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Literatura

Breve passeio pelas cidades de Leminski
Dinarte Albuquerque Filho

Em 2019, Paulo Leminski será lembrado pela passagem dos 30 anos de sua morte. Não que os leitores de poesia o tenham esquecido... a publicação de Toda poesia em 2013 ainda vibra nas estantes dos admiradores do poeta curitibano morto em 1989. Mas, mais do que da morte – nunca ausência –, é preciso falar [d]a poesia de Leminski, poesia que contribuiu para dar novos rumos à literatura brasileira; e contextualizar: quando a poesia dele chegou às esquinas do Brasil, leitores ganhavam novos estímulos graças à saudável/saudosa iniciativa da Brasiliense.

Entre os estímulos, a reunião de poemas de Leminski em Caprichos & Relaxos, de 1983, na coleção Cantadas Literárias. No livro, uma amostra do poder da palavra, um dos maiores sucessos editoriais de poesia no mercado brasileiro, com cerca de 20 mil exemplares vendidos, muitos deles passados de mão em mão entre um público que se identificava com a produção dita marginal – mais por estar à margem do processo acadêmico do que por qualquer outra interpretação. Como Leminski esclareceu, mais tarde, em Distraído Venceremos (1987): “Marginal é quem escreve à margem, / deixando branca a página / para que a paisagem passe / e deixe tudo claro à sua passagem.”

Se a passagem de Leminski foi curta, neste caminho difícil, nesta linha que nunca termina, sua presença permanece além das premissas imprecisas das cidades que abrigaram a poesia e o poeta. Curitiba, pra começo de conversa, sobre a qual espantou-se: “quantas curitibas cabem numa só Curitiba?”, pergunta no poema “Imprecisa premissa”. É o poema que incorpora a cidade que incorpora o poema que incorpora.

Em 2015, a Prefeitura de Curitiba publicou o guia turístico A Curitiba de Leminski. A sugestão do passeio (com direito à trilha sonora ao gosto do escritor) tem início na maternidade, passa pelos colégios, pelas casas onde Leminski morou com os pais e irmãos, a Biblioteca Pública e as livrarias, os cursinhos onde lecionou, o Instituto Neo-Pitagórico (templo simbolista fundado em 1909 pelo poeta Dario Vellozo), as residências que dividiu com Alice e as filhas, os restaurantes preferidos e os bares (também para almoços de domingo). Inclua os teatros onde se apresentou e a Pedreira que leva seu nome, e encerre o tour no Cemitério de Água Verde, onde, na quadra 86, jazigo20, poderá ler o poema da lápide: “Aqui jaz um grande poeta. Nada deixou escrito. Este silêncio, acredito, são suas obras completas.” A cidade incorpora o poeta que incorpora a cidade que incorpora a poesia.

Metaforizada poeticamente, Curitiba ajuda a entender um pouco mais da arte e do engenho em Leminski. Ao ser a voz da aldeia (onde o “fazer privado” é inundado por correntes de vida, segundo Benjamin), ocupou-se do paideuma universal e educou-se “na pedra filosofal da poesia concreta”, conforme Haroldo de Campos; mas foi além, tornando legível o que ainda hoje é lido com olhar desconfiado – a poesia. Em sua lírica preguiça de malandro, incorporou a agudeza e a leveza do Oriente, mixando mistérios extremos com algumas manifestações suburbanas da capital paranaense – ladainhas e cantilenas no cotidiano sem surpresas, como quem pede piedade em sua espiral indecisa, sobre a qual se desenvolve o raciocínio e a identificação com a cidade.

Para encerrar essa breve leitura, entendemos seu olhar sobre capital do Brasil como a manifestação de um “estado de espírito” diante das ruínas de um sonho coletivo. Sem isentar Niemeyer, o arquiteto, ele se admira com o detalhe, com a plasticidade marginal, com o tempo que segue, com as pessoas que passam. Com a arquitextura. Estas são algumas das questões presentes em toda a poesia de Leminski, uma poesia feita com experiência e estudo, não apenas como expressão sentimental, e que facilita a reorganização da maneira de entender o mundo (de) concreto que nos cerca.

Em Pilarzinho e em Brasília. Na Antártida, em Andrômeda, no Himalaia. Xanadu ou Shangrilá. Em todas, “quem sabe a chave / de um poema / e olha lá” (de Distraídos Venceremos). Uma pista, dada por quem escrevia porque precisava, porque amanhecia, porque as estrelas no céu lembravam letras no papel.

20/11/2018

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  Dinarte Albuquerque Filho

Natural de Cruz Alta, mora em Caxias do Sul (RS) há mais de 40 anos. Mestre em Letras – Literatura, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor e jornalista formado pela Universidade de Caxias do Sul. Publicou Leituras na madrugada (Liddo Editora, 2014), Leminski: o “samurai-malandro” (EDUCS, 2009) e Um olhar sobre a cidade e outros olhares (edição do autor, 1995), além de coparticipar em Misterioso Sul – Lendas em Poemas, junto com Helô Bacichette, André Ricardo Aguiar e Nil Kremer (Elos do Conto – Edição e Arte, 2018), 3, com Fabiano Finco e Odegar Júnior Petry (Liddo Editora, 2005) e Romã, com Fátima Jeanette Martinato (edição dos autores, 1991). Escreveu para veículos de comunicação e publicações acadêmicas, e mantém o blog leiturasnamadrugada.blogspot.com. Como editor da Liddo, publicou cerca de 20 livros de autores novos e já reconhecidos.

dhynarteb@gmail.com


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