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"A Literatura é um Poderoso processo de Humanização"
Marcelo Spalding, entrevista com Oscar Bessi Filho

 
Em uma sociedade assustada com a violência urbana (tão repercutida pela mídia), vivendo em um Estado que investe pouco ou nada em cultura (para não falarmos em educação), a voz de Oscar Bessi Filho é daquelas que precisam ser ouvidas. Escritor, capitão da BM, colunista de jornal, recém-eleito presidente da tradicional Associação Gaúcha de Escritores e, acima de tudo, pensador das questões sociais, nessa entrevista Oscar começa falando sobre a AGES e o panorama atual do mercado editorial para autores inciantes e termina com belas reflexões sobre a relação entre literatura e segurança, como a que destaco abaixo. Segundo o escritor, há um tipo de diálogo com a sensibilidade que só o livro consegue proporcionar. 
 
Oscar, você é um escritor em ascensão e chegou à presidência da Associação Gaúcha de Escritores. Como você vê esse desafio?
Os desafios fazem bem para indivíduos e instituições. Motiva a superar dificuldades, transformar posturas, ver novos caminhos possíveis para construir. Penso que, à frente da AGES, tenho uma série de desafios pela frente. O que ofereço é minha disposição para enfrentá-los. O primeiro, como disseste, vem pelo fato de ser um escritor ainda em ascensão que, de repente, está na presidência de uma associação que tem em seus quadros alguns dos maiores nomes da história literária gaúcha. A AGES faz uma aposta histórica, creio. Entregou sua condução a um “novato”. Preciso honrar esta confiança e o grande trunfo é ter, ao meu lado, uma equipe qualificada na diretoria, então tenho certeza que conquistaremos os objetivos traçados. O segundo desafio é o período ruim que vivemos. As crises econômicas estão cerceando iniciativas, projetos e investimentos culturais. A cadeia de produção, distribuição e venda do livro está afetada. E numa sociedade capitalista, onde nem o estado escapa desta engrenagem que gira em torno do lucro, é injusto enfrentar a falta de dinheiro. Uma luta inglória. Há que se ter criatividade, garra, atenção ao que acontece em termos de políticas públicas – para que saibamos o que é dificuldade verdadeira e o que é boicote intencional - e conhecimento. Será um biênio conturbado. Mas a Associação cumprirá seu papel e honrará seus associados.
 
 
Para você, qual a principal função de uma associação de escritores?
O principal papel de uma associação de escritores é representá-los em todas as instâncias. Vivemos num mundo dinâmico, onde as tecnologias e as possibilidades transformaram - e ainda transformarão mais - o mercado literário. Penso que apontar caminhos, situar os movimentos deste mercado, garantir e oferecer espaços, defender seus interesses, promover ações, orientar, unir, aproximar, posicionar e, acima de tudo, ser sua voz, esteja dentro do que os escritores querem ver em uma associação que os represente.
 
Hoje, qual a maior dificuldade do escritor iniciante? E do escritor mais consagrado?
O escritor iniciante se depara com um mercado que, por um lado, não tem o público consumidor ideal, e por outro tem uma competição acirrada. Talvez seja sua maior angústia conhecer os caminhos da publicação, depois de aprender sobre produção textual e encontrar seu “caminho” literário, e saber exatamente como funciona o mercado. Em que momento o livro surge e onde a arte se torna produto. Vejo escritores iniciantes – e eu fui um – cometendo erros gigantescos. Alguns terminam com suas carreiras antes mesmo de começar, por conta destes erros. Já o escritor consagrado (mas aí é um palpite, conversa informal que tive com alguns) sofre com a pulverização do livro, da aceleração do mercado que atropela a memória e de algumas iniciativas, equivocadas, a meu ver, que descartam obras importantes, relevantes mesmo, da literatura brasileira. E elas nem chegam às escolas. Não falo dos tais “clássicos de vestibular”, que até hoje não entendo como não se muda aquilo. Mas falo, por exemplo, de Jorge Amado, de João Ubaldo, de Moacyr Scliar, de Dyonélio Machado. Que estudantes de ensino médio os lêem, hoje? Raríssimos. Aliás, há escritores que querem ingressar no mercado já com uma visão tão mercantilista, tão de “oportunidade”, que sequer se dão ao trabalho de ser grandes autores. Parece absurdo, mas é verdade.
 
