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Literatura

Série biografias: Clarice Lispector
José Domingos de Brito

Clarice Lispector nasceu em Chechelnyk, Ucrânia, em 10/12/1920. Escritora e jornalista, veio para o Brasil com pouco mais de um ano e se dizia pernambucana. “Na Ucrânia nunca botei os pés, só andei no colo” . Aos sete anos já era uma leitora habitual; aos oito foi ao Teatro pela primeira vez e ficou encantada com a encenação. Escreveu uma peça – Pobre menina rica – que, infelizmente, se perdeu. Aos 10 anos passou a escrever contos e se animou em enviá-los ao suplemento infantil do “Diário de Pernambuco”. Não foram publicados porque não pareciam contos infantis; não continham fadas ou piratas; referiam-se mais a sensações.

No curso primário tomou gosto pela matemática e chegou a dar aulas aos filhos dos vizinhos com dificuldades na matéria. Em 1932 entrou no Ginásio Pernambucano e no ano seguinte “tomei posse da vontade de escrever”. Nesta época, um dos livros que lhe causou impacto foi O lobo da estepe, de Hermann Hesse. Tentou escrever um conto enorme, que devido ao tamanho, não chegou a ser concluído. Também lia muito, misturando tudo e escolhendo os livros pelos títulos. Lia livros de mocinhas e Dostoiévski ao mesmo tempo. Aos 8 anos sua mãe faleceu e aos 14 seu pai mudou-se com as 3 filhas para o Rio de Janeiro. Foram morar no bairro da Tijuca, onde concluiu o ginásio no Colégio Silvio Leite. Em 1937 entrou numa escola preparatória para a Faculdade de Direito e voltou a dar aulas particulares de matemática para ajudar no orçamento familiar. Em 1939 ingressou no curso de Direito ao mesmo tempo em que trabalhava num escritório de advocacia. Mas o interesse pelo Direito foi minguando enquanto aumentava o gosto pela Literatura.

Nessa época a família passou por novos perrengues com o Estado Novo, de Getúlio Vargas, o avanço da II Guerra Mundial e o antissemitismo imperando no Brasil. Clandestinamente, seu pai arrecadava fundos para os judeus na Palestina. Em maio de 1940 publicou seu primeiro conto – Triunfo – na revista “Pan”. Em agosto seu pai faleceu e ela foi morar com a família da irmã no Catete. Insatisfeita com o trabalho de escritório, passou a circular pelas redações de revistas oferecendo seus contos. Na revista “Vamos Ler!” encontrou o jornalista Raimundo Magalhães Jr., secretário do ministro da propaganda Lourival Fontes. Mostrou-lhe o texto e ele perguntou: “de quem você copiou isto?” Ao saber que ela havia escrito, decidiu publicar. Com este contato, teve acesso ao ministro e conseguiu um emprego de tradutora e repórter na Agência Nacional.

Aí conheceu Lucio Cardoso, por quem ficou enamorada, mas não foi correspondida, pois o rapaz era homossexual. Porém, a amizade progrediu e passou a integrar o círculo de jornalistas e intelectuais. Como repórter viajou pelo País e deixou textos publicados em diversas revistas e jornais. Em 1941 intensificou a publicação de matérias e contos, revelando uma tendência, onde os conflitos familiares e amorosos são realçados. O primeiro livro – Perto do coração selvagem – surgiu em 1942. O título foi sugerido por Lucio Cardoso e o crítico Álvaro Lins classificou-o como “o primeiro romance brasileiro dentro do espírito e da técnica de James Joyce e Virginia Woolf”. O livro causou certo furor no circuito literário; foi eleito o romance do ano pela Fundação Graça Aranha e suscitou comparações com Joyce, Sartre e Proust, causando estranheza na autora, que afirmou não ter lido nenhum destes autores.

