá. É a menção em si que aumenta a tensão. Faça com que as coisas fiquem desconfortáveis para o seu leitor; a redenção não deveria ser a única opção no menu. Dito isso, não apresente um personagem que vai ser apagado na próxima página e não coloque alguém em um galho só para empurrá-lo dali.

O clichê deveria ser evitado igualmente no uso da linguagem. Cuidado com frases gastas usadas inúmeras vezes como "mal sabia eu" ou "aprendi a lição". O uso demasiado arruína a linguagem e sempre que expressões como essas são apresentadas, uma consciência desconfortável penetra na cabeça do leitor porque ele se dá conta de que você está dependendo de técnicas para aumentar a tensão. É claro, algumas pessoas vão simplesmente dizer coisas clichê. Não há motivo para acreditar que um motorista de caminhão comum não diria que ele "chutou o balde" em um bar na noite anterior ou que uma mãe não diria que ela ama seus filhos "com todo o seu coração", então, dependendo do seu personagem, o clichê no diálogo pode ter um desconto. Entretanto, no uso de uma narrativa em terceira pessoa, expressões familiares, pré-embaladas, deveriam ser evitadas, ãh, "a todo custo".

Um dos motivos dos clichês acontecerem é porque eles existem no mundo. Considerando tudo o que eles disseram, você ainda pode escrever sobre personagens clichê, só entenda que, para nos convencer de que vale a pena ler sobre eles, mais cedo ou mais tarde, você terá que tirá-los do buraco que você cavou. De forma ideal, você deve explorar um personagem tão a fundo que ele/ela revele uma verdade maior sobre nós, o que é difícil de fazer se o seu modelo para essa pessoa for caricata. O mesmo se aplica à história. Você pode escrever sobre vampiros se você quiser, você só precisa nos convencer, rapidíssimo, de que o mundo precisa de mais uma história de vampiros (boa sorte). É sempre uma ideia melhor apresentar mundos convincentes com pessoas convincentes dizendo coisas convincentes, para garantir que você tenha - não, conquiste - a atenção do leitor desde o início.

***

Tradução feita com exclusividade por Caroline Rodrigues. Se você tem interesse em traduzir seus textos, confira o trabalho da autora em www.carolinerodrigues.com.br

Confira a publicação original em inglês em https://litreactor.com/columns/cliche-the-literary-default


07/06/2022

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  Caroline Rodrigues

Caroline Rodrigues é tradutora e escritora. Nasceu em São Sebastião do Caí/RS, em 1977, e atualmente mora em São Leopoldo/RS. Formada em Letras, Mestra em Linguística Aplicada e Pós-graduada em Tradução. Egressa do Curso de Formação de Escritores da Metamorfose, tem contos publicados em antologias da editora, publica textos em seu blog, na Revista Parêntese e no blog da Escritor Brasileiro. É autora do livro de contos Sempre tem uma cachoeira, pela Editora Metamorfose. Em 2022, participa da Oficina de Criação Literária da PUCRS.

caroline.letras@gmail.com


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