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Reflexão

A Casa da Árvore
Simone Saueressig

Foi num dia desses, de calor tórrido e céu feito um verão de livro. Íamos por uma estradinha de chão, muito saibro e poeira, os olhos postos no horizonte verde e nas videiras carregadas de frutos ainda por amadurecer. Adoro caminhos do interior. Quando não há uma paisagem de largas distâncias e requintados recortes, pode se ter por quase certo deparar-se com recantos de paz e aconchego, jardins floridos ou casas onde o Natal e a Páscoa fazem morada quando o calendário assim o decreta.

Depois de uma curva, um capão ainda fechado, daqueles sombrios, que prometem ruídos estranhos e movimentos furtivos, à direita. À esquerda, na continuação do caminho, a cor se multiplicou.

Eram cataventos. Muitos deles. Não contei quantos, porque quando a alegria se apresenta a gente não se detém nesses detalhes sem importância. E a alegria eram as pás, girando enlouquecidas e espalhado cores e alegria no vento quente que os moviam.

Diminui a velocidade, certa de que havia me deparado com alguma daquelas coincidências oníricas que marcaram a Literatura Fantástica do começo do século XX: sonhos tardios, se multiplicando na realidade desperta, levando o protagonista a se perguntar se está de fato acordado ou não.

Parei o carro.

É que atrás dos cataventos que marcavam a cerca da propriedade, havia outra coisa. Uma estrutura enorme, feita de madeira, encimada por um impossível avião e emoldurada por um escorregador. Ao lado, uma bilheteria colorida convidando e avisando: “Tá ruim? Visite o parque que C fica bom logo”. E dois cartazes de “Aberto”, como se quisessem ter certeza de que o visitante não vai desistir por não perceber um aviso daquele tamanho. Na bilheteria, uma advertência fez pensar em seriedade “Ninguém mais entra sem pagar, tá claro?”.

Claro, pode deixar.

Olhei de novo a estrutura. Imagine uma daquelas obras surrealistas de Escher, escadas que levam a outras escadas, mas em versão rústica.

Assim é a Casa da Árvore.

Irrestisti. Saltei do carro, câmera em uma mão, dinheiro da entrada na outra, os olhos entre a construção cheia de convites, redes para subir, casinha colorida no meio da estrutura, e a bilheteria de aviso sério.

Que estava vazia, ao lado da porteira aberta.

Junto à entrada, um homem jovem recolhia alguns tapetes em um balde preso a uma corda. O balde foi puxado para cima e eu perguntei – segura de estar falando com um dos trabalhadores do lugar – para quem pagaria a entrada.

“Para aquele senhor de camiseta amarela ali, ó”, ele apontou. Segui o gesto da mão do homem e virei criança na hora, como há muito tempo não era mais. Pois o “senhor de camiseta amarela” no final do dedo apontado, estava embalando uma menina em um balanço de cordas brancas e gigantescas, enormes como a distância entre mim e a garotinha que fui. Cataventos, escorrega gigante, estrutura escheriana, tudo foi soprado pela brisa do balanço e os gritos infantis, “não tão alto, não tão alto!” E logo: “Sim! Mais alto! Mais alto!”. Viver é se embalar em contradições.

Seu Ademir, que esse é o nome do plantador de cataventos e construtor de sonhos, me recebeu com um sorriso enorme e o azul do céu nos olhos. Me mostrou os bonecos movidos pela roda de água. Me levou pela estrutura que era tudo o que parecia e ainda mais, com caminhos pendentes e trilhas entre as árvores, escadas rústicas, labirintos inexplorados e os escorregas que parecem feitos para crianças, mas que são para todos. É que na estrutura da Casa da Árvore, há espaço para a família inteira: aventuras para os aventureiros, sombras para os cansados, redes para quem quer um cochilo, mesas e bancos para um mate, cantos e recantos para ouvir e inventar histórias, e sim, casas na árvore, não uma mas várias, encaixadas entre os galhos das árvores e assombradas pelos silenciosos pesadelos de Deus, as aranhas pernaltas que se escondem do calor da tarde para certamente aflorarem feito cataventos sombrios depois do entardecer. Meus medos sempre me espreitam, invejosas tecelãs de teia branca que elas são.

Visita feita, escorregador polido por mais um bumbum de adulto que voltou a ser pequeno, fui para a fila do balanço batendo papo com seu Ademir. Quem era, de onde vinha tudo aquilo que eu via. Um menino se colou na nossa sombra: “Tio, empurra eu, tio!” Seu Ademir olhou para o menino, olhou para o balanço. E lá estava o pai, o sujeito que eu tinha pensado ser um dos atendentes, olhando para nós com um ar desamparado, esperando o filho vir ser seu filho. Seu Ademir, que viveu parte da sua vida em uma casa na árvore e não construiu seu espaço à toa, olhou para o homem, olhou para o menino e disse, como um avô que sabe de tudo “mas, vai lá, guri, que o teu pai te embala. Ele tá te esperando”.

O menino olhou sobre o ombro, como se descobrisse naquele momento que essa é uma das funções mais importantes de um pai, e correu para o balanço, e sentou, e pediu “vai alto, bem alto, bem, bem alto!”

Ele foi. Mas ainda mais alto foi o pai, empurrando, olhando, rindo e aprendendo que um balanço é muito mais do que duas cordas e uma tábua. Pai também tem coisas para aprender com os filhos.

“Quer se balançar?” perguntou seu Ademir.

“Claro que eu quero”, disse a menina dentro de mim.

Sentei na tábua polida de tantos traseiros já sentados ali.

“Não vai alto, tá?” pediu a cinquentona medrosa que eu sou. Seu Ademir riu e puxou, puxou e puxou. E quando soltou a tábua, bastou um empurrão apenas para os pés quererem tocar as nuvens.

Vou lhes dizer, amigos: nenhuma menina jamais envelhece. É mentira essa história de rugas.

E nenhuma criança jamais esquece como impulsionar o corpo para subir ainda mais, em direção ao verão, ao sol, ao vento e ao céu.

01/07/2019

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  Simone Saueressig

Simone Saueressig nasceu em Campo Bom (RS), em 1964. Professora de balé desde os dezoito anos, a autora também trabalhou como editora do suplemento infantil "Popinha" do Jornal NH, de Novo Hamburgo. Na década de 90, Simone morou na Espanha e neste período escreveu inúmeros contos infantis para o jornal "Ya", de Madri.
Atualmente, Simone tem vários títulos publicados para o público infantil e infanto-juvenil. Entre eles, destacam-se “A Máquina Fantabulástica” publicado há 20 anos, ininterruptamente pela Editora Scipione, e os livros “O Rubi Ragank” e “A História do Rubi Ragank”, publicados em 2012 pela Um Cultural.

contato694@gmail.com


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