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Literatura

Um desabafo - Sobre livros, liberdades e destinos
Cássio Pantaleoni

Em dezembro de 2008, um par de pessoas, um pequeno saco de idéias e um amontoado de reparos transformaram-se em insumo para que fundássemos uma pequena editora chamada 8INVERSO. À época, tudo o que desejávamos era a recuperação de alguns valores que considerávamos desgastados e que diziam respeito, fundamentalmente, ao livro.

Os livros preencheram a minha vida de um modo que considero até bem comum. Lembro que foi lá pelos meus treze anos que tive a oportunidade de encontrar-me com um deles como quem encontra um sábio e se deslumbra com a sua proficiência na organização das palavras, das idéias e das imagens com a simples (!) missão de contar uma história.

Não que antes já não houvesse a oportunidade de me deparar com esses volumes em papel; alguns professores me ofereceram Joaquim Manoel de Macedo, Jorge Amado, Machado de Assis e outros, mas não me interessei. Uma mente de treze anos está despreparada para o encanto das narrativas que contornam a vida e as suas dobraduras.

 A paixão pelo primeiro livro veio, então, de modo rasteiro, pueril. A primeira história que li foi Vinte mil léguas submarinas, de Julio Verne. Confesso que comecei a ler pela manhã e, já a noitinha, tinha chegado à última página. Que aventura!

Na manhã seguinte fui procurar outra história. Comprei um livro da Ágatha Christie, O assassinato no Expresso Oriente. Também esse eu li em apenas um dia. Não gostei. Porém, desgostar daquela história ensinou-me alguma coisa sobre as minhas preferências adolescentes. Eu gostava de ficção científica. Li, em sequência, Viagem ao Centro da Terra, A volta ao mundo em 80 dias, A máquina do tempo, O fim da eternidade, F de Foguete, E de Espaço, O homem tatuado e tantos outros títulos de Isaac Asimov, Arthur Clarke, Ray Bradbury etc. Gastei aqueles anos com aquelas leituras, até completar dezessete e descobrir Dostoievski.

Todas aqueles títulos predecessoras me forneceram vocabulário e intimidade com a língua portuguesa. Quando enfrentei a leitura (então dura e pesada) de Crime e Castigo,  já carregava a bagagem mínima para compreender as possibilidades das palavras e dos sentidos cunhados em sentenças mais elaboradas. Foi então que descobri minha paixão pela Filosofia e pela Psicologia.

Dali em diante, fui dormir com os escritores russos. Passei a ler diariamente, colecionando autores como Gorki, Tolstoi, Soljenitsin e todas as obras dostoievskianas.

Ainda na faculdade, fui iniciado na leitura dos grandes filósofos e coloquei as obras de ficção numa prateleira diferente das minhas preferências, mas não as abandonei de todo. Durante essa época, descobri a literatura brasileira (Machado, Jorge Amado, Augusto dos Anjos, Manoel Bandeira etc). Contudo, meus hábitos de leitura singraram por mares diferentes. Interessei-me por primatologia, por biologia, por evolucionismo, por física quântica, por Inteligência artificial, por redes neurais e, assim, li uma lista considerável de livros técnicos que me concederam a possibilidade de entender como a mente funciona e como se faz possível que alguém escreva uma história usando as palavras e os sentidos a seu favor e a favor do leitor.

Eu já alcançava os trinta anos de idade quando descobri que era verdadeiramente livre. Os livros me libertaram. Essa liberdade se traduziu na possibilidade da crítica, na possibilidade de exercer o pensamento em favor da reflexão, em favor da evolução do próprio pensamento.

Naquele tempo, abandonei a Administração para ingressar no curso de Filosofia e descobri a Fenomenologia e a Hermenêutica; com elas, filósofos de um quilate especial como Heidegger, Husserl, Vattimo e outros. Entre tanta filosofia, descobri Guimarães Rosa, Gabriel Garcia Marques, Yasunari Kawabata e ficcionistas profundos, autores de outra sorte além do gosto  do grande público.

Hoje, do alto dos meus 47 anos, eu me sinto livre, porém assustado. O mergulho nos livros e o contato com áreas tão diferentes do conhecimento humano me deixaram à mercê do senso comum, pois o senso comum, além de ser aquilo que predomina, enquanto hábito, enquanto comportamento automático, não é fundado nas nuvens dos teóricos e dos poetas. O senso comum é fundado na vida prática, nessa vida que nos leva ao cinema, aos bares, às praças, aos restaurantes, aos estádios, e outros tantos lugares tão ricos e importantes para a nossa prática social. Estar a mercê do senso comum é estar em temor, pois no senso comum também vigora aquilo que é cego. Ali, no senso comum, vigora também o vício. E onde há vício, há falta de reflexão, e onde se priva a reflexão morre a liberdade. Isso me assusta.

