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Advogado de bandido
José Carlos Laitano

Como exercício de oficina literária, elaboro projeto de criação de personagem e escolho um advogado de bandido. Pura ficção, dona Frida.
No exercício, tento responder às perguntas que os jornalistas fazem para compor uma notícia. A primeira é quem. O personagem é advogado, que prestou juramento de honestidade e tudo o mais para começar na profissão.
Depois é como. Para tornar-se advogado de bandido, a primeira dificuldade é conseguir clientela. Em geral, bandido já tem seu advogado. Meu personagem precisa de bandido novo, tipo guri.
Se o bandido é pé-de-chinelo, o advogado investe na criatura esperando que, num futuro próximo, pratique crimes melhor remunerados. Trabalha de graça na primeira prisão; logrando absolver o gajo, obtém fama. Talvez consiga que um bandidão, que continua na cadeia, troque o defensor.
Se o novato no crime é um empresário, tipo corrupto, provavelmente será do time de quarto escalão, intermediário, laranja, essas coisas. O meu advogado de bandido sabe que terá que subir a escada da fama e quanto mais fama, mais polpudos os honorários.
Todas as manhãs toma café lendo jornal e lá estão os medalhões do Direito em Brasília, São Paulo, Rio, faturando milhões e os milhões resultam do desvio de dinheiro público; se é público, é de todos; e se é de todos, é meu também, ele conclui. Se a grana não provém do governo, surge do tráfico, ou do roubo, ou do sequestro, nada que importe, meu advogado de bandido preocupa-se em contar cédulas. Até chegar lá no topo, meu personagem sonha ter um cliente desse naipe.
A terceira pergunta é onde. Faz plantão na porta da delegacia. Escritório mesmo, por enquanto, fica num corredor escuro de um edifício fajuto. Mas um dia terá gabinete em Brasília, ou – glória aos céus! – no exterior.
Quando. Um dia, um guri é preso. Para ser interrogado, precisa defensor presente. Só tem aquele que faz plantão na porta. O policial chama o doutor e o doutor vira advogado do guri bandido.
A partir daí ele surrupia provas, tenta induzir juiz em erro, afronta a vítima para esquecer a denúncia. Quando for famoso, pressionará deputados, promotores, juízes, para que seu cliente não seja denunciado, especialmente se o cliente for governador ou presidente. Mas, por enquanto, quando o novo cliente começa a chorar que não tem dinheiro para os honorários, ele ensina, didaticamente: faz um assalto, meu, e traz a grana.
Como o guri ainda é porcaria e o juiz tem mais jeito de pai do que julgador severo, o iniciante é solto, fica feliz e, na vila, distribui cartão de visita do doutor. Então o meu personagem começa a faturar. Ainda é pouco, mas é um começo.
Como vê, dona Frida, basta o advogado aprender uns macetes e logo muda o escritório para o centro da cidade. Aparece um empresário-cliente;o advogado entra para um partido político, ali temmais gente para indicá-lo; e andar perto de certos políticos é como ter um possível cliente na mão.
Agora meu personagem é alta figura no partido do governo, até indicou ministros para a Suprema Corte, só trabalha para cliente rico. No governo do presidente amigo recebe muitos milhões de honorários só de uma construtora envolvida em escândalos. Meu personagem chegou lá,agora é advogado de bandido, mas é gente fina.
Um dia perguntam a ele se advogado de bandido não integra o crime organizado, afinal parte do butim ele embolsa. Meu personagem muda de assunto e até ameaça com processo.
O advogado de bandido é o meu melhor personagem.


01/06/2015

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Comentários:

PERFEITO!
Ecilda, Porto Alegre-RS 02/06/2015 - 10:48

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  José Carlos Laitano

José Carlos Laitano é escritor, colunista em jornal e professor em oficina literária. Possui 23 livros publicados nos gêneros romance, contos, poesia e ensaio.

josecarloslaitano@yahoo.com.br
www.josecarloslaitano.com.br/


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