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Literatura

Pequeno ensaio sobre um poema de Laís Chaffe
Cássio Pantaleoni

“Nada de lua cheia / Nada de arte / Nada, baleia jubarte” – Laís Chaffe

Esse poemúnculo de Laís Chaffe, breve e sereno, pleno de delicadeza e de beleza ímpar, nos é ofertado.  Nós o acolhemos. Desavisadamente lê-se o poema. Nós o lemos e ele nos fala. Mas o que nos fala?

Preliminarmente, precisamos nos ocupar com esse nada que anuncia cada verso. O que é esse nada? Acaso está ali como substantivo masculino, pretendendo referir  “o que não existe”? Ou ali se coloca como pronome indefinido, querendo representar “coisa nenhuma”? Podemos supô-lo como simples advérbio, expressando negação, como quem pretende dizer “de modo nenhum”? Quem sabe se dispõe a exercer a função de verbo conjugado no presente do indicativo, referindo o ato de nadar, como quem diz “ela nada”?

Originariamente, assumimos aquele nada que inaugura o primeiro verso como advérbio de negação. Como? Ao modo de um anúncio. Ele anuncia que, naquele instante mais próprio, instante em que o poema surge enquanto poema, simplesmente “não há lua cheia de modo algum”. Ficamos, assim, estarrecidos. Esse anúncio denuncia. Chaffe denuncia-nos a falta. Falta a lua cheia. Ela não está ao nosso alcance, ao alcance do nosso olhar. Isso nos entristece ligeiramente, mas no coloca na disposição de encontrar no segundo verso algum conforto. No entanto, ali, naquele novo fragmento, Chaffe continua a sua denúncia.  Essa falta é também “falta de arte”. Ela insinua: “não há arte de modo algum”. Isso nos toca mais profundamente. É doloroso. Falta-lhe a lua cheia, falta-lhe a arte: “Não há lua cheia, não há arte”, avisa Chaffe. Se não há lua cheia como poderia ela encontrar inspiração para a arte? Os dois fragmentos nos encaminham para essa circunstância triste e pesada onde a poeta constata que nas alturas dos céus e nas rasuras terrenas “não há simplesmente qualquer brilho”. Falta a lua no céu; falta a arte na terra. E assim, no último fragmento, a poetisa se confessa resignada: “Nada, baleia jubarte”. Ali, diante da baleia que singra pelos mares ela reitera a convalescência dos nossos tempos, “não há nada de modo algum”. É para a baleia, que ocorre de ser jubarte, que ela confessa e revela a sua decepção. Entretanto, o poema, apesar de seu anúncio preocupante – “nada há de modo algum que valha o olhar” –, em sua essência, encerra aquele tipo de beleza que só pode ser encontrado na singeleza do olhar que constata.

Mas o poema não extingue assim suas possibilidades. Para ser o belo poema que é ele precisa ultrapassar os sentidos mais imediatos e ir além de suas próprias possibilidades, intencionalmente ou não. Chaffe nos diz, no primeiro verso, “Nada de lua cheia”. E ao alcançarmos o último, encontramo-nos com uma baleia jubarte. Assim, observado em seu todo, o nada ocupa no poema outra função. Talvez esse nada seja o traço de um verbo conjugado. Nessa possibilidade, podemos assumir que a baleia – essa jubarte do último verso – nada. Mas a jubarte não nada de qualquer modo. Chaffe está empenhada em nos dizer que a baleia “nada de lua cheia”. Ainda mais: a baleia “nada de arte”. O que isso quer dizer? Quem sabe Chaffe pretende a imagem de uma “baleia jubarte, vislumbrada em seu nado, nadando sob a lua cheia e, assim, nadando como se fizesse arte”? Apenas outra possibilidade, pois poderíamos ir mais longe e perguntar se há algum sentido figurado nesse “de lua cheia”. Acaso a baleia, em seu nado imponente, estaria nadando, de tal modo orgulhosa, que estivesse se sentindo como um ser que “nada de lua cheia”, ou seja, majestosa e plena de brilho como a lua cheia? E por que não supormos ainda que, enquanto Chaffe nos diz que essa tal jubarte, que nada orgulhosa e majestosa, que nada nesse horizonte de águas, essa baleia nada como quem está fazendo travessuras, fazendo arte?

O poemúnculo de Chaffe acomoda dimensões interpretativas diversas.