Esse receio, que cresce quando observo os movimentos balizados pelo senso comum, funda-se na possibilidade de que tenhamos esquecido alguns valores que não mereceriam tal descaso. Um deles é o respeito; mais especificamente, o respeito pela obra. Aqui, “obra” significa o empenho cuidadoso que mede o fazer na direção do deslumbre, do estar diante de algo que exige pelo menos uma consideração sincera, como uma saudação humilde diante da grandeza do feito.

Quando me vejo agora à mercê do senso comum, esse que particularmente forja a inevitabilidade de mídias alternativas para apor textos, literários ou não, lembro daquilo que ali se afeita como esquecimento.  Estamos, de fato, esquecidos daquilo para o qual a palavra escrita foi prescrita: para ensinar. Talvez nessa prescrição se possa encontrar tantas justificativas do passado para o cuidado exagerado com os escritores e seus textos, para as revisões sucessivas e o filtro estreito dos editores, para as resenhas e críticas dos acadêmicos, para as recomendações dos docentes. Todo esse cuidado era respeito. Respeito pela obra, pelo empenho. Respeito pelo leitor, respeito pelo ensino.

Completando o primeiro ano de existência, a nossa editora gaúcha 8INVERSO quer recuperar esse sentido. Quer olhar para a obra ao modo de quem a respeita, à maneira de quem se encarrega com a obra  para fazê-la vingar como tal. Talvez a 8INVERSO esteja condenada a ser uma ilha solitária nesse mar de tendências digitais. Não nos importamos com isso. Estamos de caso com o respeito.

Já agora dizem que essa nova ordem é um destino inevitável. Há alguns que dizem que isso nem é bom, nem é ruim. Que devemos suspender os juízos, justificados pelo pensamento da pós-modernidade. Talvez assim seja. Talvez essa liberdade seja a nossa prisão. Ou talvez essa prisão seja a nossa liberdade, como as grades de nossas casas. Contudo, já que queremos insistentemente nos outorgar o direito de usar a pós-modernidade para deixar de lado qualquer juízo de valor, quero lembrar Heidegger, um preliminar representante da pós-modernidade, a respeito de liberdades e destinos: “Pois o homem só se torna livre num envio, fazendo-se ouvinte e não escravo do destino”.

Desculpem-me o desabafo, mas me assusto quando vejo um inocente com uma arma na mão.


30/08/2010

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Comentários:

Marcos e Robertson,

Grato pelos comentários.

Que a literatura, seja em que mídia for, não perca aquilo que dela mais nos interessa.

Abraços.
Cássio Pantaleoni, Porto Alegre/RS 06/09/2010 - 11:20
Cássio, conto hoje com 42 anos e ainda vivo mergulhado nos livros dos meus 12/14 anos. A filosofia, me perdoe, nos abre demais a cabeça. As vezes sinto que deveria ser aquele cego que não quer ver, mesmo enchergando. É o caso das propagandas políticas. Mas, fundamentalmente, a realidade assusta a todos nós, de tal sorte que vem crescendo a literatura fantástica. Sobre a continuidade do livro papel, acho que meus olhos estão cansados de olhar essa luz do computador. Grande abraço.
marcos de andrade, Passo Fundo/RS 03/09/2010 - 10:17
Parabéns pelo belo texto. sou um dos orgulhosos colaboradores daquele "par de pessoas" que começou a 8INVERSO, e cada dia mais me sinto parte desse grupo - teu amor pelos livros, Cássio, é fonte inesgotável de meu entusiasmo. tua luta não é solitária, nem vã. Grande abraço!
Robertson Frizero, Porto Alegre/RS 30/08/2010 - 14:58

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  Cássio Pantaleoni

Cássio Pantaleoni nasceu em agosto de 1963, em Pelotas, Rio Grande do Sul. Escritor, Mestre em Filosofia pela PUCRS e profissional da área de Tecnologia da Informação. Vencedor do II Premio Guavira de Literatura, na categoria conto, em 2013, com o livro “A sede das pedras”; finalista do Jabuti de 2015 com a novela infanto-juvenil “O segredo do meu irmão”. Segundo lugar na 21a. Edição do Concurso de Contos Paulo Leminski; duas vezes finalista no Concurso de Contos Machado de Assis, do SESC/DF; duas vezes finalista no Premio da Associação Gaúcha de Escritores (AGES). Desenvolve workshops sobre leitura, técnicas de escrita ficcional e filosofia aplicada à literatura. Obras Publicadas: “De vagar o sempre” – Contos – 2015, “O segredo do meu irmão” – Novela infantojuvenil – 2014, “A corda que acorda” – Infantil – 2014, “A sede das pedras” – Contos – 2012, “Histórias para quem gosta de contar histórias” – Contos – 2010, “Ninguém disse que era assim” – Novela – 2006, “Os despertos” – Novela – 2000.

cassio@8inverso.com.br
www.sextadepalavras.blogspot.com
https://www.facebook.com/cassio.pantaleoni.9


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