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Por que ainda produzimos literatura?
Cassio Pantaleoni

Dia desses, um jornalista amigo meu me perguntou sobre o sentido da literatura. Na verdade, me perguntou além: por que ainda precisamos produzir literatura? As perguntas são bem importantes, quando se considera que a literatura já não possui o mesmo apelo que tinha antes do surgimento das redes sociais.
A pergunta pelo sentido da literatura não pode prescindir de considerar o “sentido” desde sua etimologia mais essencial, ou seja, sentido enquanto aquilo que se dá como impressão de ser desta e não daquela maneira. Assim, o sentido da literatura acontece sempre, dessa maneira e não daquela, em duas entidades: o escritor e o leitor. O que remete a duas perguntas distintas: qual é o sentido da literatura para o escritor e qual é o sentido da literatura para o leitor.
 
Se, por força de uma resposta simples, como a opinião popular sugere, que a literatura serve para distrair, então precisamos nos perguntar em que medida ela distrai o escritor ou o leitor. De modo rudimentar, o escritor poderia dizer que escreve para passar o tempo, como se estivesse a rabiscar distraidamente e sem a pretensão de ter essa folha recolhida por um leitor qualquer que se demoraria a admirá-la apenas para (também) passar o tempo.
 
Nesse sentido, a literatura como mera distração, em uma época de tantos estímulos digitais, de tantas produções em série para a televisão, de tantos filmes monumentais, perde o estatuto e o privilégio de ser a primeira escolha para aquele que quer apenas “passar o tempo”.
 
 Porém, perguntar pelo sentido da literatura, agora que esta já não acontece de ser a primeira opção de distração, impõe perguntar o que ela representa afinal e porque sobrevive, apesar de estar privada de ser a preferência para quem quer se distrair. Aqui a palavra “representação” cumpre um papel importante. O escritor, quando se põe em obra de um texto, deveria querer mesmo representar o mundo no qual ele está aí jogado, de modo a provocar a reflexão de algum eventual leitor. Talvez pela dificuldade de expressar-se assim como ele é e pensar do modo como pensa, o escritor opte por representar, através da literatura, aquilo que o sensibiliza. Mas por que ele haveria de querer se expressar afinal? Qual o sentido de se por em obra de um texto para representar a sua visão de mundo? Não seria melhor que permanece mudo? Que se privasse desse modo de expressão tão específico? Ora, talvez o sentido da literatura para o escritor, enquanto representação, seja o simples caráter de ser representativo, de querer registrar, através de uma história, aquilo que em uma simples conversa cotidiana nunca seria construído como um registro representativo.
 
Se admitimos que isso é razão suficiente para escrever literatura, devemos recolocar a questão do sentido para o leitor: afinal, porque alguém se interessaria em ler o registro de outra parte? Ora, não seria a literatura um espaço onde o leitor quer encontrar o que ele ainda não encontrou? O que ele sente falta? Mas se admitimos isso, por que necessariamente um texto literário possuiria maior estatuto que um texto não-literário? Talvez por que ler uma história organize as intuições que cada um de nós tem sobre o que o mundo representa.
Então temos assim o caráter da distração, o caráter da representação e o caráter da falta como três aspectos que poderiam oferecer certo sentido à literatura, não fosse a literatura (e somente a literatura) um instrumento para utilizar os recursos da linguagem em favor do refinamento da compreensão da psicologia do comportamento humano. Eis aí talvez o único mistério que continua sendo fundamentalmente um mistério: as diferentes facetas do comportamento humano. A literatura fala, através da linguagem, sobre pessoas. O escritor quer representar o comportamento humano e acusar as faltas que nos fazem ser tão diferentes uns dos outros. E o leitor quer aprender, sem que necessariamente precise viver as tragédias, os dramas, os delitos, os sarcasmos, os arrebatamentos etc, sobre as variações possíveis desse comportamento. Ele quer preencher suas lacunas sem que se submeta ao irreversível destino da experiência própria. 
 
Tudo isso seria enfadonho não fosse a linguagem e as possibilidade que só a linguagem oferece. Como escreveu certa vez Stevenson: “A dificuldade da literatura não é escrever, mas escrever o que você quer dizer; não para que o leitor compreenda imediatamente, mas para afetá-lo precisamente como você quer afetá-lo”. E que significa “afetar o leitor”? Sobretudo é mantê-lo no campo do mistério da linguagem, enquanto desvelamos a história.
 
A literatura, vista desse maneira, nos dias atuais, talvez não sirva para nada. É essa é a verdadeira magia da literatura, pois ela implica em uma decisão – tanto para o escritor quanto para o leitor. Para o primeiro, implica na decisão de se por em obra de revisitar o mistério do ser humano através do mistério da linguagem; para o segundo, implica na decisão de se deixar afetar pela obra de um escritor e assim ampliar os horizontes da compreensão do mistério do ser humano e da linguagem. Em sua essência mais fundamental, a literatura só encontra sentido quando alguém decide pelo ser humano, ao invés de estar simplesmente jogado na materialidade do mundo dos objetos que nos distraem.
Por que ainda precisamos de literatura? Porque precisamos oferecer algum espaço para que pessoas como nós decidam mais uma vez pelo ser humano ao invés de simplemente estar aí, distraídas.

05/04/2016

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  Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni nasceu em agosto de 1963, em Pelotas, Rio Grande do Sul. Escritor, Mestre em Filosofia pela PUCRS e profissional da área de Tecnologia da Informação. Vencedor do II Premio Guavira de Literatura, na categoria conto, em 2013, com o livro “A sede das pedras”; finalista do Jabuti de 2015 com a novela infanto-juvenil “O segredo do meu irmão”. Segundo lugar na 21a. Edição do Concurso de Contos Paulo Leminski; duas vezes finalista no Concurso de Contos Machado de Assis, do SESC/DF; duas vezes finalista no Premio da Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Desenvolve workshops sobre leitura, técnicas de escrita ficcional e filosofia aplicada à literatura. Obras Publicadas: “De vagar o sempre” – Contos – 2015, “O segredo do meu irmão” – Novela infantojuvenil – 2014, “A corda que acorda” – Infantil – 2014, “A sede das pedras” – Contos – 2012, “Histórias para quem gosta de contar histórias” – Contos – 2010, “Ninguém disse que era assim” – Novela – 2006, “Os despertos” – Novela – 2000.

cassio@8inverso.com.br
www.sextadepalavras.blogspot.com
https://www.facebook.com/cassio.pantaleoni.9


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