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Literatura

Entrevista com Marco de Menezes
Sidnei Schneider

Marco de Menezes (Uruguaiana, 1968) recebeu o prêmio Açorianos-Livro do Ano em 2010. Publicou os livros de poesia As Horas Dragas (1999), Pés de Aragem (2007), Fim das Coisas Velhas (2009) e Ode Paranoide (2010), os dois últimos pela editora Modelo de Nuvem, da qual é um dos sócios. Como letrista, é parceiro de Felipe de Azevedo e Vinicius Todeschini. Ao final da entrevista, um poema.


Foto: Fernanda Davoglio

Sidnei Schneider: Fim das coisas velhas recebeu o mais importante prêmio de literatura do Rio Grande do Sul, dado pela primeira vez a um livro de poesia em 16 edições, sendo você um poeta que alguns não conheciam mais de perto até então, morador de Caxias do Sul. O que significou isso para o teu trabalho e a sua divulgação?

Marco de Menezes:Receber um prêmio como este tem ajudado muito na divulgação do meu trabalho, evidentemente. Poder ser conhecido, ter a obra lida (ainda que a gente saiba que leitores de poesia representam um contingente menor em relação ao público que se interessa por prosa), ser instigado a falar sobre o trabalho da gente, se aproximar dos nossos pares, são desdobramentos esperados a partir de um reconhecimento deste porte. Outra coisa é que foi o primeiro título da nossa editora, nossa primeira experiência editorial, de modo que dá um fôlego bacana pra gente continuar tocando nossos projetos na área de poesia. De resto, muita alegria, que pude compartilhar com amigos, familiares e leitores.

 

SS: No poema que dá título ao livro, um trecho diz “ainda assim/ nos resta/ cantar pelo fim das coisas velhas/ as que não temos/ sequer sonhamos/ e que nos cortam/ como o fio da primeira faquinha/ que ganhamos do avô”. Além de revelar uma urgência, o desejo de que as coisas se transformem, parece evocar, no terreno literário, a existência de uma tradição por ser conhecida e ao mesmo tempo superada. Como vês a questão?

MM:Várias pessoas vieram me comentar que essa expressão “fim das coisas velhas” soava para elas como algo assim, rés-do-chão, de se livrar de antigas bagagens, de mudar do velho para o novo, etc. No entanto, no contexto do poema, quer falar de uma impossibilidade de se poder vislumbrar, em nosso tempo, o processo de envelhecimento das coisas, sejam elas objetos físicos ou discursos, perdidas no torvelinho de entredevoramento em que está o mundo. As coisas estão simplesmente sendo sepultadas sem a curva de envelhecimento que possa fazer com que signifiquem algo na memória que seja mais que uma “breve cintilância”. Porém, isso é algo da cultura, e parece ser inexorável. Então o poema é um canto de lamento, uma elegia, uma reclamação. Pode parecer ingênuo, mas essa é a ideia inicial.

 

SS: À parte o apurado trabalho com a sonoridade da língua, tua poesia convoca imagens fortes: Três vezes, “e virá/ pela terceira vez/ a morte/ franca inclusiva buliçosa/ como uma guelra cerúlea/ na paisagem de isopores/ e te fará a mesma pergunta/ a mesma honesta pergunta/ que te fez na ocasião do nascimento”, Ítaca/Itaqui, “o sol como um ciclope”, etc. Seriam consequência de leituras realizadas ou internalização da fala imagética do habitante da fronteira?

MM:Creio que são as duas coisas que aparecem aí, e que andam ombro-a-ombro nos meus poemas: de um lado essa máquina de memória e esquecimento que é a literatura (e que faz, como diz Gracq, só escrevermos sobre o que lemos) e de outro a inexorável condição (patética, irônica, perversa, sublime, paradoxal) de habitante da fronteira de nós-mesmos, sendo essa fronteira algo que muda a cada instante e impossível de ser percebida senão como desconforto ou revelação. Claro, ter vindo de um lugar fronteiriço também determina algumas possibilidades imagéticas – e certas figuras que retornam insistentemente (o pasto, o rio, as vozes em outra língua, as pessoas mudas e distantes).

