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Literatura

Dar de graça ou viva a internet
Clara Pechansky*

Há muito que comentar no texto do Marcelo Spalding Por que os artistas devem dar seu trabalho de graça. Antes de mais nada, uma pequena atualização sobre o que escreveu Chris Anderson em A Cauda Longa: a Tower Records não existe mais, assim como muitas outras lojas que vendiam CDs. Somente em Nova York, HMV, Virgin Megastore, Sam Goody’s também fecharam as portas. A Livraria Barnes &Noble ainda mantém uma sessão reduzida de CDs e DVDs.

Tomando como ponto de partida o desinteresse do público por comprar CD já que pode baixar da internet, ou também por comprar livros, vamos ver como anda a minha área, a das Artes Visuais.
O Marcelo fala em dar de graça uma obra em vez de vendê-la. Há anos que eu dou de graça gravuras, desenhos e pinturas, pelas mais variadas razões, só que faço isso voluntariamente. Por outro lado, minhas obras estão à disposição de quem quiser copiá-las da internet, só que eu encontro meu trabalho ilustrando textos que não autorizei, ou assuntos com os quais não tenho a menor afinidade. Claro que isso tudo é um sinal dos tempos, e precisamos nos adaptar ao freeshare.

Sobre as afinidades entre o livro e a obra visual, enquanto o livro depende de editoras e livrarias o artista depende de galerias, que igualmente cobram sua comissão, e nada mais justo, já que o arranjo entre as partes é comercial. Acho que o problema não está só no sistema de distribuição, citado no artigo. Acho que é bastante mais complicado, pelo menos em relação às obras de arte.

Nós, artistas visuais que ainda trabalhamos com suporte tradicional, como tela e papel, sofremos a concorrência de papel de parede, laminados, tecidos, recorte eletrônico, e todas as inovações que os arquitetos de interiores resolvem sugerir aos seus clientes. Dificilmente uma pessoa vai espontaneamente comprar um quadro porque gosta daquele artista ou porque se sensibilizou com uma obra, sem antes perguntar ao decorador (home stylist) se deve ou não dar esse passo. Será que vai ficar moderno eu ter uma obra ainda feita totalmente com as mãos? Não seria mais interessante colocar um vídeo bem arrojado numa tela de plasma e deixar passando para as visitas verem?

Livros, como quadros, são objetos para a gente curtir: o livro a gente pode ler e reler, o quadro a gente olha todos os dias, e a nossa relação com livros e quadros vai mudando à medida que nós também mudamos.
Expor é difícil e caro, talvez mais caro que editar livros. As galerias não oferecem nada além de suas paredes. Precisamos pagar todas as despesas: convite, frete, catálogo, divulgação, coquetel, sem a mínima idéia se a nossa obra vai agradar e ser vendida. Nos espaços públicos, pior ainda: não há verba para nada, é preciso batalhar um patrocínio ou um financiamento oficial.
Só que isso faz parte do jogo: ser artista é arriscado, mas faz parte do jogo precisar expressar-se, e o nosso jeito de nos expressarmos é este: pintar, escrever.

E nós vamos seguir doando: para museus, para amigos, para leilões beneficientes.
E nós vamos seguir publicando livros que permanecem sigilosos porque o editor não quer pagar a porcentagem ao livreiro.
Por um lado, viva a internet, pelo menos nossas obras são vistas e lidas.


* Clara Pechansky é pintora, desenhista e gravadora. É co-organizadora, com Liana Timm, do livro Artistas da Vida, publicado pela Prefeitura Municipal de Porto Alegre em 2000. Publicou Variações sobre o Enigma pela Editora Território das Artes, em 2000. Organizou o livro A Face Escondida da Criação publicado pela Editora Movimento em 2005. Nenhum desses livros pode ser encontrado em livrarias.


