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Literatura

Livros do bem e do mal
Marcelo Spalding

Poucos são os escritores que conseguem ser ao mesmo tempo acolhidos no seio da crítica e badalados pela indústria cultural, e raros os que têm essa dupla satisfação antes de completar trinta anos de idade. Caso de Daniel Galera.

Autor de dois romances e uma coletânea de contos (esta já traduzida para italiano), Galera nasceu em São Paulo em 1979 mas cresceu, começou a escrever e publicar em Porto Alegre. De biografia já recheada e interessantíssima, tendo sido um dos primeiros a ficar conhecido por causa da internet, onde publica desde 1996, Galera projetou-se para o Estado e viu seu nome ecoar no centro do país quando criou, junto com Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla, a editora “Livros do Mal”. Com pequenas edições pagas pelos autores, publicou por lá Dentes Guardados (contos), em 2001, e Até o dia em que o cão morreu (romance), em 2003. Segundo o site da editora suas atividades foram suspensas em 11 de maio de 2004, mas até aquela altura o trio, além de nomes como Paulo Scott, já haviam alçado vôo.

Mãos de Cavalo (Companhia das Letras, 192 págs., R$ 34,00) é o primeiro trabalho de Galera depois deste vôo, e de quebra sai por uma das maiores editoras do país, legítima confirmação nacional de uma promessa local. Ambientado em Porto Alegre, o romance retrata o protagonista em três fases da vida em uma trama delicada sobre perda e culpa na formação de uma identidade. A inquietação do sujeito pós-moderno e a efemeridade das relações afetivas voltam ao centro da narração – como em Até o dia em que o cão morreu – mas sem o imobilismo de seu primeiro romance. A aposta em Mãos de Cavalo é mais na sutileza, no discurso do narrador em terceira pessoa, aqui não cabe e não precisa a dose exagerada de maconha, álcool e sexo da primeira história.

Talvez os primeiros e fiéis leitores de Galera achem Mãos de Cavalo politicamente correto demais se comparado aos “livros do mal”, onde termos como cagalhão, mijo, fodida, enfiar o pau no cu, filhadaputa, porra e punheta desfilam sem constrangimento pelo texto. Mas para este resenhista ficou a impressão oposta: Galera não precisa mais reforçar uma identidade, firmar um jeito de escrever, ser “do mal”. Galera não precisa mais ser politicamente incorreto, o protagonista em Mãos de Cavalo pode abandonar a maior aventura de sua vida para ficar com esposa e filha, pode ser um médico bem sucedido e pode ter compaixão por um menino. Muito diferente do protagonista de Até o dia em que o cão morreu, sujeito atordoado e sem ânimo para qualquer trabalho ou estudo, hedonista, niilista, ateu que vê em Marcela uma boa transa, nos pais um dinheiro certo e no futuro uma chateação. Só isso. Sem remorsos, sem decisões.

Afora exageros que acompanham as edições e as matérias jornalísticas sobre Galera, trata-se de um grande autor, muito alinhado com o momento em que vivemos e dono de um texto ágil, rápido, cinematográfico, sem concessões a ignorância mas sem firulas anacrônicas. O que o destaca, sem dúvidas, mas não chega a fazer dele, pelo menos ainda, o melhor de uma geração ou o símbolo “da tribo paranóica dos anos 90”, como sugere Fabrício Carpinejar na contracapa de Até o dia em que o cão morreu.

Um crítico poderia dizer que o segredo do sucesso de seus dois romances é que eles seguem a risca a definição de Lukács para o gênero, “epopéia burguesa de um mundo sem Deus”: em Galera nenhum personagem deixa de ser médico porque o vestibular nas federais é um funil intransponível para 95% dos jovens ou porque nas particulares cobram mais do que o salário de 90% das famílias, nenhum jovem de rua pede o resto do baseado ou o fundo da garrafa de cachaça, ninguém trabalha fritando batatinhas e lavando banheiros no Mc Donald’s, ninguém passa oito horas num escritório de advocacia criminal para pagar os oitocentos reais da PUC à noite.

Preciso e precioso raio X de uma fatia da juventude contemporânea, Galera tem feito muito barulho e recebido muitos elogios primeiro pela qualidade de seu texto, que deixa transparecer um sujeito bem educado, de boas leituras, multilingüe, formado na universidade e em oficina literária, mas também por acertar na escolha desse recorte, expondo a juventude com a cara que a mídia a ela atribuiu.

Neste contexto “Livros do Mal” é mais do que uma boa sacada de marketing, é uma ironia com todas as editoras e todos os “livros do bem” de até então. Ironia inteligente num tempo em que ser bom é ser babaca e ser mau – ainda que não se saiba ao certo o que é ser mau – torna-se a única saída. Um tempo livre do politicamente correto onde um protagonista pode ser maconheiro, alcoólatra, vagabundo, filhinho de papai e ainda assim terminar em Nova York depois que o cão morreu.

Quase na contramão, Mãos de Cavalo já é a concessão do narrador para os “livros do bem”. Agora temos um narrador com menos certezas e mais idade, seguro o suficiente para não fazer caricaturas e conhecido o bastante para não chocar pelas palavras. Resta saber se adiante veremos a vitória do bem ou do mal nesta batalha maniqueísta, o que no fundo também não interessa, desde que ganhe e permaneça a literatura.

13/11/2007

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  Marcelo Spalding

Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros 'As cinco pontas de uma estrela', 'Vencer em Ilhas Tortas', 'Crianças do Asfalto', 'A Cor do Outro' e 'Minicontos e Muito Menos', membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano 2008 pelo livro 'Crianças do Asfalto', categoria Não-Ficção, e o Prêmio Açorianos de Literatura em 2008 pelo portal Artistas Gaúchos.

marcelo@marcelospalding.com
www.marcelospalding.com
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