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Literatura

Talhador de quichiligangues
Fernando Ramos

Foto de Fabriano Rocha
Foto de Fabriano Rocha

O poeta Sidnei Schneider lançou esta semana, em Porto Alegre, o seu segundo livro de poesias. “Quichiligangues”, editado pela Dahmer (pela qual, em 1999, também publicou “Plano de Navegação”), com ilustrações e capa do artista plástico Fabriano Rocha, o livro reúne 17 poemas que tratam do enlace amoroso à luta de boxe. Formalmente, o erudito, o popular e contemporâneo se cruzam para abarcar aspectos da cultura grega trazidos para a contemporaneidade, homenagear o poeta grego Kaváfis e metaforizar sentimentos universais sob a temática da água – rio, oceano, onda, tina, enchente, chuva. Abordando a contradição de quem tem a visão mas não vê (no emblemático poema “Tirésias”) e o desfazimento das certezas (“Prometeu”), duas das temáticas mais fortes do livro, “Quichiligangues” deixa no paralelepípedo da nossa memória a pergunta “Quem sabe, sabe o quê?”

No breve bate-papo a seguir, Sidnei fala um pouco sobre este novo livro e as (in) significâncias da poesia e da arte.

“Quichiligangues”, de onde veio esse título? Parece-me um neologismo.

É uma palavra já existente na língua portuguesa. Um dos meus dicionários acabava caindo sempre na página que a continha. Achava isso muito curioso. Ela tem um balanço, uma cadência, parecido assim com paralelepípedo, que também é uma palavra que dança. Vem da língua banto, segundo o compositor Nei Lopes, estudioso das línguas africanas, e pode ser escrita também com xis. O sentido dela está ligado a insignificâncias, ninharias. No fundo, é uma brincadeira irônica, tentativa de chamar a atenção para o gênero poesia, que tem tido pouca atenção crítica, nem para o bem nem para o mal, da grande imprensa. Enfim, tento tirar do ostracismo uma palavra saborosa da nossa língua.

E tem algum poema com esse título ou essa temática?

Não, o título procura apenas enfeixar esse conjunto de poemas, dar significado às minhas insignificâncias.

O nome sintetiza o projeto do livro, a temática? Há um fio condutor que seria falar das coisas pequenas, onde se encontra o poético, as quinquilharias, à maneira de um Manoel de Barros ou Leminski?

Eu não me nego nem ao pequeno nem ao grande: Como fugir ao mínimo objeto, ou recusar-se ao grande?, perguntava Drummond. Eu lembro do Vinicius de Moraes, que fez um poema ao ver a sombra das pernas de um mosquito numa página em branco, e viu ali uma lira. Uma minúcia onde se encontra o poético. E a poesia pode tratar disso, de um detalhe qualquer, uma minúcia que reflete o todo, ou então abarcar uma coisa enorme, a história de um país ou de um continente, por exemplo. O importante é que o universal e o particular se articulem no poema. A Jane Tutikian, que assina as orelhas, pegou bem o espírito do livro ao apontar os fios que o ligam. Alguns poemas fazem uma ponte com a cultura grega, não para falar daquela período e suas histórias, patrimônio da humanidade, mas para trazer reflexões sobre a nossa época. Por outro lado, sempre tive interesse por tudo que remete à água, o que já aparece no meu livro anterior, Plano de Navegação. Em Quichiligangues encontra-se o rio universal que precisa ser atravessado, a tina de água quente onde se realiza o encontro amoroso, a enchente que pode trazer a morte. E há algo ligado ao aspecto de ter a visão e não ver, ou o seu simétrico, que é ser cego e ao mesmo tempo sábio, como o mitológico Tirésias, título de um dos poemas. Há o tema da música, em instrumentos menos óbvios como o trombone e o bandônio, que é como meus avós músicos se referiam ao bandoneon. Tudo que trate da vida humana me interessa, do amor à luta de boxe, presente em Os Boxeadores.

E como foi o trabalho de seleção e edição dos poemas?

O mais difícil pra mim é selecionar poemas. A necessidade de escrever me leva a transformar quase tudo em poema ou conto. Escrevo muito e apresento pouco. Então a seleção é sempre trabalhosa. Levo quase um ano para montar um livro, mesmo um como esse que tem poucos poemas. E isso não quer dizer que ele seja bom. É apenas a minha seleção, quem vai julgar são os leitores e a severa crítica do tempo.

Comenta pra mim as epígrafes do Manuel Bandeira e do Guiraut de Borneill. Na do Manuel Bandeira há uma reflexão sobre as facetas da realidade e da imagem da realidade (“O arranha-céu sobe no ar puro lavado pela chuva/ E desce refletido na poça de lama do pátio./ Entre a realidade e a imagem, no chão seco que as separa,/ Quatro pombas passeiam”). E na do Guiraut há o anuciar de uma aurora (“E logo será aurora”).

