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Reflexão

Autoconhecimento
Marta Leiria

Tenho dito e repetido: “sou mulher de frases”. No ponto, sou rodrigueana. Nelson Rodrigues, nosso filósofo selvagem, dizia algo assim: “O que seria de mim sem minhas repetições?”. Ao comentar o lançamento de “A inveja nossa de cada dia” nesta 65ª Feira do Livro de Porto Alegre, e dizer que a crônica que dá o título ao livro trata do pecado da inveja, não raro o interlocutor vem com esta: “não acredito em pecados”. Tento explicar com a repetida frase: “não precisa acreditar, a questão não envolve fé”.

Assim como a psicanálise funciona independentemente de fé, reconhecer nossos próprios pecados (nossos excessos, desmedidas, como queiram) em lugar de negá-los, também funciona. Reconhecer nosso comportamento desmedido não tem o condão de nos transformar em pessoas melhores ou mais felizes. Mas é útil ao autoconhecimento deixar de negar nossa entrega compulsiva à vaidade (orgulho, soberba), à inveja (pecado essencialmente relacional), à preguiça (física ou mental), à ira (não uma simples raiva), à ganância (querer sem fim), à luxúria (e suas incontroláveis delícias) ou à sua irmã pobre, a gula (que deforma o corpo). Nem precisaria dizer que confessar, ao menos para nós mesmos, nossas fraquezas, insuficiências, dificuldades, pode nos ajudar a enfrentar a realidade da vida. Dia desses escrevi o miniconto: “Autoconhecimento serve para rigorosamente tudo. Por exemplo: para eleger no que e em quem vale investir tempo e dinheiro.” Mas parece que a moda de tentar transformar sentimentos humanos que trazem sofrimento, a exemplo da inveja, veio para ficar. Hoje falam em inveja “santa”.

Nada mais é do que a tentativa de dissimular a crua verdade: a inveja é o pecado que faz com que a gente se sinta humilhado ao nos depararmos com alguém que é mais virtuoso do que nós. Não foi à toa que Caim matou Abel. A motivação sabemos bem qual foi, a mais pura e desgraçada inveja. Caim não suportou a realidade: Abel era melhor do que Caim em virtudes. E o que dizer da ira, tão vociferada hoje em praça pública? O paradoxal é que as mesmas pessoas que xingam o outro que tem visão de mundo diferente da sua vêm pregar sua pretensa bondade irrestrita só porque amam seus cães de estimação. Como se fossem seres desprovidos de agressividade, quanto autoengano!

O mesmo efeito benéfico do autoconhecimento tem a literatura clássica sobre nós. Lemos os clássicos para sermos pessoas melhores ou mais felizes? Não! Lemos para contemplar as inúmeras facetas, opções e sentimentos da grande família humana e, consequentemente, para nos conhecermos melhor - de quebra, podemos nos tornar pessoas mais interessantes, com mais repertório, por aí... E por falar em fé e pecados, vale ler, mesmo para nós, leigos, este ensaio clássico, escrito entre 1927 a 1931, por Sigmund Freud: “O mal-estar na civilização”. Estaria mentindo se dissesse que entendi tudo que li nestas poucas páginas, mas delas extraí ensinamentos preciosos. Não raro precisamos conviver com pessoas pelas quais não temos admiração, afinidade, que nos despertam nossos piores sentimentos e até reações lamentáveis.

Às vezes, manter distância regulamentar é preciso, o que nos causa um certo mal-estar (culpa, a que se refere Freud no texto) por não conseguirmos cumprir o mandamento cristão “Ama a teu próximo como a ti mesmo”. Conforme o pai da psicanálise, esse mandamento “constitui a defesa mais forte contra a agressividade humana e um excelente exemplo dos procedimentos não psicológicos do superego cultural. É impossível cumprir esse mandamento; uma inflação tão enorme de amor só pode rebaixar seu valor, sem se livrar da dificuldade.” É certo que, para a própria sobrevivência da civilização, necessitamos tolerar, respeitar, conviver, sermos solidários com o próximo, seja quem ele for, especialmente em situações extremas. Mas também é certo que não suportamos boa parte dos nossos semelhantes que possuem visão de mundo e rol de valores essenciais diametralmente opostos aos nossos.

Assim, amar a todos indistintamente é exigir algo que o ser humano simplesmente não pode cumprir. Interessante é que a religião católica, por exemplo, tem solução para a impossibilidade tão humana de cumprir o mandamento: a remissão dos pecados mediante confissão e rezas. Para os seguidores da fé católica, essa é uma ótima opção. Para os demais, vale tentar outras religiões, credos, outras formas de espiritualidade. Os caminhos são muitos: ler os clássicos, filosofia, psicanálise, psicoterapia, meditação, yoga. Tudo isso é útil à mesma e grande causa: o autoconhecimento.


Texto originalmente publicado no site www.martaleiria.com.br/

24/03/2020

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  Marta Leiria

Marta Leiria é escritora e Procuradora de Justiça aposentada. Graduada em Ciências Jurídicas e Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS (1985). Ingressou na carreira do Ministério Público do RS no ano de 1988, aposentando-se em março 2019. Iniciou-se em 2012 na arte da crônica e do conto, participando de oficinas de escrita criativa e publicando artigos em Zero Hora e outros jornais. Lançou seu primeiro livro individual de crônicas e contos na 65ª Feira do Livro de Porto Alegre: A inveja nossa de cada dia e outras reflexões crônicas, Ed. Metamorfose, 2019. A obra foi finalista do Prêmio Minuano de Literatura 2020 na categoria Crônica e do Prêmio Apolinário Porto Alegre 2020, da Academia Rio-Grandense de Letras.

martalealpach@gmail.com


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