 

SS: Teu livro evidencia um distanciamento de quem lida com qualquer tema mas não se deixa levar por modos de sentir disseminados à exaustão. Em Três classes de lágrimas de gigantes, a simples partição classificatória prenuncia a lágrima terceira, a “que basta às coisas”. Em outros textos, experiências tuas talvez sejam retrabalhadas poeticamente, mas o tom confessional não existe. Para o lirismo, no sentido de um “eu lírico” voltado exclusivamente para o interior do poeta, ainda há espaço no mundo atual?

MM:Problema é que o interior do poeta, encapsulado ou aprisionado ou voluntariamente delimitado, é uma ficção como a própria noção de realidade exterior. Não existe mundo interno que não seja já relação, de modo que retorna a antiga questão dualista. Então, falarmos de nós já é falarmos disso que a cada momento nos constrange e roça, que nos faz descentrados, que faz com que essa coisa humana seja sempre ambígua, incerta, precária.

 

SS: Às vezes relacionas tuas origens uruguaianenses com o presente: Recuerdos de Itapitocay, “um homem de chapéu espreme cascas de bergamota/ nos olhos das formigas”,Calavera, “derrubo dos varais os sonhos das mocinhas/ sandálias melissinha mascam a guanxuma”, Cantiga para minha morte criança “eu tive amigos que morreram nas Malvinas”, Duas cidades, “Na Uruguaiana que mora/ no poço escuro do peito/ não sabe caber Caxias”. Contudo em Ave (para o Cenair declamar no além-tumba), um dos poemas mais enigmáticos, pareces acertar contas com um modo velho de ver as coisas, a poética-musical tradicionalista que elogia um passado agrário que já não existe e lamenta o progresso, apesar de pertencer ao mundo urbano: “Esvoaça, gárgula de areia,/ das platibandas da cidade/ de onde amaldiçoas cada dia!”. Em oposição, a convocação da voz de um falecido cantor nativista ligado a denúncia social, além de dar enorme força ao texto, talvez provoque esse tipo de leitura. Concordas com ela?

MM:Engraçado, não tinha visto a coisa por aí. Desde cedo, em um rádio de pilha escorado entre a parede e o beliche, ouvia milongas e chamamés e outros ritmos folclóricos, do mesmo modo que ouvia tangos, música clássica em distantes estações do Leste europeu, samba, e nunca hierarquizei essas audições, eram coisas que vinham do mesmo e misterioso mundo. E, claro, em Uruguaiana havia a Califórnia da Canção Nativa, que em suas primeiras edições revelou artistas magníficos, música de qualidade inquestionável. Problema é que se cristalizaram certos modos ufanistas, xenófobos, um “grossocentrismo”, esse tal de orgulho gaúcho, e este conjunto de bobagens acabou por engendrar uma música muito ruim, pobre, maniqueísta, cega para as contradições inerentes à sua própria condição. Quando fiz o poema – que em realidade é uma briga com os novos-ricos e o “sono da estética” aqui da Serra – vi que ele era passível de ser declamado com aquela verve missioneira que o Cenair tinha, muito forte e honesta, na antípoda daquela postura vazia. Daí que prestei-lhe homenagem.

 

SS: O poeta T. S. Eliot escreveu sobre a função da poesia: ela interferiria, através de múltiplos mecanismos ao longo do tempo, na maneira como cada um de nós vê e sente o mundo, mesmo sem nunca ter lido um poema, afetando, assim, as ações humanas e o conjunto da sociedade. Para ti, qual a função desse gênero literário?

MM:T. S. Eliot também falava, se não me engano, daquela potência de comunicabilidade do poema, que mesmo sem ser compreendido é sentido. Acho que a poesia ajuda a arejar a língua, torná-la menos administrativa, tenta fazer com que retorne ao mundo o sentido de estranheza que se perde a cada dia. Essa pletora de explicações e entendimentos tautológicos sobre o mundo - a poesia está ali para desconcertá-los, mostrar o inútil, o inacabado, o falseado, o risível. A poesia pode - é o que tenho pensado com frequência - trazer à tona os sensos de precariedade e dúvida para este imenso armário de escritório repleto de certezas inabaláveis e tragédias previsíveis.

 

SS: Tens quatro livros de poesia, fala um pouco sobre eles. Entre uma linha de continuidade e uma sucessiva ruptura com a própria poética, para que lado pende a tua obra publicada?

