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Crise de quem?
Paulo Tedesco

Falar de crise nunca me pareceu tão fácil. E não faltam motivações. Vejamos, houve um aumento constrangedor nas contas de luz, subiram também os combustíveis e muito alimento está pela hora da morte. Não bastasse, quem pensava em comprar um novo automóvel ou casa nova, repentinamente viu-se em maus lençóis com as mudanças nas regras de financiamentos e dos impostos.

Sem dúvida, muito fácil falar de crise. Ia-me esquecendo do dólar. Esse indexador maledeto da economia nacional. Uma moeda impressa em outro país e monitorada pelo banco central de outro país, mudando a economia do mundo ao primeiro espirro do presidente do banco central desse mesmo país.

Mas o dólar não fez tudo sozinho, nem seu governo, é bom deixar claro. Longe disso. O novo ministro da economia brasileira não esqueceu de sua contribuição, e manteve a subida das taxas básicas de juro da economia. O que, justamente por serem básicas, todo o resto das taxas de juros nacionais acompanharam na subida e ainda sobem, aumentando os custos dos empréstimos e amarrando as empresas nacionais na captação de fundos para seu crescimento.

É dessa crise que estou a falar. Os americanos, como vimos num filme lá de 2002, gostam do termo "tempestade perfeita", e desde que as taxas SELIC, as tais taxas básicas, voltaram a subir, o clima de uma tempestade perfeita veio se materializando por aqui. Tudo, e muito, parece haver se alinhado para gerar um clima hostil às economias do cidadão comum.

Mas não é tão simples. Lembremos que houve uma crise avassaladora sete anos trás. Tão grave que a maior economia do mundo, a estadunidense, jamais havia brecado da maneira como brecou no fatídico ano de 2008 e seguintes. Na onda dessa crise, muitos países da Europa, junto a outros atrelados ao que gerou a crise, os tais "títulos podres", viram um grande buraco em suas contas. Em resumo, a tempestade naquele ano foi devastadora, e deixou rastros até o nosso atual 2015.

Proponho uma reflexão antes de qualquer protesto impetuoso. Pois talvez estejamos sentindo nada mais do que os efeitos daquela crise de 2008, numa espécie de efeito retardado de um antigo abalo sísmico. Sim, é possível. E a questão sobre os aumentos das dificuldades em torno da crise, quem sabe merecesse outro olhar, menos raivoso e mais centrado.

Não que devamos concordar com o Levy, atual ministro da economia brasileira. Ele poderia fazer as coisas porventura de maneira menos neoliberal. Mas se percebermos o mundo pela ótica do quase pleno emprego, pela retomada da presença fundamental do estado na economia, pela diminuição fantástica da mortalidade infantil, pela redução do analfabetismo, e por outras tantas conquistas, sonhadas desde sempre por qualquer brasileiro, creio ser um merecido contraponto a sopesar no clima de desesperança e histeria que insistem fazer reinar. Resta-nos, pois, esperar, mas sem baixar a guarda.


02/06/2015

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  Paulo Tedesco

É escritor de ficção, cronista e ensaísta, atua como professor e desenvolvedor de cursos em produção editorial e consultoria em projetos editoriais, também como orientador em projetos de inovação em diferentes setores. Trabalhou nos EUA, onde viveu por cinco anos, nas áreas de comunicação impressa, indústria gráfica e propaganda. É autor dos livros Quem tem medo do Tio Sam? (Fumprocultura de Caxias do Sul, 2004); Contos da mais-valia & outras taxas (Dublinense, 2010) e Livros: um guia para autores (Buqui, 2015). Desenvolveu e ministra o curso de Processos Editorais na PUCRS e coordena o www.consultoreditorial.com.br atendendo autores e editores. Pode ser acompanhado pelo seu site, pelo Facebook ou pelo Twitter.

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