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Um ebook de fracasso
Paulo Tedesco

O atual modelo de livro digital foi originalmente proposto pela Amazon para alimentar seu Kindle, e num segundo momento foi adotado pela Apple para seus Ipads e Iphones. Somente depois é que foi adaptado por diferentes empresas para diferentes operações comerciais, gerando essa diversidade mundial de distribuidores e vendedores desse modelo de livro digital, mais conhecido por ebook, e que tem o formato epub como ponto de partida em seus arquivos digitais.

Até aí, imagino, muitos deverão estar de acordo, porém essa curtíssima história do ebook permite também um outro olhar sobre o significado desse modelo de leitura de conteúdo digital.

O fato é que esse formato nada mais do que transfere, se não de todo, porém boa parte da tarefa editorial e livreira para as mãos de poucos, e na maioria conglomerados estrangeiros, agentes de negócios. Ou seja, excetuando a criação editorial (o que não ocorre na autopublicação da Amazon, que entrega o serviço para o word da Microsoft) e a literária, todo o resto passa para as mãos de outras empresas que não aquelas que geraram o produto editorial.

E por isso, sobretudo por isso, é que o modelo atual não sairá jamais do seu patamar de vendas. Não há como. Desde a fabricação de seu mais indicado suporte físico para leitura e arquivamento, no caso do Kindle e assemelhados, até a forma de recolhimento e gerenciamento das vendas, terminam por alijar boa parcela da uma indústria milenar, que embora tenha sido afetada pelas mudanças tecnológias, ainda não foi comprovada sua superação ou obsolescência.

É de se acreditar em novos formatos, como o tal “streaming” ou clube digital de leitura, a exemplo da Elefante Letrado e Nuvem de Livros, que por si são mais seguros e nitidamente mais eficazes em trazer o livro digitalizado para o leitor. Nesses, não há a possibilidade de se comprar algo e se perder porque seu aparelho quebrou ou um “bug” arrebentou com os arquivos de livros adquiridos.

Que me perdoem os mais afoitos, mas o modelo de ebook é um fracasso, e não passa de uma versão requentada para dizer que o livro poderia sair mais barato porque dispensava o custo de papel e o frete, além de impostos. O que é uma besteira das grandes. O passar dos anos mostrou claramente: as editoras, os autores e até os editores, ao verem os preços dos livros em formato ebook não ficarem muito distantes do papel, aperceberam-se do engodo que era o tal ebook.

Um outro raciocínio que pesa nesse precipício, é que os livros deixaram de ser atratativos para o mercado financeiro global. O estranho mercado editorial e livreiro sempre dado a consignações, devoluções, vendas independentes, bibliotecas e até revendas de usados e seminovos (nossos queridos e estimados sebos), mostraram aos investidores que um livro jamais seria como os celulares, televisores, máquinas de café e até o tal leitor digital (sic).

E aí está, muito possivelmente, o principal problema do modelo de ebook existente e que ainda provocará muita conversa em torno de sua inutilidade e desserviço à cultura. Sua invenção, em verdade, não foi necessariamente para democratizar a leitura, foi antes para atiçar os barões da especulação acionária, a exemplo do pré-histórico CD, que gerou fortunas e pouco tempo depois afundou a indústria da música que até hoje não se recuperou de todo.

A boa nova é que os amantes do livro não caíram no engodo do descartável, e o leitor, o principal alvo disso tudo, não se deixou levar pelo afã midiático e tecnológico. Prova maior é a estagnação das vendas ebooks e o fato de que os principais defensores do fim do livro hoje assumem: o tal ebook é nada mais do que uma opção à leitura diante do livro em papel, e jamais o substituirá.


21/06/2016

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  Paulo Tedesco

É escritor de ficção, cronista e ensaísta, atua como professor e desenvolvedor de cursos em produção editorial e consultoria em projetos editoriais, também como orientador em projetos de inovação em diferentes setores. Trabalhou nos EUA, onde viveu por cinco anos, nas áreas de comunicação impressa, indústria gráfica e propaganda. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? (Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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