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Literatura

Com a palavra, as gordas, feias e mal amadas
Marcelo Spalding

Quando Cláudia Tajes publicou A vida sexual da mulher feia, no finzinho de 2005, ninguém poderia prever o sucesso do livro – pelo menos naquele verão – chegando a figurar entre os mais vendidos na categoria de não-ficção (sic). Narrado em primeira pessoa, o romance mais parece um diário ou um livro de memórias em que a feiosa Jucianara relembra de seus casos mal fadados e de sua dificuldade com os homens, tudo contado numa linguagem simples, com um bom humor constante mas pontadas certeiras de melancolia. Enfim, fórmula infalível para o sucesso de verão: boa escritora, bom tema, tratamento adequado (leia-se leve).

Agora Cíntia Moscovich, também mulher, também gaúcha, também ótima escritora, publica Por que sou gorda, mamãe? (Record, 2006, 252 p.), um livro também narrado em primeira pessoa em que ficção e realidade se confundem, um livro em que a protagonista também luta contra a estética e também deixa perpassar um fino ressentimento de mulher mal amada (será apenas pela mãe ou também pelo marido?). Semelhanças que talvez não sejam mera coincidência: Cláudia e Cíntia são amigas, a segunda de certo leu o livro da primeira e inclusive a convidou para escrever na orelha do seu romance.

Por que sou gorda, mamãe? é uma carta à mãe, onde a narradora – que jamais menciona seu nome – anuncia o início de um severo regime e o começo da escritura de suas memórias como forma de investigar as causas dessa obesidade. Menina judia de classe média, não deixa de mencionar a difícil chegada de seus antepassados ao país, as histórias das avós – a Gorda e a Magra – e o carinho que guardava por elas, a saudade do pai, já morto, a adolescência tresloucada mas sobretudo, sempre, em cada página, em cada linha, o que relembra é a dificuldade de relacionamento com a mãe.

“Entenda, a senhora: não tenho jeito ou paciência de fazer de meu amor substância, exceto por algo de meu tempo ao telefone. Fora isso, mamãe, fora do contato por um fio, a porta da rua vira mais do que serventia da sua casa, e o amor de uma filha por sua mãe é só pretexto para a ficção. Por isso, acho, virei escritora. Talvez por isso eu tenha virado uma escritora com corpo de prima-dona: a boca preenchida tem contato direto com o coração.”, p. 32

Diga-se desde já que a mãe era magra e esbelta, não precisava passar pelas humilhações dos regimes nem pelo sacrifício dos exercícios físicos, o que força a narradora a ingratas comparações – “eu sabia que não era bonita nem atraente. Era só nos comparar, as duas. Eu era criança, mas não era burra” –, comparações que expõem toda a fragilidade de ambas e faz com que a filha sinta a necessidade de escrever esta carta melancólica porém sincera, em que relembra cada momento da sua vida em que a mãe esteve ausente, doente ou neurótica.

“Vovó fora acusada de desamor anos a fio, eu já havia escutado aquela história antes. Mas parecia naquele momento algo mais severo e grave. A vó continuou com o rosto escorado pela mão olhando os bicos dos sapatos, como se tudo dependesse dos bicos dos sapatos – e eu me meti numa conversa de adultos, numa conversa que não era minha, me interpus entre vocês duas, e pedi que a senhora, mamãe, parasse com aquilo, a senhora estava maltratando a avó. (...) E foi só então que a senhora viu que eu estava na sala, e levantou a mão para mim, como quem vai desferir um tapa, e eu cobri o rosto com o braço, e o tapa não veio, felizmente não veio, e a senhora levantou o queixo, orgulhosa como quem diz a verdade de uma vida, e passou os dedos entre os cabelos, ajeitando o penteado desfeito à altura da nuca, e saiu dali com passos pesados de neurose, rejeição e trauma.”, p. 97

A temática do relacionamento afetivo já estava presente na primeira narrativa longa de Cíntia, Duas Iguais, lançada em 1998, onde duas meninas lutam por um amor impossível. Mas ao mudar o motivo da narração para algo tão jocoso como o excesso de peso de quem escreve, uma pessoa bem resolvida profissionalmente – a narradora tornou-se jornalista e escritora ainda que o pai e a mãe a desejassem médica ou advogada –, equilibrada financeiramente – a ponto de pagar um médico endocrinologista – e casada, Cíntia aproxima-se mais do leitor médio e, como Cláudia, evidencia como a preocupação com o corpo no mundo de hoje ganha importância.

Muito mais do que lamentar o excesso de peso, a filha-narradora deixa transparecer um profundo questionamento sobre os valores sociais em que sequer a relação entre a família está preservada, relação esta fundamental para que seus antepassados prosperassem em terra estrangeira. Olhar-se no espelho e ver-se gorda é deixar de ver-se triste, melancólica, solitária, talvez sem um sentido evidente para a vida. É deixar de procurar uma bandeira mais importante a erguer do que a perda de peso.

Verdade que a própria narrativa toca nos dois extremos desta aparentemente banal guerra com a balança. A narradora confessa, quase no fim do livro, que na adolescência chegou a sofrer tonturas e desmaios, tornando-se quase bulímica, “em tempos que bulimia e anorexia eram neologismos de uso alheio”. Por outro lado, lembra de um episódio em que o pai deu carona para suas três tias paternas, todas extremamente gordas, e tanto que não conseguiam sequer entrar no carro sem a ajuda do irmão, e tanto que, quando finalmente as três entraram, quebrou-se o carro (aliás este capítulo, com feitio de conto, é um dos pontos altos do livro, o que não poderia ser diferente se tratando Cíntia de uma exímia contista).

Não espere a leitora, talvez gorda, talvez triste, de certo filha e talvez também mãe, não espere a leitora um livro de auto-ajuda e não coloquem as revistas o livro nas listas dos mais vendidos de não-ficção. Cíntia faz ficção, romance na mais clássica definição luckatiana em que encontrar o equilíbrio físico é mais do que deixar de comer frituras ou correr trinta minutos por dia, é descobrir-se, investigar-se, vasculhar a própria identidade em busca de valores ainda sólidos que justifiquem o esforço diário de viver e devolvam o prazer diário de viver. Viver num mundo de beldades siliconadas mesmo sendo gorda e feia, desde que nunca mal amada.

20/11/2007

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  Marcelo Spalding

Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros 'As cinco pontas de uma estrela', 'Vencer em Ilhas Tortas', 'Crianças do Asfalto', 'A Cor do Outro' e 'Minicontos e Muito Menos', membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano 2008 pelo livro 'Crianças do Asfalto', categoria Não-Ficção, e o Prêmio Açorianos de Literatura em 2008 pelo portal Artistas Gaúchos.

marcelo@marcelospalding.com
www.marcelospalding.com
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