MM:Meu primeiro livro foi publicado em 1999, e lancei os três seguintes em 2007, 2009 e 2010, respectivamente. De um modo geral, penso que há certa continuidade – seja formal ou temática – nos meus livros, talvez existindo alguma exacerbação, formação de núcleos semânticos mais sólidos e voz mais individualizada neste último (Ode Paranoide), que seca e despoja o anterior (Fim das Coisas Velhas). É um livro que ficou meio no escuro, ainda não foi muito lido nem comentado, mas é onde eu acho que chego a uma poética de mais rigor e de um lirismo por assim dizer mais duro, longe das coisas leves que fiz nos dois primeiros livros, e que já aparece em parte em Fim das Coisas Velhas. Digo isso entendendo que tenho muita dificuldade de comentar meu próprio trabalho, sempre havendo uma sujeição do que é dito às minhas idiossincrasias como autor.

 

SS: Exerces uma parceria de longa data com o compositor Felipe Azevedo, que acabou de lançar o ótimo Tamburilando Canções e musicou poemas teus (Lundu do desencaixe, “como a sandália não encaixa no pezinho/ nem o pistilo se encaixa ao gineceu/ esse sorriso nessa boca não se encaixa/ e o rochedo não se encaixa em prometeu”). Junto ao músico Vinicius Todeschini, lançaste o CD Arrebaldeação (2003). Além da poesia e das letras, teu trabalho inédito abarca outro gênero?

MM:Olha, quero te dizer que eu sou um letrista – se é que me reconheço como tal – muito precário, muito limitado. Sou imensamente influenciado pela música, mas na hora de letrar alguma melodia tenho imensas dificuldades. Tanto é que a maioria do meu trabalho nesta área devo aos meus parceiros, que tem a paciência e a habilidade de pegar meus poemas e colocá-los fazendo papel de letra, como se letra fosse. É uma arte bastante difícil, requer uma prática de músico que eu não possuo. Já tentei tocar violão, trompete, mas isso acabou ficando para meu filho, que tem bons fundamentos. Minha mulher é compositora, de modo que estou cercado de música por todos os lados. Interessa-me bastante também o universo gráfico, principalmente a ilustração e o desenho, coisa que pratico – agora não muito, mas o desejo permanece – desde menino, e que é simultâneo ao aparecimento do mundo da palavra para mim. Talvez, em um trabalho vindouro, faça algo como desenho e poema - meus editores estão me instigando pra que eu cometa essa loucura - e é bem possível que eu publique algo neste sentido.

 

SS: Como foi teu primeiro contato com a poesia? Que leituras destacarias ao longo da tua formação?

MM:Meu primeiro contato foi na biblioteca de um tio meu, que era um grande leitor e que tinha Eliot, Drummond, Bandeira e outros em sua estante mirífica. Não sei por que eu fui capturado pela poesia, e ignoro por que a poesia e não a prosa, uma vez que estavam lá também Montaigne, Hemingway, Proust, Joyce. Mas foi lendo e imitando poemas de Vinicius de Moraes e Bandeira, ainda adolescente, e com as limitações e paixões inerentes a esta condição, que a poesia passou a ter importância. E quando li Eliot, em especial Burnt Norton, nos Quatro Quartetos, eu vislumbrei ali aquela coisa misteriosa, aqueles estilhaços do mundo, aquilo que eu não entendia quase nada - aí eu vi que eu queria era fazer algo parecido. Era tudo muito pobrezinho, mas eu sentia como algo muito forte. Aí vieram Pessoa, Oswald, e nos oitenta conheci Leminski, Ana Cristina Cesar, Cacaso, os concretistas – fui fazendo um percurso meio solitário, sem orientação - e então Borges, Baudelaire, Rimbaud, Lautréamont, que já são leituras da minha vida “adulta”. Li também muita prosa durante estes anos, desde Stevenson, Conrad, Kafka, até os surrealistas, os beats, e depois Alvaro Mutis, Paul Auster, entre outros.

 

SS: Como é a cena poética em Caxias do Sul?

