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A milonga dos vencidos (I)
Raul Ellwanger

Falta alguém no palco

               Nervosismo no palco da Reitoria da URGS em Porto Alegre. Estamos em 1969, é o momento da apresentação da música tropicalista “Ontem, Hoje, Sempre”, de Raul Ellwanger. Ali estão Telminho, Nana, Paulinho, Maria Teresa, está Homerinho, estão quase todos do grupo “Os Redondos”, mas falta alguém. Falta o próprio compositor. O que terá acontecido?
 
 Semeando um novo momento musical
              Desde o começo da década de 1960, vinha crescendo o movimento musical em Porto Alegre. A febre da bossa-nova, com alguns festivais interessantes, a fissura do roquenrol espalhando-se pelos clubes de bairro, a divulgação feita por jornalistas e radialistas especializados (Osmar Meletti, Osvil Lopes, Paulo Deniz, Glênio Reis, Vanderlei Cunha, Marcos Faermann), a excelência musical dos conjuntos melódicos que animavam bailes, tudo parecia preparar a eclosão de um novo momento e um novo patamar para a música feita em nossa cidade. Pouco faltava.           

Esse pouco que faltava apareceu com o sucesso dos festivais de música competitivos e programas especializados em música da TV Record, por um lado. Por outro, a crescente ação política dos estudantes também encontrava uma válvula de expressão para seu descontentamento na música, nas rodas de som, nos encontros dos Diretórios Acadêmicos e, por fim, nos grandes festivais de 67-68-69. E os dois grupos de comunicação locais (Caldas Junior e TV Gaúcha) fizeram sua parte, ao levar ao grande público aquele movimento que já não cabia em seus estreitos limites.

  Sentimento estórico
 Vou relatando aqui alguns aspectos de minha experiência pessoal no movimento musical de Porto Alegre, na segunda metade da década de 1960. São impressões parciais, polidas pela seleção da memória e pelo esmeril do afeto. Nada objetivas, relatam fatos verdadeiros filtrados pela interpretação que o tempo gerou. São uma espécie de “sentimento estórico” que me ficou. Seus equívocos fazem parte do meu ângulo de olhar e avaliar fatos reais através do filtro da cabeça e do coração. Sei que os fatos foram únicos, o sentimento foi único e não há como renová-lo, sei que cada um dos que ali esteve faria agora um relato diferente, mas a coisa funciona assim mesmo, cada um é escravo de sua própria cabeça e coração. Talvez por isso eu escreva agora este relato, como uma estória escrita por seus atores, ditada pelo sentir de um dos atores, e não pela versão dos vencedores como é habitual.                               
 
 Época agitada
 Nosso país viveu anos de muita movimentação cultural e política após o golpe de 1964. No âmbito da classe média, os estudantes secundaristas e universitários estavam em permanente agitação. Ligar a ação política com eventos musicais de massa era uma tendência natural, e assim ocorreu em nossa cidade.

Desde os pequenos eventos secundaristas, até recitais grandiosos em ginásios (como no Grêmio Náutico União, com 5000 pessoas e xou de Elis Regina), esse momento de efervescência cultural e social mobilizou milhares de jovens da classe média urbana. Numa época em que nos quatro cantos do planeta a juventude ampliava sua participação social e suas reivindicações políticas, também aqui seu ânimo transformador e transgressor estava sintonizado e atualizado com as tendências principais da época, e isso incluía a criação musical.

 
 Falta alguém na TV Record
                Entre os recortes de jornais, folhetos de festivais e fotos que minha mãe “salvou” naqueles anos turbulentos também para ela, está um telegrama da Western Telegraph Company Limited, datado de 11 de setembro de 1968, escrito nos termos seguintes: “Raul Moura Ellwanger, Rua Mostardeiro 1023, Porto Alegre = Favor mandar urgente fita gravada et partitura Ontem Hoje et Sempre Abraços Solano pt”.

É difícil explicar a maravilha que era para um compositor principiante, sem um disco gravado, vindo de uma província distante, numa época em que gravar um disco era quase impossível, ser classificado finalista no Festival da TV Record de São Paulo. Ali, naquela telinha, nos últimos três anos haviam sido catapultadas as carreiras dos maiores compositores modernos que eram e seguem sendo nossos ídolos: Elis, Chico, Dory, Caetano, Vandré, Gil, Sergio Ricardo. Ali era o degrau para fazer conhecer seu trabalho em todo o país, para ser contratado por uma gravadora, para realizar os sonhos de todos os compositores e intérpretes, ali era o “Paraíso”, o sucesso, a realização, o reconhecimento. Mas a partitura e a fita gravada nunca chegaram ao Solano, a música e o compositor nunca subiram ao palco da TV Record. O que aconteceu?

 
 Grandes eventos
              Os grandes momentos para a música de nossa cidade foram os festivais da Faculdade de Arquitetura (1968, 1969) e da TV Gaúcha (1967. 1968, 1969) e os recitais coletivos da Frente Gaúcha da Música Popular (Grêmio Náutico União, Clube de Cultura), precedidos das rodas-de-violão nas faculdades (Arquitetura em especial, DCE-UFRGS, DCE-Puc, Clube de Cultura, Direito-PUC, o itinerante Arqui-Volante), e pequenas mostras em escolas de segundo grau (Bom Conselho, Israelita, Aplicação, São João, Júlio de Castilhos). Em paralelo, crescia o público e os grupos que aderiam ao roquenrol; no começo, grupos de bailes pelos bairros que tocavam os sucessos do momento, logo evoluindo para apresentações autorais com perfil próprio. Vale lembrar que não havia nesse momento discos gravados destas novas gerações, sendo sua divulgação feita de forma pessoal e como notícia jornalística, sem o conteúdo sonoro que atinge milhares de pessoas. Enfim, um movimento musical mais social e mediático, sem aquela base normal dada pela execução pública repetida.
 
 
 

 


25/04/2010

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