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Teatro

Vestida do Avesso
Isabel Bonorino

Foi com o olhar de educador que Pedro Delgado criou Berna, personagem de Vestida do Avesso. O monólogo é mais um trabalho do diretor relacionado às questões do gênero e repleto de significados e reflexões sobre temas relacionados.

Ela já está em cena quando o público entra. A iluminação difusa dá o clima que mescla mistério e curiosidade ao monólogo que está por vir. Berna Herculine é uma professora sexagenária, acostumada a lidar com crianças de todos os tipos na escola particular onde leciona. Mas ela está cansada da vida que leva e pretende dar um fim nesse calvário após a reunião com os pais dos alunos. Até conseguiu algumas realizações, mas ainda era pouco. “Ela se encheu e não quer mais compactuar com o sistema”, conta o diretor Pedro Delgado .

A professora é um transexual, que apesar de operado, não conseguiu operar a verdadeira mudança que gostaria de ver: a da sociedade que o formou. Filho de uma prostituta e adotado na infância pelo dono da escola, o transexual ganhou o nome Berna para remeter à berne: larva da mosca varejeira que infecta vários animais. E a ideia é essa: Berna é aquela que veio para incomodar, um ser marginal, parasita da sociedade, alimentada e marginalizada pela mesma. Hercoline, remete a Foucalt com sua teoria da sexualidade.

Berna quer falar de seus próprios problemas, só que seus problemas são comuns à sociedade e não estão puramente ligados à sexualidade, mas ao respeito ao ser humano. Ela não quer dar lição de moral, apenas questionar os valores, que vem sendo repassados através dos séculos e que se repetem corriqueiramente nas salas de aula, para incredulidade de alguns e aceitação de tantos outros.

Você é um homem ou um rato?

A visão do educador Pedro Delgado deu vida e voz à personagem que revela um tema que precisa ser reavaliado por quem trabalha com crianças e jovens. “Quando tu rotulas, começas a tratar a criança de forma equivocada e o que era pra ajudar a criança a se construir acaba distanciando, dificultando mais”, explica o autor. O discurso parte de uma educadora transexual, mas poderia muito bem ser levantado por mim, ou por você que está lendo e, de alguma forma, influi na formação de alguém. Berna não levanta bandeira nenhuma, o que a credencia é o fato de ser uma pessoa esclarecida, educada e ser alguém que sofreu o drama de ser forçado desde pequeno a fazer e agir de uma forma que não queria e, por consequência, não entendia.

Delgado aborda de forma simples, mas instigante as situações que muitos já vimos por aí, seja por professores ou pais, que na dúvida sobre a sexualidade dos filhos acabam os incentivando de forma forçosa a atividades que seriam mais indicadas a meninos ou meninas. Conforme o autor, o olhar que perdura até hoje ainda é o olhar masculino juntamente com os valores da igreja que são latentes na sociedade. “Nós pensamos a partir de um pensamento sociológico masculino”, reflete o diretor de “Às favas com os homens que as mulheres vão à luta”, na qual também utilizou a “Teoria Queer”.

Criança feliz, quebrou o nariz e a cara

Você sabe onde foi parar a criança que existia em você? As crianças estão ficando adultas cedo demais, é um fato. Delgado, que é professor de História, conta que até o início do século XX, as crianças eram escondidas pelas famílias. Essa fase da vida de muitos personagens históricos é pouco registrada e quase não há informação sobre. Hoje, acontece o contrário: a superexposição. Berna quer resgatar essa criança que foi rotulada e acabou desaparecendo por não ser aceita como era. “A criança dela morreu muito cedo, pois ela ouvia muito: `você tem que ser assim`”, explica Delgado.

A fragilidade e a força de Berna encantam. A voz suave e delicada, acompanhada do gestual lento de senhora e a sensatez de suas palavras tem destinatário. O grupo de pequenos bonecos sentados em cadeiras na reunião representa os pais daquelas crianças que um dia ela também foi. Omissos, passíveis da manipulação da sociedade, da influência da escola, da igreja que dominou a educação e formou a base familiar, eles observam o quase tímido discurso de Berna. Depois de algum tempo, a iluminação transforma a platéia naqueles pais. Nossa atitude continua a mesma dos bonecos, passivos, ouvindo o que a velha mestra tem a passar. Esboçando um sorriso de vez em quando, vindo sei lá por que e de onde, aceitam o café especialmente preparado para a reunião.

A peça é cheia de significados, a começar pelo figurino onde predominam tons femininos como rosa até roxo, a cor da transmutação, e é isso que Berna quer. Um ritual de passagem, para acelerar a morte diária que vem sofrendo desde criança em busca da liberdade do seu ser. Concordando ou não com o desfecho que se desenha, a reflexão nos acompanha a cada frase da professora.

Pedro teve um trabalho solitário, a concepção do espetáculo foi somente dele, o que aumenta a responsabilidade pelo sucesso ou fracasso de qualquer peça. Na sala escolar, que se transmuta em quarto, malas ocupam o lugar de janelas. A bagagem cultural que Berna traz a faz questionar a realidade. As janelas podem ser abertas para o que se vê na televisão, na internet, ou qualquer outra forma que a informação se apresente: mesmo que seja uma cena degradante na rua. “Ela tinha tudo pra não dar certo e ela fez exatamente o contrário”, revela encantado o autor pela personagem.

E não é por menos, Berna é realmente encantadora e a interpretação de Delgado é primorosa. Ele encarna a personagem e prende a atenção do público do início ao fim do espetáculo. Nada semelhante com outros papéis representados por ele este ano, como a debochada Beth, de “Q os homens pensam, q as mulheres pensam”, mostrando também sua versatilidade como ator.

Agora, Pedro Delgado que assina texto, direção, concepção e interpretação, começa a trabalhar Vestida do Avesso para levá-la a escolas e eventos que tenham interesse em abordar a temática e colocá-la na roda de discussões. O projeto vem em boa hora; para quem sente que é preciso modificar a realidade, por vezes nebulosa e sem perspectivas para muitos, através do bom senso, do diálogo e do respeito. Enquanto isso, até o dia 15 de novembro, na Sala Álvaro Moreyra, Berna espera a todos para um café.

Serviço:
O quÊ: Vestida do Avesso
Onde: Sala Álvaro Moreyra - Centro Municipal de Cultura - R. Erico Verissimo – 307 Menino Deus
Quando: Até 15/11 - Sex, Sab e Dom
Horário: sex e sab, às 21h; dom, às 20h
Ingressos: R$15,00
Desconto de 50% para estudantes.

 


05/11/2009

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Comentários:

Isabel, como diz uma amiga atriz: quero ter a sua sensibilidade para observar e escrever quando eu crescer... Mais uma vez você foi fundo na minha alma e no meu trabalho e reproduziu um retrato fiel através do seu texto.
Obrigado, minha querida!
Parabens por sua refinada sensibilidade!
Pedro Delgado, POA - RS 05/11/2009 - 23:51

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  Isabel Bonorino

Isabel Bonorino é jornalista, radialista e relações públicas. Musicista, dedicou-se ao canto lírico de 1995 a 2005, atuando como soprano nos corais da Ospa e PUC. Foi colaboradora da Revista Literária Blau e produtora/apresentadora na Rádio da Universidade, onde criou o programa "UFRGS em Canto". Atualmente é produtora e repórter da TV Assembléia.

isabel@artistasgauchos.com.br
twitter.com/ISAbonorino


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