Deslumbra-nos a possibilidade de que esse nada, que inaugura cada fragmento do poema, seja assim o mesmo nada que inaugura o sentido de não-existência. De onde tiramos esse sentido? Precisamos imaginar, preliminarmente, que Chaffe suprimiu os artigos definidos dos versos do poema em favor do ritmo. É possível que esses artigos definidos, que se ausentam de seus versos, em verdade, possam aproveitar a própria possibilidade de que cada nada seja um substantivo masculino: “o nada” ou “aquilo que não existe”. É nesse universo do nada substantivado que o poema revela algo mais profundo. “Nada de lua cheia” emprestaria então o significado de “o que não existe é como a lua cheia, algo que é apenas um instante que podemos nomear, mas jamais afirmar com toda a certeza: agora é uma lua cheia. Sempre hesitaremos, ao olhar para a lua, se aquele é o exato instante em que a lua está cheia”. O que flerta com a hesitação não existe comprovadamente; está pedindo para existir, mas enquanto não tivermos a certeza, pertence à não-existência. “Nada de arte”, com o mesmo recurso, empresta o significado de que “o que não existe é como a arte”; a arte esta que fala daquilo que não pode ser dito pelas vias da razão, o que não pode ser provado. Chaffe nos oferece o que há de mais lindo na poesia, ou seja, a possibilidade de falar sobre coisas inexistente que pedem para existir e, assim, cobiçar uma região do imaginário que está de caso com a hesitação. E ela acredita tanto nisso que fala até mesmo com o mais inusitado interlocutor – a baleia jubarte. Num ímpeto confessional ela diz: “nada, baleia jubarte” como que afirma “o que não existe, baleia jubarte; é nisso que deveríamos estar interessados”.

Em uma possibilidade derradeira, talvez o nada do poema esteja ali como um advérbio de modo, pretendendo dizer “De modo algum de lua cheia / de modo algum de arte / De modo algum, baleia jubarte” e, enfim, representar o estado de espírito de quem se vê no mundo inadvertidamente, ou seja, ela, a poetisa, afinal está no mundo sem uma determinação inequívoca de seu ser. Talvez aqui Chaffe fale aos poetas: acaso o poeta está certo de si mesmo? De algum modo?

Talvez ser poeta seja apenas uma disposição para evocar a hesitação dos sentidos dado pelas palavras e seus sombreamentos, fazer a palavra acontecer como pretendíamos desde o seu parto. Ou talvez não tenhamos qualquer capacidade de pensar em tantos sentidos simultaneamente. Nesse último caso, a poesia acontece no outro, naquele que a escolhe e a acolhe, e não em quem a compõe. Seja qual for a resposta, creio que esta ficará continuamente em aberto. Contudo, sempre teremos um poemúnculo como o de Laís Chaffe para lembrarmos que talvez o belo seja o que está indeterminado.


12/09/2010

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Comentários:

teste
teste, Teste 11/11/2010 - 19:53
Poesia é assim: Uma frase desencadeia um texto,
Adoro!
jurena veroneze, porto alegre-rs 26/10/2010 - 12:10
E no entanto, o poema que mais me impactou até hoje foi a "Balada para o Cárcere de Reading", de Oscar Wilde, longuíssimo a ponto de penetrar em cada ponto da alma. Questiono-me se há um valor intrínseco no minimalismo a ponto de torná-lo um valor por si só para boa parte dos que produzem a literatura de hoje.
Robertson Frizero, Porto Alegre/RS 21/09/2010 - 10:39
Poema jubarte

Para Cássio Pantaleoni


na superfície, nada
na praia, encalha


se completa
no mergulho
do leitor poeta

Laís Chaffe, Porto Alegre / RS 16/09/2010 - 16:48
O poemínimo agiganta-se em possibilidades interpretativas.
Muitos pensam que é um estilo fácil de seguir. Enganam-se.
O minimalismo presupõe esta condensação de signos, visando esta explosão de significados como se as palavras & imagens fossem arquivos fragmentados e o olhar do leitor aplicaria um zip ou rar neles...(rs)
Deixo um exemplar desta tessitura poética para vocês:

Mata Atlântica

em teu verdazul
ancoro meus olhos
ainda preservados...

Ricardo Mainieri
Ricardo Mainieri, Porto Alegre/RS 15/09/2010 - 11:45

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  Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni nasceu em agosto de 1963, em Pelotas, Rio Grande do Sul. Escritor, Mestre em Filosofia pela PUCRS e profissional da área de Tecnologia da Informação. Vencedor do II Premio Guavira de Literatura, na categoria conto, em 2013, com o livro “A sede das pedras”; finalista do Jabuti de 2015 com a novela infanto-juvenil “O segredo do meu irmão”. Segundo lugar na 21a. Edição do Concurso de Contos Paulo Leminski; duas vezes finalista no Concurso de Contos Machado de Assis, do SESC/DF; duas vezes finalista no Premio da Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Desenvolve workshops sobre leitura, técnicas de escrita ficcional e filosofia aplicada à literatura. Obras Publicadas: “De vagar o sempre” – Contos – 2015, “O segredo do meu irmão” – Novela infantojuvenil – 2014, “A corda que acorda” – Infantil – 2014, “A sede das pedras” – Contos – 2012, “Histórias para quem gosta de contar histórias” – Contos – 2010, “Ninguém disse que era assim” – Novela – 2006, “Os despertos” – Novela – 2000.

cassio@8inverso.com.br
www.sextadepalavras.blogspot.com
https://www.facebook.com/cassio.pantaleoni.9


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