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Memória

Caio F: o homem que cativava narcisos
Nanni Rios

Poucos são os escritores que conseguem alcançar algum reconhecimento de crítica e público enquanto vivos. Entre esses, raros são os que vieram de fora dos grandes centros culturais do país. Um desses casos raros é Caio Fernando Abreu, escritor gaúcho, nascido em Santiago do Boqueirão e falecido em Porto Alegre há exatos 13 anos. Devido à importância de sua obra, o nome de Caio F. não morreu junto com ele naquele 25 de fevereiro de 1996.

Além dos contos que o consagraram em “Morangos Mofados” (1982) e “O ovo apunhalado” (1975), Caio escreveu peças de teatro, crônicas para os jornais O Globo (RJ), O Estado de S. Paulo (SP) e Zero Hora (RS), e dois romances: “Limite Branco” (1971), aos 17 anos, e “Onde andará Dulce Veiga?” (1990). Foi ator, repórter, ficcionista... tudo e nada ao mesmo tempo. A obra de Caio não pode ser guardada numa gavetinha, com categoria e etiqueta, afinal, cada fã tem um Caio pra chamar de seu.

Ele cativava narcisos. Aqueles que o lêem, vêem sua própria imagem refletida nos textos e por isso o veneram. É fácil gostar de Caio. E não precisa ser homem, gaúcho, brasileiro, gay, escritor ou jornalista pra se ver metaforizado em suas personagens.

Ainda hoje, Caio é lembrado não só na literatura, mas também no cinema e no teatro. O diretor carioca Gilberto Gawronski levou ao palco várias obras de Caio. Em 2007, o amigo Guilherme de Almeida Prado realizou um antigo desejo dos dois: filmar “Onde Andará Dulce Veiga”, baseado no romance homônimo. Também em 2007, a editora Agir reeditou sua obra completa, e lançou com exclusividade a coletânea “Caio 3D: o essencial das décadas de 70, 80 e 90”, que compilava contos, crônicas e cartas inéditas.

Em 2008, foi lançada a primeira biografia do escritor: “Caio Fernando Abreu – inventário de um escritor irremediável”, da jornalista Jeanne Callegari. Em setembro do mesmo ano, o festival Porto Alegre em Cena promoveu a mesa redonda “Caio F. – 60 anos”, em comemoração ao aniversário de nascimento do escritor. Além de Jeanne e Gilberto, participaram da mesa o amigo Luiz Arthur Nunes – nas cartas, Caio o chamava de “Luizar” –, o ator e produtor cultural Marcos Breda e a organizadora do Arquivo Caio Fernando Abreu do Instituto de Letras da UFRGS, Márcia Ivana de Lima e Silva.

É claro que Porto Alegre tem motivos de sobra para festejar a memória de um de seus cidadãos mais ilustres. Caio já foi até patrono da Feira do Livro, em 1995. Antes dele, nomes como Mario Quintana e Érico Veríssimo tiveram semelhante honra.

A capital gaúcha o fascinava de um jeito estranho. Quando estava aqui, queria fugir. Se estava longe, queria voltar. “Ando morto de saudade de Porto Alegre, acho que vou agora no fim do mês, ficar uns 10 dias. Vou de ônibus, bem pobrinho. Basta sentar nos degraus de casa, tomar um sol com Zaél e Nair [pais de Caio], chimarrão com bergamota (mistura explosiva), uma noitada no Lola e/ou no Ocidente, uma voltinha na Redenção, um pôr-do-sol no Guaíba - e já me sinto tri-reenergizado. Amo demais o Sul”, escreveu.

Quando saiu da casa dos pais aos 16 anos para estudar num internato em Porto Alegre, Caio idealizava uma vida perfeita na capital. Tamanha foi a decepção, que um dia ele escreveu à mãe dizendo que estava triste e queria morrer, e pediu que ela fosse buscá-lo. Quando Nair chegou, Caio a tranqüilizou, pediu que voltasse para casa e que não se preocupasse com ele, pois tudo ia ficar bem. Foi a primeira vez que Caio se sentiu estrangeiro, estranho, não-pertencente. E a sensação o acompanhou pelo resto da vida.

Mais tarde, ainda em Porto Alegre, ele chegou a cursar Letras e Artes Cênicas na UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), mas abandonou ambos os cursos para trabalhar como jornalista em São Paulo.

Morou também no Rio de Janeiro, viajou pela Europa, passou pela Inglaterra, Suécia, França, Holanda e Espanha. De volta ao Brasil, pipocou entre São Paulo e Rio, e foi à França em 1994 com intenções de ficar um tempo por lá. No entanto, retornou ao Brasil no mesmo ano ao descobrir-se portador do vírus HIV, e decidiu terminar seus dias em Gay Port (como ele preferia chamar a cidade), na casa dos pais, “cuidando de rosas no jardim, fazendo canteiros com arruda, alecrim e manjericão”. Faleceu dois anos depois, em decorrência da AIDS, aos 47.

O legado de Caio já perpassa gerações e, com certeza, perpetuar-se-á enquanto, neste mundo, houver morte, sexo e amor.


06/03/2009

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