Como você vê o surgimento de diversos cursos formais de escrita criativa, inclusive em universidades? 
Uma maravilha, termos diversos cursos formais de escrita criativa. Escrever é um exercício contínuo, compartilhar é aprender junto, é crescer. Os melhores escritores de nossa história literária tinham essa prática, de mostrar seus textos uns aos outros, ainda que em grupos pequenos. O que já era uma forma de exercitar a escrita criativa. Quantos mais cursos, mais bons escritores e melhores textos para nosso deleite. Aliás, a escrita criativa (trabalho isto numa palestra para professores) pode ser levada às escolas, através de jogos, o que deveria ser até curricular. Melhora a leitura, humaniza de desperta um novo prazer, que é escrever.
 
Vamos falar um pouco sobre sua obra. Você escreve poesias, crônicas, romances, teatro e já tem uma carreira literária reconhecida. Você tem um gênero preferido para escrever?
Meu gênero preferido é o romance, embora eu tenha apenas um publicado. Mas é o que desejo para meu futuro, ter uma publicação mais ou menos regular de romances. Como poeta, eu me considero fraco. Minhas novelas juvenis são inspiradas em meus tempos de adolescente mesmo, no que eu vivi ou no que gostava de ler (eu amava aventuras). Acontece que, hoje, o que mais escrevo são crônicas, devido aos jornais. É meu segundo gênero preferido. E o que mais aprecio ao escrever para jornais é o bate-papo aberto que se estabelece com o leitor comum, cotidiano e cheio de convicções, inclusive aquele leitor que não tem o costume de ler - muito menos comprar - livros.
 
Como surgiu o convite para sua coluna no Correio do Povo e qual a sua repercussão?
Em maio próximo fecharemos seis anos na página de polícia da edição dominical do Correio do Povo. Um convite que veio após a publicação, no segundo semestre de 2009, de um livro de crônicas que reunia algumas crônicas publicadas em três jornais do interior. O fato de ser capitão na PM gaúcha e, como escritor, ter um estilo de escrita com viés mais humano, foi o diferencial que chamou a atenção da direção do CP. De fato, meu trabalho literário era quase que mais “militância” social do que literatura em si. Eu adoro conversar com estudantes e levar ao debate assuntos, talvez polêmicos, que fazem parte do cotidiano juvenil e que penso merecer reflexão. Como as formas de intolerância, de falta de valorização do ser humano, em especial da mulher, até o mergulho no submundo das drogas. Tudo isto gera um circuito de violências diversas que o conhecimento pode amenizar. Já vi resultados fantásticos acontecerem. E, quando passei a ser colunista do Correio do Povo, aí de fato muita coisa mudou em termos de convites, receptividade e penetração dos textos. Recebo dezenas de e-mails todas as semanas, seja pelas colunas dominicais impressas ou pelas colunas virtuais no blog do jornal, e isto tem me ensinado muito. O Oscar depois de escrever no Correio é um outro escritor.
 
É difícil conciliar sua carreira como militar e escritor?
Sim, é difícil, às vezes, conciliar a carreira de militar e escritor. Principalmente no tocante à agenda e eventos possíveis de comparecer. Há obrigações funcionais das quais não posso escapar, é minha profissão. E preciso respeitar isto acima de tudo, pois, como servidor público, sou um empregado do povo e a prioridade é atendê-lo. Escrevo nas madrugadas de folga e, a cada feira ou evento de que participo, compenso horários e dobro turnos para fazer jus e ficar tudo correto e transparente. Mesmo que todos os trabalhos que desenvolvo em feiras de livro sejam, a bem da verdade, um trabalho de prevenção à violência, pois é disto que gosto de tratar. Mas não misturo as coisas. E enfrento algumas outras dificuldades que não vêm ao caso.
 