As quatro pombas que passeiam entre a realidade do arranha-céu e a sua imagem refletida na poça dágua representam a própria poesia. Essa é a minha leitura do poema do Bandeira. Ele fala da realidade e da imagem da realidade, um símbolo, uma palavra, enfim a coisa que está refletida na poça da água. Mas entre a realidade e seu reflexo, que pode ser visto como o reflexo artístico ou lógico - pois algum liame sempre terá com a realidade – ele coloca quatro pombas passeando. E acho que essas pombas têm muito a ver com a poesia. Para mim pelo menos, a poesia é uma espécie de embate com o real, um embate direto, não inteiramente racionalizado, com o real. Inclusive é interessante observar que a poesia é anterior ao pensamento lógico. O pensamento lógico lá nos gregos é uma derivação, um desvio da linguagem poética. Então, ao nível da consciência, muitas vezes não se tem completamente o que o poema está dizendo. A poesia existe nessa faixa intermediária entre a realidade e a imagem, seja essa imagem artística ou racionalização. A outra epígrafe vem dos trovadores provençais, de uma época em que a música e a poesia ainda não estavam separadas. Esse “e logo será aurora” tem a ver com minha produção noturna e com o processo de mudança ininterrupta, um novo dia a cada dia, essa transformação constante de tudo e de todos. Enfim, a vida recomeçando sempre.

E não há também uma referência a uma esperança de mudança de uma realidade social difícil? Não há essa intenção de conotação social na citação dessa epígrafe?

Pode-se fazer uma leitura próxima a isso. Embora me pareça que uma certa colocação poética anterior, ali dos anos 50 e 60, quando muitos poemas esperavam o futuro, não seja a mais adequada. Esse futuro a gente não espera. Ou se trabalha para construí-lo ou ele não vem.

Queria que você falasse sobre o poema “Tirésias” e também sobre o significado da poesia e da arte. A poesia – a literatura em geral – consegue iluminar a realidade, provocar reflexão, enfim, sacudir o marasmo da vida cotidiana?

Nesse poema há uma espécie de empáfia de alguém que se dirige a um cego andrajoso. Quer saber como é a vida do cego, mas vem com uma superioridade muito grande. E no fim, talvez seja ele o mais cego dos dois. O poema é uma brincadeira com essa situação. No plano geral, a literatura e a poesia mexem, sim, com as pessoas. A arte tem um papel decisivo. Talvez nem todo mundo goste de poesia ou não tenha tido a oportunidade de conhecer poesia mais profundamente. E que ninguém se sinta obrigado a isso, como por vezes acontece na escola, o que impede o interesse. Mas se a gente pensar em perspectivas históricas, a arte sempre teve o papel de ajudar o ser humano a viver. Fortalece aquilo que dentro de nós nos liga uns com os outros. Torna o mundo um lugar habitável para a espécie e humaniza o próprio ser humano. Também por isso, a poesia e a arte são tão críticas.

Sim. A figura do poeta quase sempre me provoca uma indagação: o poeta é o cara que faz a crítica do ser humano e do mundo sempre ou sintetiza, capta (naquele sentido de ser a “antena da raça”) valores essenciais da humanidade?

Eu não penso o poeta como alguém que dita regras. Mas alguém que dispõe muitas dúvidas, que trabalha no desfazimento das certezas. A poesia no fundo é uma indagação do mundo e de nós mesmos, do coletivo humano, da nossa experiência sobre a terra.

Com relação à forma dos poemas, como foi trabalhada a questão forma e conteúdo do “Quichiligangues”?

Quando estou escrevendo um poema procuro ficar bastante atento a como ele está saindo. Procuro aproveitar a coisa intuitiva da criação, mas trabalho muito o poema. Busco atingir a forma que melhor expresse o seu conteúdo. Por isso vario muito a forma. Busco-a em toda a história da literatura que me é dado alcançar; em um ouvido atento para oralidade, não só a oralidade do que se fala na rua, mas em termos de poesia popular, recente ou medieval; e também num olhar reflexivo sobre a poesia contemporânea, do século vinte para cá, que é o nosso presente. Já joguei muito napalm na palavra, seguindo a senda do poeta adraugnav, que é vanguarda de trás para frente, principalmente no meu primeiro livro artesanal, de 1992. Hoje estou muito mais amplo, posso usar a terza rima dantesca, como no poema “Elegia da cantora de ópera”, que a exigia, ou tentar experiências raras, como a nasalização do verso, pouco conhecida. E tudo isso de uma maneira muito particular e pessoal, é claro.


Entrevista publicada originalmente no Jornal Vaia.


17/09/2008

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