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Literatura

Ensaio sobre a literatura em tempos digitais
Cássio Pantaleoni

Entre os que se importam com a literatura, vigora essa preocupação: acaso a adesão desenfreada aos recursos digitais nos esvazia das grandes questões do pensamento?

Podemos admitir, rasamente, que “alguma coisa está fora da ordem”. Especialmente quando alguém nos acena o rótulo de neoliteratura para um fazer literário que almeja aderir aos recursos das novas mídias. Pergunto, então: o que sobrerresta no pensamento quando desocupamos a imaginação dos leitores, oferecendo a imagem ao invés da descrição?

Talvez trata-se apenas de uma miopia romântica, espécie de incapacidade de descobrir dos novos recursos um além-mais que antes estava insinuado nas longas descrições dos escritores.

Sempre que tentamos reconsiderar o papel da escrita e da leitura na sociedade da era digital, temos a sensação de que algo se movimenta no subterrâneo dessa reflexão. Para alguns, há uma dissonância perturbadora, que diminui os sentidos, emprestando-lhes um caráter rudimentar. Para outros, trata-se apenas do acorde de uma transformação inevitável, que remove da escrita e da leitura esse aspecto elitista (e por que não dizer sectarista?).

É sempre difícil avaliar os impactos dos recursos digitais no desenvolvimento do processo de criação literária e no processo da compreensão. Nos dois casos tratamos de interpretação de sentidos. Como isso se transforma nesse novo cenário? Ao observamos o que ocorre, por exemplo, nas redes sociais, podemos nos deixar distrair por esse “ruído branco”, essa exposição frenética de fragmentos escritos, mesclados com imagens recorrentes de bebês, animais de estimação, paisagens e afins, e assim contagiar essa discussão com a ilusão de inutilidade, ou seja, essa ilusão de que a própria discussão não é nem necessária e nem esclarecedora. Afinal, ali escrevemos, ali lemos. Mais e mais (?!). Não é mesmo?

Ora, mas nas redes sociais encontram-se indícios de uma corrosão preocupante da escrita e da leitura. Primeiramente, pela predominância de um vocabulário encurtado, raso até. Depois, pelo caráter descartável dos fragmentos de ideias ou opiniões ali postos às vistas dos chamados “amigos”. A vida desses registros, que antes eram reservados aos diários secretos de adolescentes, é de algumas horas. É como se o ruído fosse mais necessário que a importância do sentido.

Esse frenético escrevinhar, que adiciona consistentemente toneladas de dados no mundo digital, produz exatamente o que?

Lembro de um artigo publicado no sítio Data Center Knowledge, em 2009, que informava que os arquivos de armazenamento do Facebook cresciam na proporção de 25 Terabytes por dia. Só para termos uma ideia da dimensão desse número, um livro de 100 páginas ocupa 100 Kilobytes em formato Word; ou seja, cerca de 250.000 livros de 100 páginas eram armazenados diariamente no site de relacionamento em 2009. Em um ano, podia-se projetar quase 100 milhões de “livros ocupando os dispositivos de armazenamento do Facebook. Hoje já se somam mais de 1 bilhão de usuários que postam seus comentários nas entranhas digitais dessa famosa rede social. Não há dúvidas: produzimos mais escrita na era digital. E por intuída consequência, lê-se mais.

Mas o que se escreve? Bem, antes precisamos perguntar se a pergunta é realmente relevante. Pensemos: o que importa nas redes sociais é o que é escrito ou o escrevinhar contínuo? De minha parte, creio que, mais do que o registro de uma ideia, pensamento ou opinião, o que importa é continuar registrando. Colocar-se nesse fazer-registro, continuamente, parece quase uma urgência. Diante de tanto, há razão para reconsiderar qualquer grande questão? Por que deveríamos nos demorar em reflexões que nos roubam esse tempo que poderíamos utilizar para novos registros?

Pensar acerca desse fazer-registrar significa espreitar as inquietações da sociedade atual. Qual a motivação que se movimenta derradeiramente sobre as nossas almas de modo a nos dispor à exposição contínua, ao fazer continuado? Por que nos ocupamos tão francamente com isso?

