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Literatura, leitura e interpretação – Feito à mão
Cássio Pantaleoni

Abrir mão ou manusear, cutucar, segurar, apontar. Estar à mão.

Sabe-se que, muito antes das máquinas, tudo era feito à mão, com apelo ao tempo e à paciência, num capricho. Debulhar o trigo, por exemplo, exigia que se segurasse um punhado de talos juntos, amarrados com barbante para que estivessem firmes. Depois a mão afundava no oco de um pote de barro e os batia vigorosamente contra as paredes para que os grãos se soltassem dos caules. Por último, enquanto uma das mãos segurava um leque ou um pedaço flexível de casca de madeira, a outra jogava os grãos de um recipiente para outro; o vento feito pelo leque soprava de modo a separar o joio.

Assim talvez tenha acontecido com a literatura: ela aconteceu como o debulhar do trigo. O escritor ou o poeta, apelando ao tempo e a paciência, segurava no pensamento um punhado de ideias juntas, as amarrava firmemente com a sintaxe mais apropriada e depois as afundava no oco do papel, batendo-as vigorosamente contras as regras da linguagem, até que o sentido legítimo de suas intenções se soltassem. Depois, com o leque flexível dos olhos, o escritor revisava tudo, buscando retirar o excesso.

A literatura nunca conseguiu superar esse processo de maneira definitiva. As fórmulas literárias delineiam o caminho mais firme para as intenções do escritor, porém não garantem a representação apropriada ao sentido. No melhor caso, apenas parece literatura, mas sem a ardor da paixão, sem o pulsar das têmporas, sem o suor frio das mãos.

As mãos. A literatura precisa andar de mãos dadas com o sentido.

Mesmo quando o escritor alcança o legítimo texto literário não há garantias de que será compreendido. Entre as mãos pedintes dos ocasionais leitores, o que eles pedem, por vezes, é menos do que se entrega. Muito em razão de que há muito não se encontram leitores debulhadores, daqueles que, enquanto leem, seguram a história firmemente, amarradas com a sua curiosidade e, numa pausa repentina, uma pausa promovida pelo representar vigoroso de uma ideia ou forma poética, mergulha-a no oco de sua compreensão, batendo com força nos limites do seu entendimento, até que o sentido se separe do familiar e apareça inesperadamente; depois com o sopro de um deslumbre, ele separa o comum do divino.

Houvesse ainda leitores com tal disposição, com a disposição de promover a arqueologia dos textos literários, e o número de escritores reduziria drasticamente. Seria preciso dar a mão à palmatória e admitir que vivemos uma crise peculiar na literatura: a crise da interpretação. Qualquer escritor que hoje se demore, apelando ao tempo e à paciência, para produzir um texto literário rico de sentidos, é um escritor frustrado. Pois os campos de trigo estão abandonados e já são poucos os leitores capazes de debulha-los.

A literatura, a grande literatura, sempre será artesanal. E o grande leitor sempre será alguém que mira os detalhes. O sentido é refém de uma disposição que não pode se dar ao luxo de andar com as mãos amarradas. Ainda que o frêmito digital nos limite ao cutucar incessante no espelho negro das telinhas, há que se reintroduzir o hábito da leitura caprichosa, a leitura que apela ao tempo e à paciência.

É como a mão miúda das crianças, que experimenta o mundo aos pouquinhos. E tudo faz sentido.


27/12/2016

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Comentários:

Bom dia
Cássio me sinto gratificada ao ler um texto tão criativo e inesperado.
parabéns
dionizia portella ghiggi, pelotas/rs 29/12/2016 - 09:37
Cássio, simplesmente admirei as comparações que fizeste nesse texto. És um mestre no gênero. Indica-me um livro teu para que eu posa adquiri-lo. Parabéns.
Aglaé Machado de Oliveira., Porto Alegre-RS 28/12/2016 - 17:37

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  Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni nasceu em agosto de 1963, em Pelotas, Rio Grande do Sul. Escritor, Mestre em Filosofia pela PUCRS e profissional da área de Tecnologia da Informação. Vencedor do II Premio Guavira de Literatura, na categoria conto, em 2013, com o livro “A sede das pedras”; finalista do Jabuti de 2015 com a novela infanto-juvenil “O segredo do meu irmão”. Segundo lugar na 21a. Edição do Concurso de Contos Paulo Leminski; duas vezes finalista no Concurso de Contos Machado de Assis, do SESC/DF; duas vezes finalista no Premio da Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Desenvolve workshops sobre leitura, técnicas de escrita ficcional e filosofia aplicada à literatura. Obras Publicadas: “De vagar o sempre” – Contos – 2015, “O segredo do meu irmão” – Novela infantojuvenil – 2014, “A corda que acorda” – Infantil – 2014, “A sede das pedras” – Contos – 2012, “Histórias para quem gosta de contar histórias” – Contos – 2010, “Ninguém disse que era assim” – Novela – 2006, “Os despertos” – Novela – 2000.

cassio@8inverso.com.br
www.sextadepalavras.blogspot.com
https://www.facebook.com/cassio.pantaleoni.9


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