MM:Em Caxias há um número pequeno de poetas que publicam seus trabalhos e um grupo também pequeno, no qual me incluo, que participa de atividades literárias mais sistemáticas, como leituras, debates, divulgação literária em geral. No entanto, há um público leitor que é bastante fervoroso e rigoroso, mas que é pequeno, como de resto em toda parte. Houve uma geração de poetas fortes, a geração do final dos 60 e 70, como Pozenatto, Bertholdo, Paviani, pertencentes ao grupo “Matrícula”, e que desenvolveram carreiras consistentes. Jayme Paviani continua bastante ativo, publicando ensaios e poesia (o próximo livro de poemas dele será lançado em breve pela Modelo de Nuvem). E há a geração que surgiu no fim dos 80, da qual faço parte – em que pese falar de gerações em poesia ser um tanto relativo – e que revelou nomes como Dinarte Albuquerque, Odegar Junior Petry, entre outros. E há Eduardo Dall'Alba, que é um nome importante (junto com Flavio Ferrarini, excelente poeta, hoje publicando na área de literatura infanto-juvenil também), e que transitava nos 80/90 por Porto Alegre e depois voltou para Caxias (ele organizou uma antologia chamada Matrícula 2, no final dos 90, que fazia reverência ao grupo da geração anterior e onde aparecem aqueles poetas e nós). Mas, de resto, ser poeta em Caxias do Sul, cidade que exemplarmente destruiu quase todo seu passado arquitetônico, onde existe uma forte ideologia que coloca o trabalho como centro e fim da vida das pessoas, continua sendo algo pouco tolerado.


Entrevista originalmente publicadana revista Verbo 21, Salvador-BA, Ano 11, nº 143, junho 2011.

ponte sobre o rio adaga         

fosse rio cortaria
a face jovem que ali se espelha
fosse rio cortaria
os pés dos pés de salso chorão
que ali declinam a sede

fosse rio cortaria
ao meio-dia
os cascos dos cavalos
a ponta das esporas
o áspero das botas

fosse rio
insistiria
na face do jovem
que agora se inclina
como um chorão sobre a água
insistiria
sobre as ramas da beira
sentiria os pés cansados a mover
e a sombra e a luz amarela
dentro de si, rio âmbar

e como âmbar
acolheria este corpo
tragaria o pálido jovem
acolheria
suas modestas incertezas
como
um cardume de dúvidas
como
o movimento das folhas aquáticas
como
as pedras cegas do fundo
e a mancha deixada lá por uma estrela

fosse rio cortaria
como corta um engenho de mil lâminas de fino vidro
interminável
o sonho do jovem
como se corta um filme
como se corta o estuque
como se corta o algodão longe nos campos
como se enfia a mão nas algibeiras
em busca de água alguma
e cortaria
e tornaria a cortar

como o choro de um flautim
ou a distante sombra de uma nuvem
sobre a campina desolada
e cortaria cortaria
enfileirando os cadáveres nas bordas
decepando líquens
expondo as vísceras do dourado
violentando a boca da medusa
dentro do sonho imóvel do jovem
que dança os pés
no âmbar
e como se corta o anzol
na boca de outro peixe
e como se corta o anel
nas brancas salas estéreis
do país do medo
assim
cortaria
cortaria com os dentes da Erínia

fosse rio
mas não posso
sou ponte
que o rio
adaga
de cortar
não cessa

 

(Fim das coisas velhas)


21/09/2011

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  Sidnei Schneider

SIDNEI SCHNEIDER é poeta, contista e tradutor. Publicou os livros de poesia Quichiligangues (Dahmer, 2008), Plano de Navegação (Dahmer, 1999), a tradução Versos Singelos-José Martí (SBS, 1997) e o volume de contos Andorinhas e outros enganos (Dahmer, 2012). Participa de Poesia Sempre (Biblioteca Nacional, Rio de Janeiro, 2001), Antologia do Sul (Assembleia Legislativa, Porto Alegre, 2001), Moradas de Orfeu (Letras Contemporâneas, Florianópolis, 2011) e de mais de uma dezena de antologias. 1º lugar em poesia no Concurso Talentos, UFSM (1995), 1º lugar no Concurso de Contos Caio Fernando Abreu, UFRGS (2003) e outras premiações. Membro da Associação Gaúcha de Escritores.

sidneischneider@gmail.com


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