No discurso de posse na AGES, você fez uma relação entre a humanização que a literatura traz, especialmente para crianças e adolescentes, e a segurança pública. Poderia nos explicar melhor que relação é essa?
A literatura é um poderoso instrumento de humanização. Para que se compreenda a amplitude disto, peço que leiam “A arte de ler – ou como resistir à adversidade”, da francesa Michèle Petit (Editora 34). Uma obra que descobri por indicação da Elaine Maritza e que me fez delirar, pois tudo que penso está no livro, nas experiências que a autora narra. O poder de transformação que a leitura consegue proporcionar ao ser humano. O tipo de diálogo com a sensibilidade (e aposto muito nisto, na educação da sensibilidade) que só o livro consegue proporcionar. Vivemos, hoje, numa sociedade violenta. E os discursos de intolerância repercutem e encontram eco na dor das vítimas – e a dor é sempre legítima, o maus uso dela pelos oportunistas de plantão é que me dá asco. Há diversos exemplos de sociedades violentas que investiram em leis intolerantes, em exércitos armados nas ruas e nada se resolveu. Mas temos também os exemplos colombianos de sucesso. Há que investir na prevenção da violência, no antes, é aí que está a maior possibilidade de realmente se transformar algo no coletivo. O problema é que se faz justamente o contrário: as áreas de humanização são as primeiras a sofrer cortes numa crise, consideradas descartáveis pelos gestores públicos. Porém, cara moeda que se deixa de investir em educação e cultura, hoje, se transforma num caminhão de despesas ali adiante com problemas de violência - cujos gastos repercutem, também e com maior força ainda, na área da saúde. Precisamos insistir nisto para que nossos gestores mudem a visão sobre o tema. É difícil. As febres do lucro, da mídia para dar votos, da estatística e do imediatismo não nos ajudam. Mas temos que insistir, eis um belo desafio.
 
Para finalizar, indique um livro para os leitores do Portal Artistas Gaúchos.
Eu teria uma estante inteira de livros maravilhosos para indicar, até me dói o coração (risos). Mas peço que leiam o livro de um estreante, recentemente se associado à AGES, que teve seu primeiro livro entre os finalistas do Prêmio AGES Livro do Ano em 2015: “Anjos também usam boné”, de Doralino Souza da Rosa. Escritor ali de Igrejinha. Um livro pungente, tocante, belo tanto no estilo literário do autor como no enredo de seus contos. É de emocionar, vale muito a pena. Dá para sair de suas páginas olhando esse mundo ao redor de uma nova maneira.
 
A série de entrevistas com escritores do Artistas Gaúchos, realizadas em parceria com a Metamorfose Cursos, têm o objetivo de refletir sobre o fazer literário e o mercado editorial gaúcho, buscando ao longo do ano conversar com nomes de experiências e visões distintas sobre o meio.

19/01/2016

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Comentários:

Parabéns ao Oscar pelas brilhantes considerações, principalmente no que trata da literatura como instrumento de humanização. É a primeira vez que leio entendimento tão preciso quanto a esse imprescindível papel da cultura na sociedade.
Jairo Back, Porto Alegre - RS 27/06/2016 - 17:04

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  Marcelo Spalding

Marcelo Spalding é formado em jornalismo e mestre em Literatura Brasileira pela UFRGS, professor da Oficina de Criação Literária da Uniritter, editor do portal Artistas Gaúchos, autor dos livros 'As cinco pontas de uma estrela', 'Vencer em Ilhas Tortas', 'Crianças do Asfalto', 'A Cor do Outro' e 'Minicontos e Muito Menos', membro do grupo Casa Verde e colunista do Digestivo Cultural. Recebeu o Prêmio AGES Livro do Ano 2008 pelo livro 'Crianças do Asfalto', categoria Não-Ficção, e o Prêmio Açorianos de Literatura em 2008 pelo portal Artistas Gaúchos.

marcelo@marcelospalding.com
www.marcelospalding.com
www.facebook.com/marcelo.spalding


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