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Reflexão

O tempo repensado
Dinarte Albuquerque Filho

Quando leio o poema-livro A máquina do mundo repensada, de Haroldo de Campos, me maravilho com a disciplina estética do autor em seu último texto criativo dele publicado em vida. Procuro, ainda, entendê-lo como uma síntese de sua pesquisa poética, pois ele consegue ir tão longe quanto possível: transita pelas dimensões da vida e da morte, da angústia e da solidão. Para extrair a força desses extremos metafísicos, se utiliza de recursos linguísticos que os mantêm interligados, e com a terza rima, a tensão sintática entre a tradição e a atualização necessária no presente do poema.

Haroldo de Campos (1929-2003) destacou-se como poeta, crítico e tradutor e é, sem dúvida, um dos mais importantes nomes brasileiros do século XX. Só a incursão nas três áreas da literatura torna fundamental que se leia Haroldo – uma outra razão, mais formal, seria a aproximação que podemos perceber entre a criação e a consciência poética, como já disse alguém. Ao construir o poema, assim como sua obra, Haroldo resgatou autores do cânone, ou de fora dele, e, ao fazer isso, mexeu com a cronologia dos estilos literários quer dizer, repensou o tempo em que viveu e o tempo em nos que deixou para apreciarmos sua obra.

Esse movimento permite afirmar que a leitura de Haroldo é sincrônica em relação à arte inserida numa linha de tempo e, ao mesmo tempo, ressalta um aspecto trabalhado em A máquina do mundo repensada e, às vezes, despercebido: a incoerência do tempo. Ele com 70 anos e Dante com 35, envolvidos em uma narrativa que transporta o leitor para uma galáxia mitológica e atemporal, e ao mesmo tempo, faz com que ele percorra a História da humanidade e a própria história do Humano em suas linearidades e limtações. É tempo concentrado e tempo expandido.

Os versos posicionam o leitor, Haroldo e Dante, num mesmo milênio, dominado por um sentimento ou forte sensação de angústia diante do dissimulado; é quando descortina-se a realidade do desconhecido – num estado de torpor revelado pela melancolia, num ciclo em que a Terra ainda estava no centro do Universo. A grandiosidade do cenário e das realizações, presentes no livro-poema, eleva o homem a um estado além do normal, carregando-o de tintas sagradas e o leitor continua em uma trip num período de profunda difusão da civilização (o helênico), que proporcionou novas formas artísticas, religiosas e políticas para a humanidade. Se consideramos a existência da temporalidade concreta exercida pela palavra, ao mesmo tempo devemos levar em conta as imagens que ela proporciona. Daí se percebe que o “tempo” para o poeta torna-se incoerente, desde que se entenda que a harmonia pretendida abriga uma multiplicidade dispersa e contraditória perceptível na vida/na poesia, o que gera conexões positivas entre as partes do sistema.

Só que antes de chegar a esta posição, o poeta roda – e nos leva juntos – pelo éter de um mundo finito, mas não limitado, já proposto por Einstein; navega pelos mares de Vasco da Gama, feito enaltecido pelo português Luís de Camões; e caminha pelas pedras itabiranas de Drummond “no clausurar do dia”. O percurso de Haroldo, como matéria-prima do poema, apresenta-se como o espelho reverso do Cosmos, que contempla o percurso imaginário que conduz o leitor à gnose transcendente, que será revelada não como uma resposta, mas como nova incerteza ao final do poema. Mas é bom lembrar que a verdade sempre está sob a pespectiva de onde é contemplada.

O imaginário preenche um espaço atemporal e remete ao tempo sistêmico. Dante, Camões, Drummond e Guimarães Rosa compartilham o mesmo espaço-tempo da linguagem poética, embora distantes e apartados na distância e vivência físicas. Dante caminha em direção à morte, logo o tempo se torna angustiante. Camões é o “álef do nada e de tudo razão” à beira do abismo, urgente e surpreso. Drummond, no “seu pedroso caminho” não cede ao desencanto. E encontramos Rosa, nas veredas de seu sertão, imobilizado no momento do rocio antes de desabrochar. A máquina do mundo segue imprimindo as mesmas pegadas até o fim do ciclo. Que aqui se encerra e expôe o “antigo modelo cosmológico”, conforme Paulo Franchetti.

Na segunda parte do poema, Haroldo incorpora ao cenário o começo de tudo, o Big Bang – depois de descrever o início da caminhada. Na terceira parte, que é a apresentação de uma nova cosmologia, o predomínio de uma linguagem que resulta organicista, vitalista ou psicologizante (apesar do formalismo de Haroldo) produz o resultado mais curioso, pois o leitor deve optar entre entendê-la como construção irônica, ou senti-la como momento agudo de pura inconsistência-incoerência entre a forma e o objetivo do discurso.

O poema-matriz é A Divina Comédia, de Dante Alighieri. Este é, como quer Carpeaux, o único poema do gênero que se pode ler como uma obra de literatura viva. A máquina do mundo repensada não só se aproxima na forma do italiano, mas também pela construção dialógica com o tempo e sua possibilidade de conhecimento. O poema de Haroldo ressignifica Dante por trazer novas possibilidades à caminhada do poeta, no meio da vida. E, ao ressignificar Dante, projeta condições para que entendamos a pertinência de seu livro-poema.

Poderia afirmar que o concretismo e a vanguarda a ele atrelada seriam parte de um projeto mais arrojado de formação de uma identidade, para a qual convergem inúmeros textos canônicos, revisitados por Haroldo neste poema e ao longo da atividade poética que marca sua presença entre nós. E assim, torna-o vivo num mundo que se aproxima do artificial e de suas artimanhas nada transcendentes.

17/09/2018

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  Dinarte Albuquerque Filho

Natural de Cruz Alta, mora em Caxias do Sul (RS) há mais de 40 anos. Mestre em Letras – Literatura, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), professor e jornalista formado pela Universidade de Caxias do Sul. Publicou Leituras na madrugada (Liddo Editora, 2014), Leminski: o “samurai-malandro” (EDUCS, 2009) e Um olhar sobre a cidade e outros olhares (edição do autor, 1995), além de coparticipar em Misterioso Sul – Lendas em Poemas, junto com Helô Bacichette, André Ricardo Aguiar e Nil Kremer (Elos do Conto – Edição e Arte, 2018), 3, com Fabiano Finco e Odegar Júnior Petry (Liddo Editora, 2005) e Romã, com Fátima Jeanette Martinato (edição dos autores, 1991). Escreveu para veículos de comunicação e publicações acadêmicas, e mantém o blog leiturasnamadrugada.blogspot.com. Como editor da Liddo, publicou cerca de 20 livros de autores novos e já reconhecidos.

dhynarteb@gmail.com


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