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Os direitos do leitor
Marcelo Spalding

Muito se fala sobre o dever de ler, a importância da leitura. Mas ler não é um dever, ler é um direito de todo cidadão, pois a leitura nos constitui como seres pensantes e nos permite participar da arena das ideias, representada em palavras escritas ou faladas.
 
O texto que melhor trata do direito da leitura é chamado "Os direitos imprescindíveis do leitor", publicado no livro "Como um romance", de Daniel Penac. Abaixo reproduzo seus 10 tópicos e algumas de suas justificativas.
 
I | O direito de não ler 
 
“(...) O dever de educar consiste, no fundo, no ensinar as crianças a ler, iniciando-as na Literatura, fornecendo-lhes meios de julgar livremente se elas sentem ou não a “necessidade de livros”. Porque, se podemos admitir que um indivíduo rejeite a leitura, é intolerável que ele seja rejeitado por ela. É uma tristeza imensa, uma solidão dentro da solidão, ser excluído dos livros – inclusive daqueles que não nos interessam.” 
 
II | O direito de pular páginas 
 
“(...) se não decidem por si mesmos por aquilo que está à disposição, pulando as páginas de sua escolha: outros o farão no lugar deles. Outros se armarão das grandes tesouras da imbecilidade e cortarão tudo que julgarem “difícil” demais para eles. Isso dá resultados assustadores. Moby Dick ou Os miseráveis reduzidos a resumos de 150 páginas, mutilados, estragados, raquíticos, mumificados, reescritos para eles numa linguagem famélica que se supõe ser a deles. Um pouco como se eu me metesse a redesenhar Guernica sob o pretexto de que Picasso tivesse jogado ali traços demais para um olho de doze ou treze anos.” 
 
III | O direito de não terminar um livro
 
“(...) Ao contrário das boas garrafas, os bons livros não envelhecem, somos nós que envelhecemos. E quando nos acreditamos suficientemente “maduros” para lê-los, nós os atacamos mais uma vez. Então, das duas uma: ou o reencontro acontece ou é um novo fiasco. Talvez tentemos de novo, talvez não. Mas o certo é que não é por culpa de Thomas Mann se não pude, até hoje, chegar ao cume de sua Montanha mágica.”
 
IV | O direito de reler
 
“Reler o que me tinha uma primeira vez rejeitado, reler sem pular, reler sobre um outro ângulo, reler para verificar, sim... nós nos concedemos todos esses direitos. Mas relemos sobretudo gratuitamente, pelo prazer da repetição, a alegria dos reencontros, para pôr à prova a intimidade. (...)”
 
V | O direito de ler qualquer coisa
 
“(...) Chegou o momento em que pedimos ao romance uma outra coisa que não seja a satisfação imediata e exclusiva de nossas sensações. Uma das grandes alegrias do “pedagogo” é – toda leitura sendo autorizada – a de ver um aluno bater sozinho à porta da fábrica Best-seller para subir e respirar na casa do amigo Balzac.”
 
VI | O direito ao bovarismo (doença textualmente transmissível)
 
“(...) Em outros termos, não é porque essa mocinha coleciona Sabrina que ela vai acabar engolindo arsênico numa concha. Forçar a mão nesse estágio de suas leituras é nos separar dela, negando nossa própria adolescência.”
 
VII | O direito de ler em qualquer lugar
 
VIII | O direito de ler uma frase aqui e outra ali
 
“Eu colho, nós colhemos, deixemos que eles colham, ao acaso. É a autorização que nos concedemos de pegar qualquer volume de nossa biblioteca, de o abrir em qualquer lugar e de mergulharmos nele por um momento, porque só dispomos, justamente, desse momento. (...) Quando não se tem nem o tempo nem os meios de se oferecer uma semana em Veneza, por que se recusar o direito de passar lá cinco minutos?”
 
IX | O direito de ler em voz alta
 
X | O direito de calar
 
“O homem constrói casas porque está vivo, mas escreve livros porque se sabe mortal. Ele vive em grupo porque é gregário, mas lê porque se sabe só. Esta leitura é para ele uma companhia que não ocupa o lugar de qualquer outra, mas nenhuma outra companhia saberia substituir. (...) Os raros adultos que me deram a ler se retraíram diante da grandeza dos livros e me pouparam de perguntas sobre o que é que eu tinha entendido deles. A esses, claro, eu costumava falar de minhas leituras. Vivos ou mortos, ofereço a eles essas páginas.”
 

17/03/2016

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  Marcelo Spalding

Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros 'As cinco pontas de uma estrela', 'Vencer em Ilhas Tortas', 'Crianças do Asfalto', 'A Cor do Outro' e 'Minicontos e Muito Menos', membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano 2008 pelo livro 'Crianças do Asfalto', categoria Não-Ficção, e o Prêmio Açorianos de Literatura em 2008 pelo portal Artistas Gaúchos.

marcelo@marcelospalding.com
www.marcelospalding.com
www.facebook.com/marcelo.spalding


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