Em 1943 obteve a naturalização e casou-se com o futuro diplomata Maury Gurgel Valente. No final do ano os dois formam-se em Direito, mas não foram colar grau. No ano seguinte o casal mudou-se para Belém, devido ao serviço do marido como vice-cônsul. Em julho de 1944, logo após a II Guerra Mundial, o casal foi transferido para Nápoles, onde passou a fazer trabalho comunitário junto às enfermeiras de um hospital norte-americano, auxiliando no tratamento dos feridos em guerra. Em fins de 1945 recebeu carta de Manuel Bandeira criticando sua poesia, fazendo com que ela queimasse todos seus poemas. Mais tarde Bandeira se desculpou e lamentou: “Até hoje tenho remorso do que disse a respeito dos versos que você me mostrou. Você interpretou mal as minhas palavras […] Faça versos, Clarice, e se lembre de mim”. Em 1946, foi publicado “O Lustre” e ela passou três meses no Rio de Janeiro para rever amigos e fazer outros. Conheceu Paulo Mendes Campos, com quem manteve um romance mais tarde, ao separar-se do marido.

De volta à Europa, o casal foi morar na Suíça, para onde o marido foi transferido. Enfrentando novas dificuldades de adaptação, passou a frequentar cinemas quase diariamente e a ler novos autores, como Ibsen, Theodore Dreiser, Jean Cocteau e Simone de Beauvoir. Nesse meio tempo, continua enviando contos para o jornal carioca “A manhã”. Em 1947 os dissabores com a vida diplomática e constantes mudanças levaram-na ao psicoterapeuta Uysses Girsoler. Mas o tratamento não prosseguiu devido a paixão que ele passou a sentir por ela. Em 1948 veio o primeiro filho, Pedro, e em 1953, o segundo Paulo. Ao entrar na adolescência, Pedro foi diagnosticado como esquizofrênico e abalou a estrutura familiar. Cansada da vida de eterna viajante, do ciúme do marido e querendo cuidar melhor do filho, separou-se em 1959 e voltou a morar no Rio de Janeiro com os dois filhos.

Retomou a carreira de escritora profissional com uma coluna “Correio feminino – Feira de Utilidades”, no “Correio da Manhã” sob o pseudônimo de Helen Palmer. No ano seguinte, assumiu a coluna “Só para mulheres”, do Diário da Noite, como ghost-writer da atriz Ilka Soares. Em 1966, foi dormir com um cigarro aceso e provocou um incêndio no quarto. Ficou mal durante três dias, quase teve a mão direita amputada e ficou hospitalizada por dois meses. Em 1975 participou do 1º Congresso de Bruxaria, em Cali, Colômbia, fez palestra sobre o conto “O ovo e a galinha” e foi bem recebida pelo público. Ao voltar ganhou fama como a grande bruxa da literatura brasileira. Otto Lara Resende falou: “não se trata de literatura, mas de bruxaria”. Seja o que for, o fato é que em seguida lançou mais um sucesso de crítica e público: A hora da estrela (1977), romance que veio a ser filmado.

Em fevereiro de 1977 deu uma entrevista na TV Cultura onde se apresentou de modo circunspecto, melancólica e muito séria. A conversa enveredou sobre o tema da morte e o entrevistador, sentindo o clima tenso, perguntou: “mas você não se renova a cada trabalho novo?” . A resposta exprimiu certo desencanto com vida: ““Bom, agora eu morri… Mas vamos ver se eu renasço de novo. Por enquanto eu estou morta… Estou falando do meu túmulo”. A entrevista pode ser vista clicando aqui. Em 9/12/1977 faleceu de verdade. Mas eis que surge o milagre: poucos anos depois, ela renasce como uma das escritoras mais importantes da literatura brasileira. Surgiram diversas biografias aqui e no exterior, obras póstumas, relançamentos, análises de suas obras, além de inúmeras dissertações e teses acadêmicas sobre sua obra.

21/07/2020

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  José Domingos de Brito

Bibliotecário, professor, pesquisador e editor, trabalhou na organização de bibliotecas e centros de documentação de empresas (Metrô, CET, CMTC, FGV/SP, Editora Abril, Parlamento Latino-Americano e UBE-União Brasileira de Escritores). Como atividade paralela tem trabalhado na organização de livros e coletâneas: "O pensamento vivo de Getúlio Vargas" (1985); "Darcy Ribeiro: América Latina nação’ (1998); "Por que escrevo?" (1999), "Como escrevo?" (2006). e a obra "Mistérios da Criação Literária" (2007) composta de 6 volumes. É também editor do site www.tirodeletra.com.br, uma revista semanal digital destinada a especular e divulgar os mistérios da criação literária.

literacria@gmail.com


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