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Educação

O fim do livro didático
Marcelo Spalding

O livro, objeto milenar que amamos e que enfileiramos nas prateleiras de nossos quartos, salas ou escritórios, por muitos anos foi o portador da cultura letrada e permitiu que histórias, sonhos, medos, leis, tratados e lições atravessassem oceanos, atravessassem séculos. Há algum tempo, porém, o livro não é mais o único a transmitir essas histórias, sonhos, medos, lições, tem dividido bastante de seu protagonismo com o cinema, a televisão, agora a internet. Mais do que isso, recentemente o próprio objeto físico tem sido rediscutido, com alguns prevendo que ocorrerá com o livro o mesmo que com os discos ou os filmes fotográficos: uma transposição do seu formato de átomos para um formato de bits, digital.

É nesse contexto que foram lançados há algum tempo aparelhos como o Kindle e mais recentemente aparelhos como o iPad, com telas já muito melhor adaptadas à leitura do que as telas dos notebooks ou PCs. Dizer que os aparelhos digitais irão substituir por completo a milenar tradição de livros impressos, entretanto, é tão leviano quanto ignorar sua presença ou lutar contra ela.

Livros de referência, como enciclopédias, atlas, dicionários, guias, legislações e manuais, fazem muito mais sentido numa plataforma digital do que no papel. Por pelo menos duas razões: a facilidade de consultas precisas e a facilidade de atualização. Só interessa a um mercado tradicional e um tanto viciado que um estudante compre o mesmo livro a cada ano, preocupado apenas com a mudança de uma ou outra lei que foi alterada naqueles meses, por exemplo.

Na sala de aula, da mesma forma, livros didáticos grossos e caros são cada vez mais anacrônicos (ainda que coloridos e bonitos), e não pela questão pedagógica, tão bem discutida há algum tempo por nossos colegas pedagogos, mas pela questão tecnológica. Fazer os pais comprarem uma caixa de livros didáticos de editoras e autores que se repetem, conjunto de livros cujo valor ultrapassa o de muitos tablets, é hoje tão justificável quanto a compra da última versão da Barsa pela biblioteca da escola.

Talvez melhor seria se parte desse valor fosse investido em livros de literatura. Livros em papel, sim, pois ainda que haja – e cada vez mais – literatura nas mídias digitais, temos e por muito tempo teremos boa literatura nos livros impressos. E a literatura, quando bem trabalhada, incentiva os jovens a ler, aprimora técnicas de leitura, raciocínio, compreensão, o que no final das contas é fundamental para qualquer disciplina.

Mais importante do que o uso de livros didáticos (ou mesmo de aplicativos didáticos) é o gosto e a capacidade de leitura, pois sem a leitura em breve não teremos mais livros – nem digitais, nem impressos; nem literários, nem didáticos. E dá para imaginar um aluno estudando apenas por aqueles tutoriais em vídeo de qualidade duvidosa? Que se permita o surgimento de novas tecnologias em sala de aula, mas que se preserve o que de melhor a tradição escolar construiu.


28/05/2012

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Comentários:

Professor, permita-me dizer, humildemente, que acho imprescindível a existência desse tipo de questionamentos, pois através de textos como "O fim do livro didático?", podemos refletir sobre as tendências não só da tecnologia, mas da humanidade como um todo.

E por questões como essa, que conflitam as eras, eu me pergunto: estamos, enquanto humanos, avançando ou retrocedendo?

Até entendo que a forma mais óbvia de se responder isso seja, talvez, dizendo que "depende do ponto de vista" (resposta cada vez mais comum para todos os tipos de pergunta), mas penso que apesar dos pontos de vista, existem, sim, avanços que - quando inseridos na sociedade - nos levam ao retrocesso.

Há caminhos que, se não são irreversíveis, são muito difíceis de reverter. Expressar é um caminho a ser seguido. Acredito que a liberdade de expressão seja nossa grande esperança. Escrever um livro deve ser um sonho, ver uma obra publicada com nossa própria autoria tem que ser algo fantástico. Se um dia em chegasse à tal feito, faria questão de ter um exemplar impresso, que eu pudesse tocar, sentir, ler meu nome no final e contemplar o tamanho e a tintura das letras, preparar um espaço físico, um local especial para guardá-lo. Do interior do meu romantismo, vejo que escrever um livro é uma forma de eternização para um homem.

Parabéns pelos textos da sua coluna.
Maureci Jr., Porto Alegre 30/05/2012 - 14:41
Oi, Marcelo:
Muito do que escreveste está coberto de razão.
A meu juizo porém, o ponto principal é a capacidade de compreensão e interpretação do que está sendo lido,além de atrair leitores, seja qual for o suporte - livro impresso , computador, ipad ou outra forma.
Este , a meu ver, é o maior desafio de nosso tempo no País.
O Brasil é imenso, muito diverso e plural e muitas são as situações de leitura, compreensão e interpretação por parte dos leitores, mesmo os considerados letrados.
Aliás, esta é, a meu ver, uma questão para a vida inteira de qualquer pessoa, isto é: todos somos leitores em formação constante.
Refiro-me ao exercício da inteligibilidade, da compreensão do que o outro está querendo nos comunicar.

Mas vale sempre retomar e por na roda esta discussão, como estás fazendo agora.

Meu abraço,

Zilá Mesquita
ZILÁ MESQUITA, Porto Alegre/ RS 30/05/2012 - 00:05
Eu particularmente gosto de ler livros, então fico com eles os livros.
JOSÉ CARLOS DE BRITO, BRASÍLIA DF 29/05/2012 - 12:43
Prezado Marcelo,

sou autor de uma coleção didática de História e compreendo as dificuldades teóricas e metodológicas na construção de uma material que, ao mesmo tempo, precisa ser didático, criativo e interativo. Como historiador, entendo que os materiais impressos ainda são bastante úteis, principalmente para aqueles/as estudantes que não têm acesso às novas tecnologias de informação e comunicação. Nesta direção, os livros didáticos acabam sendo, em variadas situações, as únicas referências de leitura de um contingente nada desprezível de estudantes.

Por outro lado, penso que esta é uma tendência, praticamente, irreversível. Os livros impressos serão substituídos por 'tablets' e as informações ou imprecisões conceituais serão corrigidas de forma imediata. O maior desafio, portanto, é a inclusão digital efetiva e, notadamente, que as crianças e jovens se apropriem de maneira plena da leitura e da escrita, tendo em vista a 'produção' do analfabetismo funcional pelas próprias unidades de ensino de nosso país.

Abraços!
JÉFERSON DANTAS, FLORIANÓPOLIS/SC 28/05/2012 - 13:19

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  Marcelo Spalding

Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros 'As cinco pontas de uma estrela', 'Vencer em Ilhas Tortas', 'Crianças do Asfalto', 'A Cor do Outro' e 'Minicontos e Muito Menos', membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano 2008 pelo livro 'Crianças do Asfalto', categoria Não-Ficção, e o Prêmio Açorianos de Literatura em 2008 pelo portal Artistas Gaúchos.

marcelo@marcelospalding.com
www.marcelospalding.com
www.facebook.com/marcelo.spalding


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