Retomemos a questão da imagem. Em grande medida, o Facebook, por exemplo, é uma imagem em constante transformação. O que está descrito (escrito) parece ter uma importância muito menor do que a própria imagem que se resolve continuamente nas telas de nossos computadores, iPads e smartphones.

Eu aposto na ideia de que há uma falta (uma lacuna) nessa ocupação niilista, esse nada com o qual nos ocupamos – o nada de uma imagem que se diz e se oferece apenas como imagem de uma continuidade inócua. A imagem em constante transformação das redes sociais nos distrai do vazio (do mesmo modo que as imagens associadas aos textos nas mídias digitais preenchem os vazios de nossa compreensão). É como se o niilismo fosse agora uma metafísica da urgência, dessa urgência em ocupar-se com esse fazer-registrar-fazer-ver-fazer-preencher.

Abdicar dessa urgência significa olhar novamente o nosso vazio de frente e, assim, reconsiderar essa primeira grande questão – o receio de que, eventualmente, nada faça mesmo sentido. Esse é o temor da sociedade atual.

Todavia, não seria isso um receio bobo? Será que a literatura, em sua forma e função tradicionais, não prova exatamente o contrário? Será que ela não prova a existência de uma infinidade de sentidos, na medida em que se apresenta como grande literatura? Será que a supressão da imagem não nos recoloca com a ocupação mais saudável? A ocupação com a imaginação? O que significar imaginar senão o esforço pela reconsideração dos sentidos que já compreendemos em favor de conceder sentido àquilo que não compreendemos?

Sei que há os que acreditam que uma imagem vale mais do que mil palavras. Talvez. Contudo, creio que não teríamos inventado a palavra se não nos fosse tão importante a precisão do sentido.

Repito: alguma coisa está fora da ordem. Há algo fora de centro. Esse algo talvez seja o eu – esse que aí está diante de. Esse eu que ora se desocupa da interpretação do texto e que se dispõe à mera observação de imagens. Talvez esse vocabulário encurtado que preenche diariamente as páginas do Facebook seja todo o vocabulário de que necessitamos para um mundo acometido pelo niilismo, pelo nada-fazendo-sentido. Se for assim, talvez a neoliteratura seja apenas uma expressão elaborada para um dizer-que-não-diz, para um mostrar-que-registra. Nesse caso, talvez esse texto tenha sido uma perda de tempo.

Voltemos ao Facebook.


25/10/2012

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Comentários:

Achei que a tua reflexão expressa bastante o sentimento que tenho a respeito da escrita nas redes sociais e, em especiaL SOBRE A IMAGEM. Acabo de escrever um texto sobre paisagem ( que também, é claro, trata de imagem)e nele faço uma reflexão que se aproxima da tua.
É bom ler (ainda, ou será até quando?)algo de gente que pensa na internet.
Este site cumpre este papel. Ainda bem.
Zilá Mesquita, Porto Alegre, RS 28/10/2012 - 23:19

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  Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni nasceu em agosto de 1963, em Pelotas, Rio Grande do Sul. Escritor, Mestre em Filosofia pela PUCRS e profissional da área de Tecnologia da Informação. Vencedor do II Premio Guavira de Literatura, na categoria conto, em 2013, com o livro “A sede das pedras”; finalista do Jabuti de 2015 com a novela infanto-juvenil “O segredo do meu irmão”. Segundo lugar na 21a. Edição do Concurso de Contos Paulo Leminski; duas vezes finalista no Concurso de Contos Machado de Assis, do SESC/DF; duas vezes finalista no Premio da Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Desenvolve workshops sobre leitura, técnicas de escrita ficcional e filosofia aplicada à literatura. Obras Publicadas: “De vagar o sempre” – Contos – 2015, “O segredo do meu irmão” – Novela infantojuvenil – 2014, “A corda que acorda” – Infantil – 2014, “A sede das pedras” – Contos – 2012, “Histórias para quem gosta de contar histórias” – Contos – 2010, “Ninguém disse que era assim” – Novela – 2006, “Os despertos” – Novela – 2000.

cassio@8inverso.com.br
www.sextadepalavras.blogspot.com
https://www.facebook.com/cassio.pantaleoni.9


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