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Pessoas e suas loucuras
Ana Mello

Observar o outro é uma forma de aprendizagem e diversão, também um bom assunto para crônicas. Gosto de ouvir o que as pessoas têm para contar e também de ouvi-las sem querer pela rua, ônibus, filas, coisa que todo cronista não dispensa.

Conheço muitas pessoas religiosas, não só as mais velhas, que frequentam a igreja, possuem rosários e costumam orar todos os dias. Por isso me interessei sobre uma conversa entre duas senhoras na lotação, sobre hóstias. Uma delas argumentava que em cada igreja a hóstia é diferença e que em algumas são mais consistentes e saborosas, em outras parece que são feitas de papel. A dita senhora é especialista e faz peregrinação nas igrejas de Porto Alegre, degustando, pedindo perdão para os pecadilhos que deve cometer e principalmente ocupando a vida com alguma coisa.

Meus colegas de escola na infância, que eram coroinhas, se vangloriavam por comer hóstias e tomar o vinho do padre, o que era uma tremenda bobagem e mentira, ou pecado se você preferir.

Hóstia significa vítima. Jesus, a vítima de nós mesmos, seres humanos, para a remissão dos nossos pecados. Algumas são fabricadas artesanalmente e outras industrialmente por empresas ou organizações religiosas. São produzidas hóstias de dois tamanhos: 3 centímetros de diâmetro, pesando 0,6 gramas, para os fiéis, e 7,8 centímetros, para os sacerdotes. Enquanto não estiver consagrada ela é apenas uma partícula feita de farinha de trigo e água.

Andei investigando e realmente as partículas podem variar um pouco na densidade, mas o sabor, acredito que não. Talvez por ser tão neutra traga associado um sabor preexistente da boca do fiel que a ingere.

Quanto aos pecados que devemos confessar antes de comungar – muito complicado, pois já comecei pecando na minha primeira comunhão quando inventei pecados. Uma criança de nove anos não tem pecados. Daí para frente, todos os domingos eu inventava uns novos e o padre tascava penitência. Trinta ave-maria, vinte pai-nosso e outras orações que nem me lembro mais. Ficava só imaginando se eu realmente fizesse uma coisa grave e verdadeira, o que ele me mandaria fazer. Um dia pensei em dizer que tinha matado minha vó, só para ver quanto isso dava em oração, mas mudei de ideia para não apanhar da minha mãe.

Cresci, não perdi a fé, mas desisti dos rituais.

Respeito as crenças de todos e até aceito quando minha sogra traz uns frascos de plásticos, vedados e identificados pela igreja que ela frequenta. O conteúdo? Água benta.

Diz ela que serve para abençoar a casa e as pessoas da forma que quisermos.

Quem sou eu para duvidar, antes da saída do meu marido para viajar, lancei mão da água benta e dei a benção para ele, afinal ela é mãe e me instruiu para fazê-lo.

Será que pequei novamente?


09/01/2015

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Comentários:

Delicioso texto.Adoro teus escritos.Bjs
Ecilda Simões Symanski (Ecylda), Porto Alegre-RS 27/09/2016 - 17:37
Legal tua crônica, Ana! Trouxe à tona coisas bonitas escondidas na vida, e os absurdos (até cômicos) da religião. Abs!
Lúcio H Saretta, Caxias do Sul 13/01/2015 - 10:45

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  Ana Mello

Ana Mello é escritora e publica em diversos sites na internet. Escreve poesias, contos e crônicas. É coordenadora do Movimento Poetrix no Rio Grande do Sul. Apaixonada por minicontos, ministra oficinas em cidades como Cachoeirinha e Osório.

anaelyod@yahoo.com.br
minicontosanamello.blogspot.com
twitter.com/anamello


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