04/10/2010

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Comentários:

Querida Clara!
Achei o texto muito bom, já conhecia tua opinião de vários encontros, e sabes bem que como arquiteta de interiores e artista plástica, concordo que existem muitos profissionais na área de interiores que não sabem valorizar um trabalho de arte. Mas tambem sabemos que muitas vezes o cliente vai até certo ponto na decoração e, por diversas razões, como por exemplo, dificuldades financeiras para ir até o final,acaba dispensando o trabalho do profissional. Algum tempo depois compra os quadros que quer sem consultar o arquiteto. O fato que acho impressindível ficar claro ao cliente é que uma obra de arte, seja tela, desenho ou gravura, tem valor por si só, não precisa combinar com o ambiente, é como tapete persa, vale por si só.
Abraço e parabéns
Carmen Adegas, Porto alegre 15/10/2010 - 10:35
Belo texto,Clara!
Eu,e isso é bem particular, penso que é um erro deixar-mos para o decorador sugerir ou não a compra do nosso trabalho ao cliente, pois decoradores seguem tendências de moda e bem poucos conhecem uma obra de arte. Uma obra vendida assim corre o risco de ser descartada no primeiro sopro de areia para ocre que a moda sugerir.
Prefiro sempre pintar para me cumprir como artista e não pensar na obra como peça decorativa, e geralmente, meus clientes dizem; - Esta obra eu não poderei pôr na sala,pois não é boa recepção, por isso, a colocarei na biblioteca,onde penso, onde crio,etc...
O que a internet pode oferecer são arremedos e reproduções, jamais o teu trabalho assinado. Se o trabalho, assinado, tiver realmente personalidade, ninguém fará a opção pela cópia ou reprodução, porém, se o trabalho foi idealizado tão somente para o mercado decorativo, será feito sob as receitas de bolo usadas por todos e certamente o cliente só terá que escolher pelo preço da concorrência e não pela assinatura,pois ele não valerá nada quando a moda que lhe inspirou passar.
Acredito que a internet está nos permitindo ouvir menos sobre o que é arte e ver-mos mais arte. Isso nos dá anticorpos contra a influência de críticos que nada mais expõem do que sua opinião pessoal sobre a obra.
Acredito que o preço do trabalho ainda é o artista quem faz, mas que é nescessário fazer qualidade também. Assim não há concorrência ou medo.
selistre
SELISTRE, Porto Alegre - RS 15/10/2010 - 00:47
Bonito texto, Clara.
Parece que Teresa Raquel tinha escrito na bilheteria de um teatro dela, de bolso, no Rio: "Não me peça pra dar de graça a única coisa que tenho pra vender".
Ou Algo parecido.
Ou outra artista.
Ou outro teatro....
A frase é instigante como as tuas palavras nesse artigo.
Dá quem pode.
Só dá quem tem.
Quando vamos criar (eu escrevo prosa e versos) não estamos pensando nisso, apenas, ou nem nisso estamos pensando. Quando terminamos o trabalho, queremos que seja visto, lido, comentado, eu penso assim.
Editor, editora... nem penso mais nisso. Um desses respondeu-me uma vez que não tinha agenda "para o momento", enquanto eu conversava com meus botões sobre o que seria "um momento" pra aquele editor.
Outros muitos nada responderam.
Imprimi por conta 1 mil exemplares, vendi a maioria, parte expressiva antecipada a um rol de apoiadores amigos.
Esgotada está a edição.
Publiquei então na internet de graça.
Já tem lá uns 450 baixamentos, desde outubro do ano passado.
Os meus versos estão lá também, em 15 cadernos que chamei poemethos. Esses ainda não imprimi em papel.
Penso que vendê-los seria mais difícil que as novelas. Talvez me equivoque.
Fiz outra novela, já tenho metade da edição de 1 mil exemplares distribuídas, cerca de três quartos vendida, mesmo, até de mão em mão, além de pedidos pela internet ao preço de R$ 35,00.
Não daria a obra se fosse única.
Alguns exemplares dou a professores, amigos, deixo em bibliotecas, associações de moradores de bairros onde vou conversar com leitores.
Levo com rilisis pra alguns poucos jornalistas, agora, porque no primeiro levei a mais de 50 e... bem, não importa.
Dar, dado, apenas por doar, nem pensar.
Adroaldo Bauer Corrêa, http://retornoimperfeito.blogs 14/10/2010 - 16:53

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