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Literatura

Sobre a escrita e seus restos
Lívia Petry

Escrever é uma espécie de redenção, de salvação, de confissão dos pecados que ousamos realizar e dos pecados que gostaríamos de ter cometido, mas antes disso, fomos covardes. Escrever é um ato de coragem, de lucidez em meio à loucura do mundo que nos rodeia, é dar voz a este selvagem que habita em nós. Pelo menos em mim, há um coração selvagem que grita, que pede por clemência, e tudo o que posso fazer é deixar que ele sangre nas palavras, que se jogue na vida como um jorro vermelho e intenso, manchando o dia.

Escrevo porque preciso, porque uma urgência em mim explode nas letras e nos parágrafos. Nunca soube o porquê da tal urgência...que um psiquiatra, um catedrático das letras, um advogado, um crítico literário tentasse explicá-la é normal...mas nem os cineastas mais loucos e literários como Woody Allen ou Fellini, explicam o que sinto, o que vivo, o que se passa em mim na hora em que sento em frente ao computador, na hora em que pego uma caneta e um papel como um viciado pega um copo de cerveja ou sua maconha diária. Nunca explicarei, para desgosto e espanto dos críticos, e catedráticos de letras, e do resto dos mortais, nunca explicarei o que acontece.

É simples, é muito simples: você fica perguntando à sua mãe, de minuto em minuto, o que foi que ela sentiu quando você nasceu? Se ela contar o que sentiu, será uma ficção, uma mentira, porque eram tantos médicos, e o marido olhando pela vidraça, e o bebê berrando, e as dores, deus meu, e as dores, que é impossível lembrar com exatidão o que se sente na hora do nascimento do filho... Tudo é tão rápido, tão confuso...não dá pra saber, não dá pra ter certeza, é uma mistura de epifania com analgésico injetado, com sentimentos de alívio e de missão cumprida, com sentimentos de milagre...é tudo junto ao mesmo tempo, agora! Isso, é o que acontece quando escrevo: um nascimento. Se sua mãe não sabe direito o que sentiu no parto, por que eu deveria saber direito o que se passa comigo quando escrevo? Escrever é estar em processo de gestação e depois, de parto. Pronto, falei.

Se você, ainda assim não entendeu, e me vem com o papo psicanalítico de "pulsão inconsciente", ou outra explicação de almanaque qualquer, eu aceito. Mas por favor, não espere que eu acredite. Sim, aceito por educação, mas não acredito em nada. Porque "pulsão inconsciente" não explica coisa nenhuma. O que acontece quando se escreve? Bem, sento-me diante do computador, ou do caderno, ou seja lá o que for, e deixo escorrer a baba do demônio que me habita...deixo as idéias voarem do espaço infinito para os meus dedos. Não penso em nada, não comando nada, deixo fluir. Você nunca perguntou pra um rio para que lado ele corre, perguntou? Eu não pergunto de onde vem a escrita, só sei que ela vem, naturalmente.

Escrevo como eu respiro, como quem toma um copo de água, como quem se veste. Não tem nada de mágico, de sobrenatural, de psicológico nisso. Tem que me dá na veneta e acabou-se. Escrevi uma crônica e nem sabia como começar ou onde terminá-la. Ela veio sorrateira, se enredou em minhas mãos, se aninhou na tela, nasceu.

E você, caro leitor, nem se deu conta...de que estava agora mesmo presenciando um nascimento. Verdade. Você acaba de me ver nascer. O resto é silêncio.

 

- Esta crônica é uma homenagem a Clarice Lispector e a todos os escritores, e foi escrita especialmente para eles, hoje, dia 25 de julho de 2012, Dia do Escritor.


08/08/2012

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Comentários:

Livia Petriy. Cumprimentos amiga. Tu és esplêndida. Colocas a ideia no papel e o texto brilha em corpo e alma.Parabéns. Nem sei se lembras de mim. Frequentamos uma oficina de poesia com o prof.Dr. Celso Godfreind. Na época tímida e linda pouco mais que menina já eras um talento.Te gosto D+ Ivanise Mantovani.
Ivanise Mantovani, Porto Alegre/RS 16/08/2012 - 19:57

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