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O golpe no mundo do livro
Paulo Tedesco

Em tempo de golpe político, é bom repensar o mundo do livro e dos autores e sua trajetória em períodos repressivos. Gosto de começar por alguns nomes clássicos, de autores clássicos que passaram por situações complicadas diante de momentos políticos: Dostoiévski, que foi alvo de pelotão de fuzilamento, com pena comutada à última hora e que viveu toda sua carreira sob a censura czarista; Antonio Gramsci, que escreveu boa parte da obra da prisão e ainda hoje se discute o que de fato intencionava dizer na tentativa de driblar seus censores; Graciliano Ramos, que escreveu Memórias do Cárcere como um monumental relato biográfico de seus dias longos e penosos de cadeia; Frederico Garcia Llorca, fuzilado covardemente na ditadura franquista, e outros tantos que certamente aqui mereceriam estar, mas que, a se ver por esses, podemos ter ideia dos danos que uma ditadura ou mesmo uma instabilidade antidemocrática possa ser capaz de proporcionar.

O leitor mais apressado pode acusar de exagero, pode ousar dizer que o Brasil não caminha para uma nova ditadura, e que citar, de pronto, grandes nomes perseguidos, é um abuso deste cronista ainda estarrecido com o que ocorre na nação. Mas se existe uma regra no mundo da disputa pelo poder e que funciona, inequivocadamente, é a regra do pacto: uma vez quebrado um pacto político tudo é possível. Eu disse: tudo.

E dentro do tudo é de se imaginar uma ridícula censura pós-moderna breve a nos assolar, arrebentando nas praias, outrora calmas das liberdades democráticas, para vermo-nos refém de um governo despótico e ensandecido, como aquele que fuzilou García Llorca, tentando silenciar qualquer autor e qualquer publicação que o desafie.

Essa a regra quando se quebra um pacto na política, o lado que toma o poder de forma ilegítima, a não ser a da força (seja ela midiática ou militar), mostra toda sua agressiva desenvoltura para calar qualquer ameaça. Sim, o governo que vier a assumir no lugar do atual, em Brasília, possivelmente irá partir para cima da internet e das redes sociais, essas que tanto contrapuseram o que vem sendo alardeado na mídia empresarial.

E o mundo do livro, os autores, passada a primeira fase repressiva, serão os próximos a serem atingidos. Ou será que, uma vez assentado no Alvorada, o Temer permitirá alguém publicar uma biografia sua a chamá-lo, com justeza, de traidor maior da democracia brasileira? Ou seu ministro da cultura não pensará, acima de tudo, em como encerrar qualquer programa de incentivo editorial sem restrição de qualquer ordem e instaurar programas que beneficiem somente sua história, seus aliados e suas igrejas?

É inaceitável o destino que vem sendo traçado desde os corredores do Congresso Nacional. O mundo dos livros e dos autores não pode se curvar, por sua tradição de resistência e luta, a um novo interregno na vida democrática de um país em ascensão. Temos que agir, é preciso, é urgente. 

Se desejamos que novos autores e suas obras virem mártires do impensado, depois de tanta luta, tanta batalha pela democracia, pelo voto direto e pela liberdade de expressão, pois que nos unamos e mostremos, ao mundo, que quem faz livros, quem cria literariamente, não se cala diante de um novo desastre político que se avizinha. É tempo de reagir.


10/05/2016

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  Paulo Tedesco

É escritor de ficção, cronista e ensaísta, atua como professor e desenvolvedor de cursos em produção editorial e consultoria em projetos editoriais, também como orientador em projetos de inovação em diferentes setores. Trabalhou nos EUA, onde viveu por cinco anos, nas áreas de comunicação impressa, indústria gráfica e propaganda. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? (Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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